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Por Paloma Andrade

Atualmente na historiografia, temos temas bastante diversos, mas dois em questão são bastante caros; etnia e gênero. A pesquisa que pretendemos comentar aqui se trata de uma dissertação de mestrado, defendida em 2008, e aborda justamente este tema. Márcia Maria Micussi de Oliveira propõe em Mulheres na fronteira: Identidade negra de mulatas na cidade de São Paulo, a partir de entrevistas de mulheres mulatas, buscar entender a formação da identidade, se de fato se consideram negras, ou se habitam uma zona de fronteira entre o ser branco e o ser negro.

O trabalho se apresenta de forma que possamos compreender conceitos utilizados e a pesquisa propriamente dita, ele é dividido em três capítulos; Racismo e gênero, no qual a autora falará da utilização dos dois conceitos; em Identidade das mulheres na fronteira é iniciada a pesquisa diretamente com as entrevistas, especificamente, as mulheres com menos de 45 anos, com o questionamento do que é ser mulata, em relação à identidade e à questão estética; e no capítulo Indo. Vindo. Sendo negras, a entrevista é com mulheres acima de 45 anos, em que existe um aprofundamento maior do que é ser mulata para elas.

Outra preocupação de Oliveira é apresentar dados na pesquisa (em anexo), que demonstram os tipos de desigualdade entre negros e brancos, e homens e mulheres. A autora trabalha com a idéia de que ser negra ou mulata trata-se de coisas distintas em relação à formação de identidade, e, portanto, considera necessário entender, juntamente com a problematização dos conceitos de raça e gênero, como essas mulheres se vêem, tendo conceito de identidade como sendo flexível e até circunstancial.

No primeiro capítulo demonstra que o termo raça surgiu em meados do século XVIII, com o nascimento da ciência moderna, e mais posteriormente foi muito utilizado no evolucionismo darwinista, tendo por objetivo, separar em grupos os homens, a fim de classificá-los e entender o funcionamento da natureza. De certa maneira, vemos os reflexos desse objetivo no racismo, quando se entende que o grupo classificado como negro, é inferior. Oliveira define o conceito de raça, como uma ideologia baseada em características biológicas, e é usado para justificar determinadas ações e teorias racistas, a fim de subordinar certos grupos, estruturando e naturalizando as relações sociais.

Atualmente, a questão de ser negro ou ser branco ainda é forte, levando algumas pessoas, pelo fato de terem pele mais clara ou mais cabelo mais liso a acreditarem que não sofram nenhum tipo de preconceito por serem “quase brancos”, a autora explica, que na verdade, o preconceito quanto a esse grupo, é mais perigoso ainda, pois é quase invisível. Na história do Brasil, a questão da mestiçagem acompanha a questão da formação de identidade nacional, visando uma proposta de “povo” brasileiro, a idéia de miscigenação na verdade era uma idéia de embranquecimento, e que visava esconder o racismo que contorna nossa cultura.

Depois de abordar a questão da raça, Oliveira nos traz a conceituação do termo gênero. De início, a autora questiona o conceito, colocando os estudos feministas como sendo racista, de classe média e branca (2008, p. 12).

Vemos aqui uma falha da autora ao reduzir o movimento feminista desta forma; temos hoje inúmeros trabalhos acerca da questão da mulher trabalhadora , talvez não tantos em relação a uma teoria do feminismo negro, como ela questiona, mas também não acreditamos que o movimento feminista esteja neste patamar, como sendo unicamente de burguês e branco. Porém, mais a frente citando Judith Butler e Elizabeth V. Spelman, a autora reitera a idéia de o feminismo ser racista, baseada nessas duas autoras, quando elas criticam entender a mulher enquanto categoria universal. A idéia de categoria universal, já foi ultrapassada, desde a década de 1980 com a terceira onda do feminismo, que inclusive a Judith Butler faz parte, não se utiliza mais o termo mulher e sim mulheres, entendemos assim, que o movimento feminista hoje, busca os feminismos e as mulheres e, portanto está longe de ser racista e burguês.

Analisando o conceito de gênero, Oliveira entende que é preciso compreender a questão da mulher mulata de forma diferente, não pode ser vista como unicamente mulher, nem como unicamente mulata/negra, deve sim, haver um diálogo entre os dois conceitos, para se entender essa especificidade. Nos dois capítulos a seguir, a autora inicia a pesquisa com as entrevistas. Todas as mulheres, sendo mulatas, foram criadas como brancas, e só construíram sua identidade como negras quando adulta. Porém, é circunstancial essa identificação, a autora mostra nas entrevistas, que por vezes, as mulheres mulatas por terem ascendência branca, se consideram em certos momentos como pardas ou morenas, o que corrobora com a sua idéia de identidade baseada no autor Kabenguele Munanga, de que é flexível e circunstancial; mesmo para uma das entrevistadas, que é participante do movimento negro. O que tem de mais interessante na pesquisa de Oliveira, é justamente o fato de que ela demonstra, que a mulher mulata pode se considerar negra ou não, e isso não é politicamente incorreto.

Outro ponto interessante que a própria autora confirma, é que, apesar de não fazer parte da pesquisa, foi identificado que o estereótipo da mulher negra como sendo excessivamente sexuada, incomoda essas mulheres, demonstrando assim, que a questão da sexualidade faz parte da construção da identidade delas. De forma que, essas mulheres, por se consideraram negras e quase negras, fazem parte de uma zona de fronteira, em que sua identidade está entre os dois grupos. A construção da identidade negra não é um processo fácil.

Chegando ao fim da pesquisa, a autora demonstra que o fato dessas mulheres viverem numa fronteira, transitando entre dois grupos, por se considerarem negras e por outro lado quase negras, não as postula como sendo incapazes de se definir, mas tendo assim, o direito de permanecer entre os dois lados, pois a identidade está em permanente construção, existem mulheres negras e mulheres negras, diferentes, mas não uma com mais direito que a outra.

Vale também destacar, que a complexidade dessa identificação, pode contribuir para uma pouca assimilação da questão do racismo no Brasil, pois como a autora coloca, a miscigenação pode gerar uma falsa idéia de que não há racismo.

O trabalho de Márcia Maria Micussi de Oliveira se mostra bastante interessante, quando nos permite um novo olhar sobre a construção da identidade da mulher negra, um olhar de dentro pra fora, a partir da fala das próprias mulheres negras. Elas não são confusas, o que é confuso é o olhar do outro sobre elas, sendo a raça uma questão mais ideológica que biológica, a idéia que se faz da etnia, e como o outro a olha, é que torna a identificação enquanto negra difícil para essas mulheres. O lugar dessas mulheres é a fronteira, e elas têm esse direito de permanecer nela, sendo negras, mas diferentes. Portanto, não é necessário contemplar todas as mulheres como negras, e sim, entender que existem mulheres, e não mulher, e negras e não apenas ser negra.

Referência bibliográfica

OLIVEIRA, Márcia Maria Micussi de. Mulheres na fronteira: Identidade negra de mulatas na cidade de São Paulo. 2008. 153 p. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica, PUC. São Paulo, 2008.

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