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Por Sidnei Ferreira de Vares

  A palavra “estética” vem do grego “aísthesis” e significa “sensação”, “sentimento”. Diz respeito à análise do complexo das sensações e dos sentimentos originados na relação entre o sujeito e o objeto. Investiga, portanto, as produções, sobretudo artísticas, da sensibilidade. Partindo dessa definição, algumas questões, conforme propõe Kathrin Rosenfield, despontam no campo da estética, a saber: a) nossos juízos de valor quanto às coisas sensíveis são meramente subjetivas e arbitrárias? b) as regras do gosto seriam meras convenções, normas impostas pela autoridade individual ou coletiva? c) haveria no gosto um elemento racional ou uma capacidade autônoma de perceber e julgar?

Diante dessas questões que se nos apresentam, as obras de arte ocupam lugar de destaque na resolução desses dilemas. Como afirma Marilena Chauí, a relação entre inspiração do autor, beleza da obra e juízo de gosto do público, constitui a base sobre a qual o campo da “estética” se configura. Enquanto disciplina acadêmica, a estética começa no século XVIII, a partir da investigação do filósofo alemão Alexander Baumgarten (1714-1762). Antes dele, a estética estava integrada em abordagens sistemáticas da filosofia, que muitas vezes se confundiam com as reflexões auxiliares concernentes à teoria do conhecimento e à ética. Nesse sentido, os trabalhos de Baumgarten possibilitaram a separação da doutrina da beleza estética em relação às outras partes da filosofia, dando autonomia a essa disciplina por ele considerava “irmã gêmea da lógica”. Todavia, embora este autor tenha sido fundamental para esse processo, cumpre afirmar que a plena autonomia da experiência estética veio respectivamente com Kant e com Hegel. Com a consolidação deste campo da filosofia, algumas questões despontam como indispensáveis, a saber,  as experiências estéticas estariam submetidas a alguma finalidade predeterminada ou constituem uma ordenação lógica? A estética seria resultado da cultura? Ou seria a cultura resultado da inclinação estética do homem? Quem tem prioridade, os aspectos estéticos ou utilitários?

A maior parte dos manuais de estética, ao analisar o surgimento da arte encontra dificuldades em responder a essas questões sobre os fins utilitários e os fins estéticos, afinal, é bastante difícil saber, analisando as obras produzidas pelas culturas mais antigas, se estas obras buscavam ser estéticas ou utilitárias ou se ambos os elementos misturavam-se.

Segundo Ariano Suassuna, a estética era definida no período clássico como uma filosofia do belo, sendo o “belo” considerado uma propriedade do objeto. Entretanto, afirma o referido autor, havia um embate entre o belo da natureza e o belo da arte (produzido pelo homem), sendo este menosprezado em relação àquele, pelo menos até o século XIX, quando Hegel subverteu essa relação colocando o belo da arte acima do belo da natureza. A justificativa para essa inversão é que enquanto o belo da natureza é nascido uma vez do espírito, o da arte é nascido duas.

Mas essa definição da estética como “filosofia do belo” sofreu modificações ao longo do tempo, principalmente com os pensadores pós-kantianos que indagaram se o belo seria o único elemento apreciável numa obra. Em outras palavras, esses pensadores percebem que outros elementos compunham o campo da estética além do belo. O fato não era novo, mesmo Aristóteles considerava a comédia, arte do feio e da desordem, parte da estética. Outras categorias como o cômico, o feio, o sublime, o risível, etc., deveriam fazer parte do estudo da estética e não só o belo. Propunham esses pós-kantianos uma ciência da estética (e não filosofia), cujo objeto é campo estético, do qual era o belo apenas uma parte. A importância dos pensadores pós-kantianos foi justamente a de contribuir para ampliação do campo da estética, incluindo não só a arte apolínea, mas também a dionisíaca.[1]

  Referências bibliográficas

 BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a arte. São Paulo: Ática, 1985.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13 ed. São Paulo: Ática, 2003.

____________. Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. 2.ed. v.1. São Paulo Companhia das Letras, 2002.

COLI, Jorge. O que é arte. 15. ed. São Paulo: Brasiliense, 2008.

COSTA, Cristina. Questões de Arte. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2004.

LACOSTE, Jean. Filosofia da Arte. Traduzido por Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

OSBORNE, Harold. Estética e Teoria da Arte. Traduzido por Octávio Mendes Cajado. 2. ed. São Paulo: Cutrix, 1974.

ROSENFIELD, Kathrin. Estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

SUASSUNA, Ariano. Iniciação à Estética. 9 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.

 


[1] Mas o entendimento da estética enquanto “ciência do campo da estética” em detrimento de uma “filosofia do belo” é questionada por alguns autores, pois o termo belo não se refere apenas à beleza, mas diz respeito às sensações provocadas em nós quando diante de uma obra. Em outras palavras, o belo incluiria o feio, o sublime, o cômico, etc. Jacques Maritain em sua obra Religião e Cultura propõe que se adote aquela terminologia que se desejar. Já Ariano Suassuna admite que a estética enquanto “filosofia do belo” pode confundir, na medida em que o belo se caracteriza pela harmonia, senso de medida, fruição tranqüila se comparado ao feio a quem falta essas características. Para o autor, o melhor a adotar seria o termo “filosofia da beleza”, incluindo no termo “beleza” as outras categorias acima mencionadas.

 

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