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Veja os principais fatores que contribuíram para o surgimento da Filosofia na Grécia Antiga, a partir do ensaio de Vernant

[Por Rudinei Borges] 

“De fato, é no plano político que a razão, na Grécia, primeiramente se expandiu, constitui-se e formou-se. A experiência social pode tornar-se entre os gregos o objeto de uma reflexão positiva, porque se prestava, na cidade, a um debate público de argumentos.”  Jean-Pierre Vernant

 1. INTRODUÇÃO

O ensaio de Jean-Pierre Vernant, As origens do pensamento grego, analisa o contexto histórico do nascimento do pensamento filosófico, acontecimento que marcou decisivamente a história da cultura ocidental.

Apresentaremos as principais idéias defendidas pelo autor nos oito capítulos que compõem o ensaio. Vernant verifica inicialmente a situação histórica da Grécia desde a chegada dos primeiros invasores, a formação das primeiras tribos, a tomada de Creta, a adoção do sistema palaciano e a edificação da supremacia real. Em seguida, comenta a relevância desses acontecimentos na formação da polis, a prática da política, a ágora como centro da cidade, o nascimento da Filosofia e a cosmologia. Vernant traça, portanto, os elementos que propiciaram e influenciaram o surgimento do pensamento filosófico na Grécia Antiga.

2. QUADRO HISTÓRICO

Ao invadirem a península onde iriam edificar a Grécia como é conhecida na idade histórica, os gregos já encontraram o território ocupado por grupos fortemente influenciados pela cultura cretense e egípcia, etc. Os invasores, provavelmente de origem indo-européia, divididos em tribos, penetram separadamente na Hélade. Uma das primeiras tribos gregas a fixar-se no território helênico foi a dos aqueus ou micênicos. Fala essa população nova um dialeto grego arcaico e representa a roptura com a fase anterior; é, pois, possuidora de elementos novos e diferentes, como casas, sepulturas, machados de guerra, armas de bronze, utensílios, cerâmica, etc.

A invasão da Hélade é acompanhada de outras invasões ao redor do Mediterrâneo. A Ásia Menor, por exemplo, é invadida pelos hititas. É significativo que o povo de Tróia, cidade rica, tem algumas características estreitas aos invasores da Grécia, os mínios. Fabrica-se em Tróia a mesma cerâmica fabricada pelos mínios gregos, além de utilizar um processo similar. Os aqueus tinham um interesse pela região da Tróade, em particular pela fama de seus cavalos. Ambos conheciam o cavalo e deviam tê-lo domesticado em um momento anterior à vinda para a Grécia. Mais significativo ainda é que o cavalo terá um papel decisivo na expansão dos micênicos. Sua relevância está na sua serventia para fins militares, além de desempenhar um sentido mítico para os primeiros helenos. Representa elemento úmido, águas subterrâneas, mundo infernal, fecundidade, trovoada, tempestade.

A domesticação do cavalo e seu uso para fins militares devem, possivelmente, ter possibilitado aos micênicos a técnica do uso do carro em guerras. Documentos encontrados nos túmulos da cidade de Micenas traçam a figura de um guerreiro de pé em seu carro puxado por cavalos a galope em cenas de batalha ou de caça. O uso do carro intensificou a dedicação especial às atividades guerreiras e sua concentração em grande escala nos campos de batalha, decerto, exigiu uma autoridade que coordenasse esse trabalho. Tal autoridade é única e os homens dos carros são a ela submetidos. Supõe isso um Estado centralizado, extenso e poderoso.

Os aqueus pouco a pouco tiveram contatos com Creta, civilização desenvolvida cuja vida girava em torno do Palácio, e quando estavam suficientemente fortes atacaram-na e apoderaram-se dela. O uso do carro puxado por cavalos foi determinante. Como a civilização cretense era superior os micênicos acabaram por ser influenciados por ela, o que resultou numa cretização dos aqueus. Dessa forma a civilização cretense modificou-se, adaptou-se e sobreviveu, deixando salvo, também, sua orientação dos grandes reinos do oriente. As escavações recentes evidenciam a semelhança entre os palácios cretenses e os das proximidades da Mesopotâmia. A península grega e o mundo Egeu estavam ligados como povoação e como cultura. Forma-se, portanto, uma civilização cipro-micênica, em que os elementos minóicos, micênicos e asiáticos estão estreitamente incorporados. Dispõe de uma escrita derivada, como o silabário micênico, do linear A.

3. A REALEZA MICÊNICA

Os aqueus, em pleno desenvolvimento, superam os cretenses e estabelecem o Reino Micênico, com isso absorvem o sistema palaciano já desenvolvido em Creta; edificado, porém com estruturas notavelmente diferentes. O sistema palaciano da civilização aquéia é impressionante por sua força: trata-se de cidadelas cercadas por diversas muralhas, cujo solar tem no centro uma sala retangular chamada mégaron e a sala do trono. É o centro do poder , abrigando ao lado os chefes militares, os familiares do rei e os funcionários do palácio. Sua função militar é defensiva, pois preserva o tesouro real. O palácio cretense, por sua vez, apresenta uma divisão desordenada de compartimentos ao redor de um pátio central. É indefeso, por ser construído em nível igual à região circunvizinha cercadas de estradas em direção. Essas diferenças ilustram a supremacia do palácio no Reinado Micênico e o poderio de sua interferência.

O palácio atinge em todos os âmbitos a vida do povo aqueu: do setor econômico ao religioso, do político ao militar. Gerando, entretanto, constante dependência. São nele estocados jóias, taças, tripés, caldeirões, peças de ouro, armas trabalhadas, barras de metal, tapetes, tecidos bordados. Coordena a encomenda de armas, o equipamento dos carros, o recrutamento de homens para as batalhas que reino terá. Em torno dele são efetuadas as relações comerciais. Os produtos, os trabalhos e os serviços eram trocados entre si por seu intermédio. Oficializa casamentos, cria obrigações de serviço, recompensa serviçais,etc. O palácio conduz o reino para onde quiser.

O sistema palaciano micênico firma a figura soberana do anáx, do rei, que é chefe administrativo, religioso político, enfim comandante de todas as tarefas do reino, concentrando em sua pessoa todos os elementos do poder, todos os aspectos da soberania. Ordena o calendário religioso, vela pela observância do ritual, pela celebração das festas em honra dos diversos deuses, determina sacrifícios, as oblações vegetais, as taxas das oferendas exigíveis de cada um, segundo sua classe. A função religiosa do anáx se cristaliza como forma mítica. Ele é o senhor da fertilidade, senhor do tempo, mágico, Rei Divino.

O controle e regulamentação de todas as atividades sociais e setores econômicos pelo monarca são garantidos pelos escribas e por outros dignários. Os escribas sabem e tem domínio de todos os fatos e acontecimentos do reino, contabilizam a produção, os serviços especializados, as encomendas, até a mão-de-obra disponível e ocupada, as contribuições impostas aos indivíduos ou grupos, o movimento das atividades militares, os sacrifícios aos deuses, as taxas previstas pelas oferendas. Possuem um relatório completo de tudo interessa ao anáx. Todos os funcionários têm uma relação direta e pessoal com o monarca, isto é, uma relação direta de submissão, que os faz divulgadores do poder absoluto do rei em toda parte do reinado. Garante, também, o poder do anáx, uma aristocracia guerreira, os homens dos carros, que por sua relevância são privilegiados com estatuto e gênero de vida próprio.

Ficam fora dessa organização palaciana os aldeães, os moradores das comunidades rurais, os agricultores e os pastores. Findado a soberania do monarca prosseguiram a trabalhar as mesmas terras utilizando as mesmas técnicas de agricultura. Não mantinham uma relação tão absoluta de submissão ao sistema. Com a invasão dos Dórios o continente grego romperá a relação com o Oriente, o Mediterrâneo deixará de ser símbolo de expansão, desaparecerá a escrita, o rei e o sistema palaciano desaparecerão completamente, e retornará a uma forma de economia puramente agrícola.

 4. A CRISE DE SOBERANIA

O monarca na civilização micênica centralizava todo o poder, era senhor absoluto e tomava todas as decisões do reino, dominando-o em todos os âmbitos. Com a invasão dórica o anáx não tem mais poder de controle, de harmonizar a vida dos aqueus com o serviço dos escribas e demais funcionários da realeza. Agora, em tempos homéricos, há lado a lado duas forças opostas. A primeira é a aristocracia guerreira, cujas famílias mais ricas possuem terra e monopólios religiosos. A segunda é as comunidades rurais, formada por agricultores e pastores. O conflito violento entre essas duas forças possibilitará a alvorada de um momento de desorganização, de reflexão moral e de especulações políticas. Isso vai determinar um primeiro modo de “sabedoria” humana; bem longínquo, desde o princípio, da concepção aquéia do anáx absoluto.

Tais especulações políticas terão a condição de debate de oratória (agón), choque de argumentos em praça pública (ágora). Vai caracterizar a rivalidade relações de igualdade e ela não existirá se não for entre iguais. Coopera para uma noção diferente de poder essa nova maneira de pensar da aristocracia guerreira da Grécia. Pode-se falar de um espírito de igualdade, diferentemente do estado de submissão própria do sistema palaciano.

Não tem por objeto a phisis esse primeiro modo de “sabedoria” humana, o mundo dos homens, contudo. Interroga que forças o dividem contra si mesmo, Como harmonizá-las e unificá-las para que de seu conflito surja a ordem humana e da cidade, e que elementos o compõem.

Transformações sociais como modificações na língua, no vocabulário são importantes para esse novo pensamento. O vocabulário dos postos, títulos, funções militares some quase por completo. A metalurgia do ferro sucede à do bronze, a decoração da cerâmica excluem os elementos da tradição mítica anterior. Do passado separado do presente, do mundo dos vivos separado do mundo dos mortos toma consciência o homem. O significado de comando (arché) se separa da função real (basiléia), definindo uma realidade política. O comando é todo ano modificado, a escolha perpassa pela confrontação e pela altercação. As próprias lendas de Atenas, único ponto da Grécia em que resquícios da época micênica perduraram, revelam uma arché em decadência, dividida, não pondo mais em destaque um personagem único que domina a vida social.

Tudo o que sugeria de centralização política e administrativa a técnica do carro apagou, porque a imagem do cavaleiro é, agora, associada ao valor do combate, o brilho do nascimento, a riqueza de bens de raiz e a participação de direito na vida pública. Passa a cidade definitivamente a ser polis quando o palácio deixa de ser o seu centro e a Ágora, espaço comum, onde são debatidos os interesses da população, os interesses do público, torna-se o novo núcleo.

5. O UNIVERSO ESPIRITUAL DA POLIS

Não mais preservados como garantia de poder ou como particularidade da tradição familiar os assuntos da vida comum, os conhecimentos, os valores, as técnicas mentais são levadas ao novo centro da cidade: a Ágora, a praça pública. Tornam-se, no entanto, causa de análises, tomada de posição, debates e interpretações. Esse fenômeno instaura uma maneira diferenciada de relação entre os homens, o que é inédito e original, e garante à cidade a condição de polis na definição íntegra do termo.

Frente a essa realidade, em que a vida do grego é levada a público, tornar-se-á a palavra por excelência instrumento político. Da autoridade do Estado, do meio de comando e domínio será a arma principal. É a palavra o encontro das contradições, a argumentação, o debate. Exige a peithó, a persuasão, assim aquele que melhor persuadir, apresentando melhores argumentos vencerá. A arché, o comando, dependerá da palavra, da persuasão, do debate entre opostos. O logos assume uma função política, fazendo aparecer na linguagem, na oratória, elementos de demonstração, análise e argumentação.

A polis, de fato, começa a existir desde o momento em que o público opõe-se ao privado e A certos processos secretos passam a ser praticados abertamente. A vida social é vista às claras, fica mais perceptível. Ganha, com isso, publicidade e divulgação. Leva à análise e avaliação o conjunto de condutas, valores, conhecimentos e técnicas tidos como verdadeiros. A escrita _ não mais como especialidade dos escribas, porém como bem comum de todos os cidadãos _, terá quase o mesmo valor da palavra falada o que permitirá no plano intelectual uma intensa divulgação da vida social da polis. Anaximandro e Ferecides, por exemplo, tornaram públicos seus saberes por meio de livros. As sabedorias ao serem escritas e divulgadas deixam de ser segredos, passando a ser verdades conhecidas, ainda que não sejam acessíveis a todos. Outro fator relevante é que quando escritas as leis da cidade elas passam a ser conhecidas e aplicadas a todos da mesma forma.

Cria determinada união na polis a visão que por mais diferentes que sejam os indivíduos que a compõem há entre eles uma certa semelhança. Essa visão fomenta a necessidade da isonomia: igual participação de todos no exercício do poder. Resultará no valor plenamente democrático, oposto ao poder absoluto de um só, a arché reservada a um pequeno grupo. A própria função militar deixa de ter e ser privilégio. O valor do soldado é o mesmo do cidadão, tem ele lugar formação militar e na organização política da cidade.

É com muitas resistências que a vida social adquire publicidade completa. Ao serem levados para o templo os símbolos religiosos perdem sua eficácia e poder, porque se tornam meras “imagens”, podendo ser visto por qualquer cidadão. Tal publicidade dos antigos sacras, antes escondidos e conservados como talismãs de poderio, não representa o fim das práticas religiosas secretas e privadas no universo da polis. É comum no período clássico muitas cidades colocarem sua salvação na posse de relíquias secretas, como ossadas de heróis em túmulos distantes do conhecimento do público. Essas relíquias davam poder aos magistrados qualificados, pois serviam de garantia da ligação deles com o mundo sobrenatural.

Logo a filosofia ao nascer na polis terá uma posição repleta de ambigüidade. Ora estará no debate contraditório da Ágora, na vida pública, revelando-se como preparação para o exercício do poder na cidade; estará disponível a cada cidadão, com aulas pagas. Ora se organizará secretamente como as seitas em confrarias fechadas, retirar-se-á do mundo, desejando instaurar uma nova cidade, privando a sabedoria e buscando a salvação na contemplação.

6. A CRISE DA CIDADE. OS PRIMEIROS SÁBIOS

Ao voltar sua economia prioritariamente para o exterior, tomando o mar como meio de expansão comercial, as cidades gregas adentram uma etapa de forte crise. A agricultura é destinada a produção de culturas mais lucrativas que podem ser exportadas e trocadas como vinha e oliveira. Essa conjuntura não deixa de favorecer no plano religioso e moral uma discussão em torno dos valores vividos pelos gregos. A economia marítima possibilita o resgate dos contatos com o Oriente e o mundo oriental não influencia somente a cerâmica e ornamentações, mas os costumes, o gosto pelo luxuoso, pelo requintado inspira a aristocracia grega. A riqueza aristocrática serve de elemento de prestígio e poder, com a união do valor guerreiro e as qualificações religiosas. As terras passam a ficar concentradas nas mãos de poucas, enquanto os agricultores são avassalados, resumindo-se apenas em sesmeiro.

São os sábios que contribuem para o novo quadro de noções fundamentais da nova ética grega gerado pelas discussões nesse momento de crise da polis. Eles criam leis, trabalham pela organização da cidade. Possuem eles a sabedoria suprema. Surge daí a famosa lista dos Sete Sábios. O papel social e político atribuído aos sábios, permitem aproximá-los, ainda que não tenham pensamento comum. Os sábios discutem os problemas da ordem e desordem do mundo humano, inventando até as virtudes dos cidadãos.

Em um período em que as relações sociais aparecem marcadas pela violência, pela astúcia, enfim, pela injustiça qualquer crime deixa de ser motivo de vingança privada, transformando-se em causa de repressão judiciária. O assassino não é mais julgado apenas pelos parentes da vítima, é colocado, porém, à vista de todos os moradores da cidade. Nasce, entretanto, o direito. Surge carregado de um sentimento religioso, retratando a sensibilidade do grupo frente as violências. Retrata o grupo comprometido com seus interesses comunitários, assim toda ameaça individual é coletiva. Nesse contexto deve o sábio, agora, juiz trazer à luz a verdade, exigindo o relato dos fatos, testemunhas, demonstração, reconstrução, provas concretas, etc.

Atua em muitos planos o esforço pela renovação. É ao mesmo tempo religioso, jurídico, político e econômico. O mago invoca como poder divino, nomóteta, uma regra superior: a Dike, a busca do equilíbrio, estabelecedora da divisão eqüitativa dos cargos, das honras, do poder entre os cidadãos e grupos que compõe a sociedade grega. Vão se inserir mais diretamente na realidade social as aspirações da comunidade, guiando um projeto de legislação e de reforma. Modificará a vida pública, incorporando a organização política e a instituição judiciária.

7. A ORGANIZAÇAO DO COSMO HUMANO

A virtude, a areté, vai tomando um significado diferente do que tinha antes com o desenrolar dos acontecimentos na Grécia. O temor da impureza, encontra seu mais forte apogeu no sentido religioso, em que o cidadão não queria ter nenhum contato com sangue. Isso explica que não cooperou somente a efevercesncia religiosa para o advento do Direito; fomentou, contudo, um esforço de reflexão moral baseado em orientações políticas. Definiu-se a areté, virtude, como oposto a tudo que representasse como comportamento e forma de sensibilidade. Não tem mais seu aspecto guerreiro tradicional. Essa visão perpassa os agrupamentos religiosos. É fruto a virtude de uma disciplina severa, de um controle severo para escapar do prazer, das injustiças do mundo.

Ao firmar-se essa forma de pensar a virtude elimina todos os valores da aristocracia, vai levantar o ódio e divisões na polis. Levará a sociedade da Grécia à fatalidade o desejo incontrolável pela riqueza. Não se trata da riqueza econômica, mas de reflexão moral e ética. A classe média, por sua vez, é que assume o papel de restabelecer o equilíbrio entre as opostas noções de virtude.

A verdade que nasce no céu, nas alturas, portanto divina, adquire o sentido terreno, ao descer a terra e estabelece a Ágora como local central de sua exploração. A verdade é submetida a argumentações e discussões. Doença-cura, loucura-saúde, impureza-purificação comporá um conjunto, o cosmo humano sem diferenciação, um jogo de contraste. Pela forte busca de moral utilizando a música, a poesia, à dança, os ritos purificatórios e os choques propiciarão o surgimento do equilíbrio desejado.

O mundo social da cidade tomará forma de um cosmo circular, centralizado no cidadão semelhante a todos os outros, criando um espaço cívico. A virtude está presente em todos os cidadãos, presente em todos os espaços da vida pública.

8. COSMOGONIAS E MITO DE SOBERANIA

Pensadores como Tales de Mileto, Anaximandro e Anaxímenes introduzem um novo modo de reflexão em relação à natureza, da origem do mundo, de sua composição, de sua ordem, dos fenômenos meteorológicos, sugerem explicações livres das teogonias e cosmogonias antigas. É com essa discussão que nasce a filosofia na Grécia, sinalizando o declínio do pensamento mítico. É em Mileto na Jônia o palco do advento desse novo saber, um saber racional.

Da origem do mundo, de sua composição, de sua ordem, dos fenômenos meteorológicos, propõem explicações livres de toda a imaginação e dramática das teogonias e cosmogonias antigas. As grandes figuras das potências primordiais já se extinguiram; nada de agentes sobrenaturais cujas aventuras, lutas, façanhas formavam a trama dos mitos da gênese que narravam o aparecimento do mundo e a instituição da ordem; nem mesmo alusão aos deuses que a religião oficial associava, nas crenças e no culto, às forças da natureza.

Entre os físicos da jônia, o caráter positivo invadiu de chofre a totalidade do ser. Nada existe que não seja natureza, physis. Os homens, a divindade, o mundo formam um universo unificado, homogêneo, todo ele no mesmo plano: são as partes ou os aspectos de uma só e mesma physis que põe em jogo, por toda parte, a mesma força, manifestada a mesma potência de vida.

A questão do nascimento da filosofia é causa de controvérsias. Seu aparecimento é tão imediato que se fala até em milagre grego. Os gregos de modo absolutamente original e espontâneo criaram a filosofia. Tal tese está sujeita a preconceitos e equívocos. Contrapondo-se outros afirmam que a filosofia está próxima aos mitos antigos. É mais semelhante à construção mítica do que um sistema ordenado, demonstrativo e argumentativo.

Está claro que a cosmologia nascente delongou os temas fundamentais dos mitos e cosmogonias. Interroga igual ao mito: como a ordem, como o cosmo pode surgir do caos. A influencia dos povos orientais ajuda a compreender tal contribuição nesse processo de transição do pensamento mítico à filosofia. Homero e Hesíodo apresentam uma discussão da ordem do cosmo com o mito, o fracasso da soberania, a limitação do poder real, a liberdade do culto coloca a gênese do mundo de maneira mais independente.

No mito grego e no mito oriental a origem do mundo está integrada a uma epopéia real, as gerações dos deuses e as diversas potências sagradas. Exaltam o poder de um deus que reina sobre todo o universo; falam de seu nascimento, seus combates, sua vitória. O rei influencia até nos fenômenos naturais.

O filósofo não se contenta nem se limita em sua análise de physis a utilizar o vocabulário e as alusões do mito. A origem do mundo se transforma numa questão debatida publicamente. Os físicos ignoram o mito, suas pesquisas são diferenciadas dos cultos ligados ao mito. Em princípio a filosofia a filosofia usa elementos do mito, porém modificam intimamente a imagem do universo. As teogonias e cosmologias não relatam apenas a gênese do mundo, os mitos de soberania, entretanto.

 9. NOVA IMAGEM DO MUNDO 

Rompe a obra de Anaximandro com o estilo poético das teogonias; inaugura,pois, um novo gênero literário e nele se encontra claro com maior veemência um novo esquema cosmológico que marcará de maneira profunda e durável a concepção grega de universo. Contribui a obra desse filósofo para medir a amplitude da revolução intelectual ocorrida na Grécia, quer pelo vocabulário e pela importância da arché.

Essa reconstrução genética explica a formação de uma nova ordem que se encontra agora projetada num quadro espacial. Tem importância decisiva para o desenvolvimento da ciência na Grécia a desenvolvida astronomia na babilônica. É, pois, o aspecto geométrico, não mais aritmético que os jônicos situam no espaço a ordem do cosmo, representam a organização do universo, as posições, as distâncias, as dimensões dos movimentos dos astros, segundo esquemas geométricos. É com a geometrização do universo físico que consagra o advento de uma forma de pensamento, de uma explicação sem analogia do mito.

Em um espaço sistematizado constituído por relações puramente geométricas, tudo está dito, tudo está claro que Anaximandro, situa o cosmo. Caracteriza ao cosmo sua estrutura geométrica uma organização de tipo oposto àquela que o mito lhe atribuía. O que caracteriza a nova ordem da natureza é a igualdade e a simetria dos diversos poderes constituídos ao cosmo.

Recusa atribuir à água, ar ou qualquer outro elemento particular a dignidade da arché Anaximandro, opondo-se a Tales e Anaxímenes. Consiste a ordem na manutenção de um equilíbrio entre as potências. Não é mais hierárquica. Sem que nenhuma delas tenha domínio definitivo sobre as outras (o que ocasionaria a ruiva do cosmo), propõe harmonia entre forças iguais.

10. AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO

A história da Grécia Antiga é marcadamente caracterizada por constantes invasões, contato direto com o Oriente, fases de desenvolvimento e retrocesso. Esses fatores desencadearam no surgimento do pensamento filosófico. A Filosofia se opôs, afirma Vernant, às formas sobrenaturais, fantasiosas que o mito usava para explicar o mundo. Também a Filosofia, como atividade política, questionava e buscava pelo logos, a verdade – o pensamento demonstrado e comprovado, .

A queda do sistema palaciano herdado dos cretenses, mas que ganhou uma forma própria no Reino micênico, é decisivo para a quebra do equilíbrio farsante do anáx, o rei. O soberano como senhor absoluto era responsável e dominava todos os setores da vida social do povo. Isso com apoio dos seus subordinados diretos: os escribas, funcionários reais, etc. que expandiam os seus desejos por todo o território do reinado. Gerou a queda desse sistema em que era o palácio o centro o embate completivo entre a aristocracia, rica e dona das terras, com os aldeães, pobres e trabalhadores da terra. Meio aos conflitos desses grupos opostos surgirá os primeiros sinais de discussão, debate, enfim de política.

E é, pois, na cidade que a atividade política tomará a vida dos cidadãos quando a palavra se torna arma poderosa nas decisões da vida social. Passa a Ágora, a praça pública, a ser o grande centro da polis. Nela são debatidos, discutidos os assuntos de interesse popular, agora, expostos às claras, longe dos mistérios e segredos. É na praça pública com a prática da política, da persuasão, da retórica que nasce as primeiras formas de sabedoria: a filosofia.

As primeiras indagações filosóficas estão voltadas à natureza e à origem do mundo. Tratando-se de uma análise cosmológica do mundo, como a que fez Tales de Mileto na Jônia. A física se distanciará do mito, preocupando-se com uma análise sistemática e sem interferências religiosas.

Os primeiros sábios tiveram papel importante para o andamento da cidade, com a elaboração das leis, com a discussão de valores éticos e morais. Os primeiros saberes escritos foram tomados como verdade, porque procuravam sistematizar o conhecimento abordado. A Filosofia, então, obtêm significativa divulgação e alcance de público.

Na verdade, a filosofia nasceu meio ao embate de idéias opostas. A cada idéia buscava chegar à verdade por meio da argumentação e organização do pensamento. Seu advento foi, portanto, o ambiente de participação política de todos os cidadãos – a democracia.

11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos: estudos de psicologia histórica. Tradução de Haiganuch Sarian. São Paulo: Difusão Européia do Livro, Editora da Universidade de São Paulo, 1973.

______. As origens do pensamento grego. 7. ed. Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca. São Paulo: Bertrand, 1992.

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