CINEMA & DEBATE UNIFAI

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Dia 18/08 reiniciará o Projeto Cinema & Debate UniFAI, com o ciclo “CINEMA E DITADURA NA AMÉRICA LATINA”. O Primeiro filme exibido será “UMA NOITE EM 67”

Dia 18 de agosto de 2012- às 13h30- Auditório do Unifai
Rua Afonso Celso, 711 – Vila Mariana – Próx. ao Metro Santa Cruz
Coordenação: Profs. Neide Boechat- Sidnei Vares- José Rubens Demoro Almeida – Vanessa Bertolucci

Colaboração: Thiago Rodrigues e Rodrigo Manzano

PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA DO PENSAMENTO POLÍTICO E SOCIAL -UNIFAI

Dias: sábados
Horário: de 07h30 às 14h00
Duração: 3 semestres
Início: 18/08/2012

Investimento para cursos de 2 semestres:
18 parcelas de R$ 350,00

Observações Gerais:
Desconto de 20% para pagamento até o 5º dia útil de cada mês valor de R$ 280,00

DISCIPLINAS OFERECIDAS

FUNDAMENTOS DO PENSAMENTO POLÍTICO

PENSAMENTO POLÍTICO CLÁSSICO

METODOLOGIA DA PESQUISA CIENTÍFICA

TEORIA POLÍTICA MODERNA I

TEORIA POLÍTICA MODERNA II

TEORIA POLITICA CONTEMPORÂNEA I

TEORIA POLITICA CONTEMPORÂNEA II

O PENSAMENTO POLÍTICO MARXISTA

INTRODUÇÃO AOS MOVIMENTOS SOCIAIS

PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO

INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO ECÔNOMICO E PENSAMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO

METODOLOGIA DA PESQUISA CIENTÍFICA II

O que pode dar certo?

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Por Arnaldo Dominguez

“Por nossa posição de sujeito somos sempre responsáveis” – (Lacan)

A Ciência e a Verdade. O niilismo, termo que teve origem durante o período imediatamente precedente à Revolução Francesa e que designava, em princípio, a atitude daqueles que não se posicionavam nem a favor nem contra a revolução, estendeu-se à uma certa filosofia negativa da existência humana que parece alastrar-se em nossa época globalizada.

O niilismo existencial, aonde nem a vida nem a morte teriam algum sentido ou valor e, consequentemente, os suicídios ou homicídios ocorreriam massivamente e por pura imitação ou por inércia, ou então, como afirmava Durkheim, cumpririam uma função social necessária a toda cultura, apresenta-se – para muitos – como um atual “sem saída”.

Entretanto, a psicanálise propõe uma saída para a compulsão à repetição e o que nela se insinua de pulsão de morte. Algo desta ordem, também, encontramos na arte. Contudo, são propostas que nem sempre dão certo! “A posição do psicanalista não deixa escapatória – diz Lacan – já que exclui a ternura da Bela Alma”. Trata-se da divisão entre o Saber e a Verdade. E acrescenta: “A redução (do sujeito) constitui o objeto da ciência”.

Assim, a ciência se endereça ao “sentido absoluto”. No próximo passado sábado 02 de junho de 2012, respondendo a um convite do Prof. Sidnei F. de Vares, da UNIFAI, quem coordenou o ciclo de debates “Cinema e Psicanálise”, comentei o filme de Woody Allen “Whatever Works”, de 2009. Tal expressão idiomática da língua anglo saxônica recebeu, nas legendas em português, diversas traduções. A primeira é destacada no título “Tudo pode dar certo”. Outras, no interior dos diálogos, são “faça o que for preciso” ou “qualquer coisa que funcione”. Portanto, percorrem a dialética desde o lugar de um quantificador universal, “tudo”, “qualquer coisa”, até o imperativo categórico que emula uma certa animação neurolinguística.

O bom conselho, quiçá, a la Shinhashyki: amar pode dar certo! Tem um “pode” ou um “quase” que apontam para a impossibilidade da completude, o que causa certo alívio. Sempre me lembro daquele cinéfilo (obsessivo) que suportou até o final o filme “9 e meia semanas de amor” graças a delimitação temporal oferecida pelo simbólico do título. Isso tinha hora marcada para acabar. Allen ficou famoso inicialmente por satirizar na “telona” a neurose cosmopolita da metrópole de New York, semelhante a qualquer outra.

Neste filme, Boris Yellnikof, interpretado magistralmente por Larry David, no ato de quebrar a quarta parede, como dizem, ou seja, ao revelar que ele tem um canal direto de comunicação com os espectadores (é o único do elenco que consegue nos ver), alerta-nos: Não se trata de um espetáculo destinado a que se sintam bem. A autoajuda ou o entretenimento não são seus propósitos, digamos. Contraria, nisto, aquele filme de Benigni: “La vita é bella”, de 1997, no qual o “belo” escamoteia o “horror”, apesar de que no jornal A Folha de São Paulo dessa época tenham anunciado que “o riso nos salva” (?). Nesta película Boris grita o horror: da condição temporária, da miséria neurótica que transformou a humanidade numa massa de estúpidos reprodutores de clichês (o mundo está tão cheio de gente estúpida que ser inteligente, como ele, é um fardo), dos preconceitos da sociedade (pseudo) puritana dirigidos contra os negros, os judeus, os gays, etc.

Todo esse sem sentido da existência humana e suas crenças religiosas idiotas. Representante da encarnação do último niilista verdadeiro resgata as sinfonias de Beethoven e até a Bossa Nova para se proteger de um universo massificado de jovens, niilistas também, mas aos quais não sobrou nada para poder negar. A “balada” que frequentam, por exemplo, chama-se “Esfíncter Anal” e sugere a metáfora direta de: um gozo de merda.

Boris parece ser o único sobrevivente do naufrágio da pureza intelectual, capaz de renegar os valores metafísicos redirecionando sua força vital à destruição da moral para que, finalmente, tudo caia no vazio que nos levará à espera da morte ou ao ato de causa-la. Somente ele compreende a insignificância das aspirações humanas e o caos do universo. Ele também despreza a ternura das Belas Almas tendo se transformado no Homem do Ressentimento que busca, no isolamento, a proteção necessária para seu desamparo. Projeta-se sobre todos nós naquilo que temos de arrogância, de desmesura, de suicidas, quer seja por vias “Egoístas” (dos desamparados do laço social); “Altruístas” (imersos na consciência coletiva) ou “Anômicos” (perante uma mudança súbita de lugar social), como classificou Durkheim em 1897. Casualmente, o mesmo ano em que Freud dissera a Fliess não acreditar mais em sua neurótica.

Essa “cota de sacrifício” exigida pelo laço social e suas forças morais reguladoras externas, afinal, é um ato particular endereçado ao Outro. Pois a pulsão de morte é presença silenciosa no sujeito e no laço. O inconsciente é o discurso do Outro. O inconsciente é o social. Poderíamos situar aqui algo que emana desde a origem da crueldade infantil, que, ao dizer de Freud nos três ensaios “é referida a uma pulsão de dominação que originariamente não teria por objetivo o sofrimento alheio, mas simplesmente não o levaria em conta”. Boris tampouco busca o sofrimento alheio, senão, pelo contrário, é vítima da perfeição e do abandono. É um excluído do bando, portanto, uma exceção. Ao se referir ao Rei “torto” de Shakespeare, Ricardo III, Freud diz que ele representa uma enorme ampliação de algo que acontece com nós todos. Tem o direito de fazer o mal! Boris não assume tão descaradamente esse direito. Apenas o exerce com as “criancinhas retardadas” às que ensina xadrez. É uma espécie de antigo “Maestro de Escola”, aliás, como muitos ainda o são ou como tantos analistas, quando na violência da interpretação psicologizante jogam pela janela um suposto saber que desconhece o/ao outro. Satiriza aquele que, de acordo com Lacan, não existe: “O homem da ciência”, e também a alguns psicanalistas que denunciam a “foraclusão generalizada” propondo uma espécie de retorno messiânico do Pai Imaginário. Os demonizadores, de que fala Jurandir Freire Costa. Convoca o paradigma da loucura da ciência que rejeita a subjetividade por razões metodológicas. “A ciência está louca – diz Coutinho Jorge – mistura espécies, clona os animais e quer fazer isso com o ser humano. O ápice da loucura é tentar transformar a reprodução sexuada em assexuada”. Se, por um lado, Boris representa aquele que “sabe tudo o que interessa”, debochando da mediocridade dos homens e atingindo também aos Eminentes Senhores da Academia sem poder se espelhar no símio de Kafka e nem usufruir do ato de Sartre ao rejeitar o Nobel de literatura, por outro, seu amigo professor de Filosofia faz um atravessamento discursivo perpendicular promovendo o saber e o valor no outro tido/dito como semelhante. Nesse caso, sua futura amante, a sogra de Boris, que o filósofo compartilhará com outro amigo numa “terceirização” do desejo insatisfeito, mais do que numa “ménage à trois”. O espanhol Juan Antonio Rivera, professor de filosofia, invocou Sócrates num livro para interpela-lo sobre o que ele diria a Woody Allen e seus filmes. Allen que foi expulso do curso de filosofia na Universidade de Nova York em 1953. Pois, digamos (antes de ler o livro de Rivera) que Boris transgride o Banquete de Platão e cede perante a insistência do amor transferencial de Melody (Evan Rachel Wood), jovem e bela quem, ao estilo de Alcebíades, parece ter encontrado o Ágalma (objeto a) na suposta genialidade hipocondríaca de seu benfeitor. Melody é o retrato da Bela Alma, feliz em sua paixão pela ignorância e “enfermeira” que cuida e sustenta o Gozo do Outro. No caso, um outro atormentado pelo saber no lugar da verdade. Orham Pamuk, num recorte que gentilmente enviou-me Íris Moraes Araújo e extraído de “Outras Cores”, escreveu: “Minha biblioteca não é motivo de orgulho, mas de vingança contra mim mesmo e de opressão”. Estará toda cientificidade intelectual condenada à loucura? Exemplos disso não são poucos. Mas, será por conta disso que Boris se defronta, no final, com a magia? Tenta desastradamente um novo suicídio quando Melody o deixa pelo jovem ator (do desejo materno) e cai sobre uma “vidente” que se fratura em seu lugar. Bela metáfora para a mulher enquanto sintoma do homem. Afinal, o que é um homem para uma mulher? Ora, um estrago! Na magia o saber está velado e, diz Lacan, a magia é sempre magia sexual. Longe do Viagra, neste caso. Uma tentativa extremada do diretor para arrancar-nos da condição farmacológica em que pretendem nos transformar. Mesmo considerada uma falsidade ou algo sem grande valor, a magia (a ilusão) provoca, no final, feliz para tantos, uma chatice para Boris e aqueles que comungam de sua lógica, uma comemoração. O fundamentalista homofóbico se torna gay, a do desejo insatisfeito goza à rodo, e Boris esquece de cantar Parabéns a você enquanto lava as mãos ou o Hino Nacional ao sentar-se na privada, o que ficaria muito cômico no caso do Brasil. Ouviram do Ipiranga as margens plácidas..? Tudo pode dar certo? Magia e religião vão à sombra da ciência. Logo, como cantava Atahualpa Yupanki: às vezes sigo minha sombra, às vezes (ela) vêm detrás. Coitadinha, quando eu morra, com quem vai andar?

Celular, individualismo e alienação

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Por Rodrigo Manzano

            Vivemos uma era que louva a tecnologia! Quem de nós não se regala com as beneficies que os avanços tecnológicos nos trouxeram? Há 50 anos, ninguém sonhava em pagar uma conta a distância, sem precisar pegar filas, ninguém tinha a facilidade de poder avisar que iria se atrasar para algum compromisso estando a caminho dele devido a algum imprevisto ocorrendo no trajeto, ninguém podia acompanhar em tempo real notícias sobre as mais diversas questões, vindos de diferentes lugares do mundo! Tudo se tornou mais fácil devido ao verdadeiro bum tecnológico que vimos nos últimos 35, 40 anos.

Um dos símbolos mais visíveis desses avanços da tecnologia é o celular. Tendo sido algo recente na história da humanidade, ele trouxe a possibilidade de comunicação praticamente imediata. Um instrumento que realmente veio facilitar nossas vidas, e que devido ao seu tamanho reduzido, pode ser levado para qualquer lugar realmente. Nada o supera, pois traz consigo a praticidade, além de trazer hoje, nas suas mais diversas versões, muito mais funções do que a simples comunicação com outras pessoas em lugares distantes, como foi pensado por Graham Bell a função do telefone. Jogos, acesso à internet, envio de mensagens, memória para arquivar livros, textos, enfim, uma infinidade de possibilidades em um objeto que pode chegar a pouco menos de 50 centímetros cúbicos. Algo que nos coloca diante de uma infinidade de possibilidades tão grande, que nos perdemos no uso desse objeto, a tal ponto que não mais sabemos se ele é o instrumento ou nós.

Se pararmos para olhar as pessoas em lugares públicos, nos assustamos com o número de celulares que vemos. Tornou-se quase um imperativo que as pessoas tenham celular, e quem não tem é quase que um excluído da sociedade tecnológica. Pior é o uso que se faz deles! Pessoas colocam seus fones para escutar músicas, ou ficam vidradas nas telas, naquilo que veem nelas, como se estivessem diante de um verdadeiro objeto de devoção. Porém, muitas vezes, esquecem-se de ver o que está acontecendo no mundo real à sua volta. Exemplifico o que digo com um fato que vi há algumas semanas em um transporte público. Alguém mexia tão entretida em seu celular, sentado em um banco do meio de transporte, que nem pode perceber ao seu lado que havia uma idosa em pé! Pelo modo que a pessoa estava tão presa pelo que via na tela de seu celular, tenho certeza que nem se deu conta da senhora que estava ao seu lado. Não usou da situação para não dar lugar, mas sim, nem percebeu que havia um ser humano ao seu lado, pois a máquina tinha maior importância para a sua atenção. Tal fato, se pararmos pra pensar, e não é o único que vemos em nosso dia-a-dia, nos mostra como a tão louvada tecnologia é extremamente deletéria, pois nos faz realmente substituir o orgânico pelo mecânico, o homem pela máquina. Se alguém já teve a experiência de ver um celular caindo no chão ou mesmo sendo roubado, as pessoas parecem sentir-se diante do fim do mundo, pois aquilo se tornou o objeto de fetiche mais importante para alguém.

A verdade é que instrumentos como o celular cada vez mais auxiliam no processo de alienação, já descrito por Marx e pelos frankfurtianos. As pessoas se afundam em dívidas para comprar o celular, ou qualquer outro objeto tecnológico, pelo mero prazer de dizer que têm. Pior, o uso de tais instrumentos acaba fazendo com que as mesmas se desumanizem. Pessoas tornam-se escravas das máquinas, desta tecnologia barata, e consomem sem a menor reflexão. O importante é comprar e usar, mesmo que não seja para nada de útil. Como professor, sou testemunha do quanto nossos alunos se alienam por causa dos celulares, se preocupando em acessar sites ou trocar mensagens durante a aula, pouco ou nada se preocupando com o conteúdo que está sendo exposto na aula, muitas vezes até mesmo fazendo severas críticas a este sistema que os torna consumidores, e o pior, objetos da tecnologia. O celular torna-se um símbolo da massificação, na qual pessoas de todas as idades hoje usam-no de alguma forma, e o pior, usam-no para esquecer do mundo que está à sua volta. Poucas pessoas usam esse tipo de tecnologia de uma forma realmente útil. Tornou-se mais um elemento de distração, e assim, de alienação. Colocamos nossos fones de ouvido, e esquecemos o resto do mundo à nossa volta. Acessamos a internet na sala de aula ou em palestras pouco interessantes, e acreditamos que estamos em situação de vantagem obtendo grandes informações que são colocadas na rede mundial. Enfim, acreditamos estar usando o celular, e no entanto, nós é que nos tornamos verdadeiros escravos das suas possibilidades, a tal ponto que não o deixamos mais. Tal fator, como já dizia no exemplo acima, é assustador, pois nos faz esquecer valores, entre eles principalmente o valor do respeito, pois nos esquecemos de respeitar as pessoas próximas, pois os nossos gostos pessoais que podem ser desfrutados em qualquer lugar pelo uso do celular são mais importantes. Haja vista quantas pessoas usam meios de transporte coletivo e escutam músicas em volume alto, sem respeito por ninguém, como se o gosto de um fosse realmente um gosto comum, algo para o bem comum.  Os celulares tornam-se o centro dos nossos mundos e tudo o que sai disso realmente não tem nenhuma importância. Porém, não percebemos com isso o quanto estamos nos alienando. Na verdade, o celular é um exemplo, mais que isso, um símbolo do individualismo ao qual nossa sociedade nos impõe, pois me fecho no meu mundo quando mexo no meu celular. O que me importa se quem está do meu lado está sendo incomodado, o que me importa é que meu celular me proporciona prazer.

Não sou contra a tecnologia, e acredito que qualquer pessoa com pleno uso da razão não o seria. Porém, precisamos aguçar nosso senso crítico e perceber que há coisas que passam dos limites. Já dizia Aristóteles que a virtude encontra-se no equilíbrio e que o vício se caracteriza por aquilo que está no excesso ou na falta. Talvez esteja faltando sensibilidade e humanidade e excedendo individualismo, consumismo e fetichismo de mercadoria. Talvez precisemos sair mais de nós mesmos, e deixar um pouco nossos celulares e outros “brinquedinhos tecnológicos” de lado, para voltarmo-nos mais aos outros. Somente quando passarmos a olhar de outra forma aquilo que as empresas de telefonia móvel passam a nos oferecer, podemos inclusive dar um basta nessa produção desmedida que tanto agride o meio ambiente, sem falar no lixo que produzimos com a troca de celulares que promovemos todos os anos, na maioria das vezes sem necessidade. Deixemos de lado o mundo digital, analógico, tecnológico, mesmo que não totalmente, mas o suficiente para olharmos o orgânico, o mundo da natureza, do outro indivíduo, daquele que com certeza, vale mais do que as músicas que eu baixei no último fim de semana ou da última prestação que eu paguei do meu mais novo modelo de celular.

O papel da universidade na sociedade brasileira: educação e pesquisa no ensino superior

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Por Sidnei Ferreira de Vares

(Palestra proferida no CIEE-SP no último dia 30/03)

Inicialmente, bom dia a todos. Gostaria de agradecer imensamente a presença de vocês e agradecer também ao convite que me foi feito pelo CIEE. Acredito que esse tipo de encontro, que, aliás, o Centro de Integração Empresa Escola sempre se esforça para realizar, contribua no sentido de uma discussão séria acerca dos problemas sociais e educativos que marcam a sociedade brasileira. Este esforço, portanto, não pode passar em claro. Bem, o objetivo do encontro desta manhã é discutir o papel da universidade na sociedade brasileira, como o próprio título da palestra apresenta sem muitos rodeios. Esse não é, efetivamente, um tema simples, pelo menos não para alguém que há alguns anos vivencia o dilema das universidades brasileiras de perto, sobretudo no que se refere ao Ensino Superior Privado. Sou professor universitário há 10 anos e muito cedo iniciei na profissão. Disso, certamente, decorrem algumas observações críticas em relação à maneira como o ensino superior se desenvolveu no Brasil, e também à maneira como atualmente está estruturado.

Minha proposta aqui é discutir o papel da universidade a partir de uma suspeita, reforçada ao longo de minha atuação como docente, a saber, a de que a universidade brasileira não cumpre o objetivo que deveria cumprir. Os motivos para essa “falta” são variados, mas, apontarei pelo menos três deles, a saber, (a) o desenvolvimento histórico e social da universidade no Brasil; (b) certa tendência antropofágica inerente à cultura brasileira (para me utilizar da expressão modernista), que geralmente retraduz elementos importados a sua maneira, mas que nunca são totalmente incorporados; (c) por fim, gostaria de ressaltar certa visão mercadológica, que invadiu o espaço universitário nas últimas décadas, e que acarretou uma série de problemas de ordem prática e ética.

Comecemos, portanto, com a análise histórica do desenvolvimento da universidade brasileira. Antes, porém, gostaria de me deter um pouco no surgimento da universidade, para depois falar de seu amadurecimento no Brasil. As primeiras universidades que se têm notícia surgiram no continente europeu entre os séculos XI e XII. Alguns estudiosos apontam a universidade de Bolonha como a primeira, e outros a de Paris. Esse é uma discussão vazia. O importante é saber que datam desse período. A maneira como surgem também não deixa de ser interessante. Algumas resultam de editos reais, outras de editos papais e há ainda aquelas derivam da reunião de professores, geralmente de escolas catedráticas, e que decidem fundar uma universidade.

Naquela ocasião a universidade atende um número muito restrito de alunos, quase sempre derivados da elite da época, isto é, da nobreza ou da burguesia que começava a se constituir. Ademais, sua estrutura física tinha pouco a ver com as universidades atuais. As aulas não eram realizadas necessariamente numa sala e a relação entre professor e alunos era certamente mais orgânica. O papel da universidade era o de exatamente integrar o conhecimento total. O método, embora rígido, estava calcado no trivium e quadrivium, que desde a antiguidade marcara a educação. Mas, há algo importante e que merece ser ressaltado: a universidade aparece com um espaço de produção de conhecimento.

Claro, alguns poderão objetar, essa produção tinha limites. Limites técnicos e mesmo culturais, haja vista a influência da religiosidade naquele período. De certo, essa influência atravancou o desenvolvimento da universidade, pelo menos até a modernidade. Mas, a partir do século XVII, a Europa passa de fato a ter uma produção científica de maior qualidade. Bem, no Brasil o chamado ensino superior é bem mais tardio. As primeiras faculdades datam do século XIX. A Faculdade de Medicina de Salvador e a de Direito do Largo São Francisco são exemplos disto. Até aquele instante não existiam faculdades e, portanto, os filhos das famílias mais abastadas tinham que estudar nas universidades europeias se desejassem fazer carreira acadêmica. Esse não é um fato irrelevante. São mais de 800 anos de atraso em relação à Europa. As diferenças são ainda mais gritantes quando se considera o surgimento da primeira universidade brasileira, a USP, em 1934, isto é, primeira metade do século XX. Com um caráter elitista, a universidade brasileira, pelo menos tinha algo importante nas suas raízes, a saber, ela procurou se desenvolver à luz da tradição europeia. Isso pode ser facilmente observado quando, por exemplo, se percorre a história da USP. E quanto aos professores franceses que vieram trabalhar no Brasil no intuito de contribuir para a estruturação aquela universidade? Gérard Lebrun, Claude Leffort, Claude-Levi Strauss, entre outros. Claro que essa presença trouxe resultados muito bons. Até os anos de 1960, pelo menos, a universidade brasileira tinha, apesar de sua incipiente estrutura, uma produção de altíssima qualidade, muito mais pela influência estrangeira no Brasil, do que propriamente por conta de uma inclinação cultural do povo brasileiro à ciência. Todo rigorismo intelectual e as técnicas de pesquisa desenvolvidas nesse período, devem muito aos ilustres estrangeiros que aqui estiveram, conquanto nomes como Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, Cruz Costa, Gilberto Freire, etc., também figurassem entre aqueles. Isso não tem nada a ver com “puxa-saquismo” ou com uma visão eurocêntrica. Simplesmente tem a ver com o que de fato aconteceu.

Isso, porém, não ofusca o brilho da geração de intelectuais brasileiros que seguiu e que contou com a ilustre presença de nomes como Otavio Iani, Fernando Henrique Cardoso, Alfredo Bosi, Antônio Candido, Darcy Ribeiro, enfim, um grupo brilhante de intelectuais. Contudo, a partir dos de 1960, mais precisamente com a instauração do regime militar, a universidade entrou num processo de sucateamento, que muito tem a ver com a série de acordos entre o MEC e a USAID (United States Agency for International Development), e que implicou na tecnização do ensino superior brasileiro, acompanhando o desenvolvimento industrial daquele período. No final dos anos 60, o regime militar facilitou a abertura de muitas universidades particulares. Aliás, muitas das universidades que estão no mercado atualmente, datam dessa época. A abertura dessas universidades, em si, não foi negativa, se tomarmos por base o fato de que, naquele tempo, o número de vagas nos estabelecimentos públicos ainda era muito diminuto. De todo modo, a divisão entre a rede pública e a privada fica mais delineada nesse momento. Deixemos, contudo, para falar das condições das universidades brasileiras no atual período, no final da explanação.

Passemos agora a analisar o segundo ponto que destaquei acima, isto é, certa tendência “antropofágica” que caracteriza alguns dos traços de nossa cultura. Durante a semana de 1922 a referida expressão foi projetada para se referir à maneira como os brasileiros se apropriavam de elementos culturais exportados. Trata-se, nesse sentido, de um termo de valência positiva, pois demonstra a capacidade de nossa cultura de retraduzir influências, dando-lhe um toque tupiniquim. Contudo, no campo da educação as coisas não foram tão positivas assim. Todo o sentido da universidade europeia, principalmente no que toca a ideia de universalização do saber, não se consolidou. Desde o século XIX, quando as primeiras faculdades são fundadas, elas se dirigiam a uma parcela minoritária da população, de modo que, longe de alcançar a todas as classes, a universidade brasileira caminhava para se tornar um antro elitista. Ademais, toda a estrutura que caracteriza as universidades europeias, simplesmente não se reproduziu aqui. Aliás, com raras exceções, podemos afirmar que até hoje as diferenças estruturais são muito significativas. Bibliotecas, laboratórios, professores estrangeiros, enfim, um conjunto de elementos que faltam às universidades brasileiras, mas não às estrangeiras. Em outros termos, nossa capacidade de retradução nesse caso foi muito pequena, para não dizer nula.

Mas o pior ainda está por vir. Refiro-me ao papel que a economia, representada, sobretudo, pelas grandes corporações, adquiriu no âmbito da educação. A partir do final dos anos de 1990, alguns grupos educacionais, ancorados nas brechas da lei, garantidas por governos que estão muito mais interessados em números e estatísticas, do que propriamente no alargamento da qualidade do ensino superior, perceberam o filão que representava a expansão das vagas com vistas às classes mais carentes. Nesse momento, muitas universidades, sobretudo particulares, passam a adotar métodos de captação de alunos sem maiores critérios. Vestibulares são substituídos por redações. O número de vagas entre universidades e centros universitários aumenta vertiginosamente, a ponto de termos hoje, em algumas áreas e cursos, mais vagas do que candidatos. E tudo isso sem o devido acompanhamento sério do MEC e do Ministério do Trabalho, o que resultou no sucateamento da remuneração docente e na qualidade duvidosa dos cursos oferecidos. A estratégica adotada, por um lado, foi a do barateamento dos preços das mensalidades, somada aos baixos salários dos professores e o descuido com a devida titulação docente, e, de outro, a uma propaganda agressiva e ilusória que pretende, a partir da inserção de um discurso de características teológicas, vender a ideia de que a felicidade individual (entenda-se a ampliação das oportunidades profissionais, o que implica em melhores empregos, salários, cargos, etc., típicos apelos da sociedade capitalista), só poderá ser alcançada via universidade.

O “capital cultural instituicionalizado”, como diria Pierre Bourdieu, através do diploma, se converte em diploma e abre portas. Isso é a pura lorota! O ensino superior fica assim reduzido a um “meio” e não a um “fim”. A mensagem é clara: adquira, o quanto antes, um diploma superior e conquiste o sucesso profissional (mais ganhos). Discurso atrativo, mas mentiroso. Sabe-se que na prática as coisas não funcionam bem assim. O diploma universitário não é uma garantia de estabilidade ou ascensão social. Este é um mito que os meios propagandísticos não cessam de difundir. Enquanto isso, preocupações básicas como qualidade de ensino, plano de carreira do professorado, desenvolvimento de projetos de pesquisa, iniciação científica, ficam a sombra. A discussão acerca da universidade fica reduzida a cooptação de alunos e as estratégias de marketing no sentido de “vender” o ingresso no paraíso via universidade.

A universidade está longe de ser um paraíso, embora também não seja um inferno. Ela é, sim, um espaço de formação e produção de conhecimento, e se os alunos não tiverem plena consciência disso, fica difícil, senão impossível, desenvolver um trabalho razoável. Ela não pode ser vista com um “meio”, mas como um “fim”. Seu papel é o de promover pesquisa, estudos em áreas específicas, com vistas ao desenvolvimento humano e tecnológico. Um país soberano depende estritamente disso. Mas do que meras estatísticas e índices de produção, precisamos reaver a essência mesma da universidade e, nesse sentido, revisitar suas origens está longe de ser um retrocesso, mas pode ser visto como uma oportunidade única para avançar.

CINEMA & DEBATE UNIFAI 2012

SABE QUEM ESTÁ DE VOLTA? PROJETO CINEMA & DEBATE UNIFAI

Dando continuidade, neste primeiro semestre de 2012 iniciaremos com o ciclo “Cinema e entretenimento (?)”. E o primeiro filme do ciclo é simplesmente imperdível, “BASTARDOS INGLÓRIOS” de Quentin Tarantino. É dia 17/03 (março), sábado, a partir das 13:30h, sempre com a participação de um convidado externo. Onde? Rua Afonso Celso, 711, próximo ao metro Santa Cruz, no auditório do UNIFAI. GRATUITO e aberto ao público. PRESTIGIE!

Para que filosofia da educação?

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Por Marcelo Luna

Talvez seja mais pertinente perguntar: Para que filosofia na educação? A resposta é simples: porque educação é o próprio “tornar-se homem” de cada homem num mundo de crise.

 Não há como educar fora do mundo. Nenhum educador, nenhuma instituição educacional pode colocar-se à margem do mundo, encarapitando-se numa torre de marfim. A educação sofrerá necessariamente o impacto dos problemas da realidade em que acontece, sob pena de não ser educação. Em função dos problemas existentes na realidade é que surgem os problemas educacionais, tanto mais complexos quanto mais incidem na educação todas as variáveis que determinam uma situação. Deste modo, a Filosofia na educação transforma-se em Filosofia da Educação enquanto reflexão rigorosa, radical e global ou de conjunto sobre os problemas educacionais.

De fato, os problemas educacionais envolvem sempre os problemas da própria realidade. A Filosofia da Educação apenas não os considera em si mesmos, mas enquanto imbricados no contexto educativo. Penso que disto decorrem duas conseqüências muito simples, óbvias até! A primeira é que todo educador deve filosofar. Melhor ainda, filosofa sempre, queira ou não, tenha ou não consciência do fato.

Só que nem sempre filosofa bem. A este respeito afirma Kneller (1972. p. 146): “se um professor ou líder educacional não tiver uma filosofia da educação, dificilmente chegará a algum lugar. Um educador superficial pode ser bom ou mau. Se for bom, é menos bom do que poderia ser e, se for mau, será pior do que precisava ser”. Que problemas no campo da educação exigem de nós uma reflexão filosófica, nos termos acima explicitados? São muitos. Permitam-me apontar apenas alguns.

Já que a educação é o processo de tornar-se homem de cada homem, é necessário refletir sobre o homem para que se possa saber o para onde se deve orientar a educação. É necessário, porém, que esta reflexão não seja unicamente teórica, abstrata, desencarnada. É preciso levar em conta a situação espaço-temporal em que ocorre o processo. Com efeito, não importa apenas o tornar-se homem, mas o tornar-se homem hoje no Brasil. Só desta forma podemos estabelecer com clareza o que, por exemplo, se tem convencionalmente chamado de ?marco referencial?, a partir do qual, numa instituição educativa, currículo, planejamento e atividades podem atingir um mínimo de coerência e de eficiência. Que teoria de aprendizagem adotar? Que métodos e técnicas utilizar?

Já afirmavam Binet e Simon correr “o risco de um cego empirismo quem se conforma em aplicar um método pedagógico sem investigar a doutrina que lhe serve de alma”. Não há métodos neutros. Não há técnicas neutras. No bojo de qualquer teoria, de qualquer método, de qualquer técnica está implícita uma visão de homem e de mundo, uma filosofia.

A filosofia é, assim, norteadora de todo o processo educativo. O maior problema educacional brasileiro sempre foi e ainda é, a meu ver, o denunciado por Anísio Teixeira no título de uma de suas obras principais: Valores proclamados e valores reais na educação brasileira. Quer em nível de sistema, quer em nível de escola, proclamamos belíssimos princípios filosófico-educacionais. Na prática, entretanto, caminhamos ao sabor das ideologias e das novidades e  o que é pior,  sem nos darmos conta da incoerência existente entre nossas palavras e nossos atos.

A segunda conseqüência a ser tirada do que antes dissemos é que também o educando deve filosofar, ou seja, deve refletir sistematicamente, buscando as raízes dos problemas – seus e de seu tempo – de modo a formar uma visão de mundo e adquirir criticamente princípios e valores que lhe orientem a vida. Só assim serão homens e não robôs. É preciso, pois, municiá-lo de instrumentos racionais e afetivos para que se habitue a ser crítico, a não se contentar com qualquer resposta, a colocar sempre e em tudo uma pitada razoável de dúvida, a cavar fundo e não se intimidar perante a tarefa ingrata de estar sempre questionando e se questionando.

A partir de minha já longa experiência de magistério, posso afirmar que há sempre fome de filosofia. Basta levantar um problema nos termos acima descritos para que se alcem as antenas, sobretudo as juvenis! Talvez porque, tendo uma percepção não muito nítida, mas agudamente sentida da crise, faltem aos jovens o instrumental necessário para explicitá-la, analisá-la e julgá-la, em razão do banimento a que assistimos da filosofia, até mesmo de nossos currículos escolares.

Não há, portanto, como fugir à filosofia no campo da educação. Ela se relaciona intimamente com a função nem sempre levada a sério e, não obstante, fundamental, de avaliar. De fato, a avaliação resume, de certo modo, ou acompanha, como um vetor ou como um eixo orientador, todo o processo educacional. Ela se faz presente no início do processo, ao estabelecermos as metas; no seu decurso, quando traçamos e executamos as estratégias; no final, quando julgamos o que e quanto foi cumprido. Ora, avaliar é emitir juízos de valor e estes implicam sempre, queiramos ou não, consciente ou inconscientemente uma posição filosófica, uma filosofia.

Uma frase, talvez, resuma tudo o que tento dizer: a filosofia é o aval da educação!

O compromisso social cristão

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Por José Renato Polli

“Respeitar as opções do outro é uma das maiores virtudes que um ser humano pode ter. As pessoas são diferentes, agem diferente e pensam diferente. Prefira tentar compreender à julgar!” (Florestan Fernandes)

Como reza a boa antropologia, o respeito à diversidade cultural, ao direito à opinião própria, são basilares para uma postura humanista. Mais que isso, trata-se de uma premissa ética. Ser humanista é tentar se desvencilhar de nossos preconceitos quanto ao que vemos e percebemos no outro. Se ele nos parece estranho em muitos aspectos, talvez tenha também algo (o que não nos agrada) que pode servir à nossa reflexão.

A psicanálise indica que o que falta no outro (ou em nós) é o que nos move para construir algo. Ater-se criticamente a uma análise, sempre subjetiva, não significa incorrer no delito intelectual e moral do assoberbamento.

Como dizia Nietzsche, não há fatos, somente interpretações.Contrastes e oposições entre formas de pensamento sempre haverá. No entanto, não podemos nos furtar à obrigação de refletir, com o auxílio da história e da ciência, sobre nossas ideias, nosso modo de ver as coisas. Como diz o filósofo: todo ponto de vista é a vista de um ponto. Fico me perguntando sobre o que é, afinal, ser cristão. E o que é não ser?

Costumo dizer que Cristo não era cristão. Sim, Cristo era praticante da religião judaica. A incitação à postura arraigada não é uma característica presente em Cristo (mesmo que Ele tenha se permitido condenar com veemência os abusos cometidos em nome da religião), somente nos humanos. Desde o início, os apóstolos disputavam entre si a quem caberia a conversão. Uma tendência judaizante a atribuía apenas aos seus concidadãos. O apóstolo Paulo defendeu a expansão do espírito cristão para todos: judeus ou gentios.

Essa tendência prevaleceu, afinal todos somos iguais diante de Deus. Falhos e, quem sabe, com algum potencial para o bem. E o que é o bem?Centenas de filósofos, desde Aristóteles, se debruçam sobre a análise acerca dos fundamentos da ética. Sobre a possibilidade de uma razão ou princípio que embase o significado do bem. Segundo Aristóteles, a ética e a política tem como fundamento a busca do bem comum.

Ao longo da história da Filosofia, surgiram as mais diversas correntes de pensamento ético.Hoje, o principal filósofo vivo, Jürgen Habermas, defende a possibilidade da escolha racional intersubjetiva de valores. Uma utopia, diriam alguns, uma ética para depois. Paulo Freire defendia a ética universal do ser humano, fundada no princípio da justiça social, no aqui e agora. Estudos teológicos colocam sob suspeita a intenção de Jesus em fundar uma instituição religiosa.

A tradição cultural se encarregou de fazer esse serviço. E ser cristão, o adepto das mensagens do evangelho, veio com a perseguição arquitetada pelos romanos. Inacreditavelmente esse o termo virou um rótulo e acabou se tornando algo oficial quando a igreja católica se romanizou. A eclésia, assembléia dos crentes, perdeu lugar para a dimensão hierárquica. A comunhão fraterna foi substituída pelo combate aos infiéis, mesmo que nas origens o cristianismo tivesse como fundamento o amor ao próximo.

Ser fiel ou infiel dependia do que a hierarquia definia. A diaconia como serviço, perdeu lugar para o bispado, o presbiterado. O sagrado passou a ser controlado, não compartilhado. A horizontalidade do serviço espiritual foi substituída pela verticalidade do poder clerical. A dualidade corpo-alma, acabou restringindo uma visão holística sobre o fato de compormos um mundo física e espiritualmente holístico. As questões morais e seu controle individual ocuparam o espaço da vivência comunitária, centro de todo ato de correção fraterna. O foro privado da fé alçou o “top of the list”, em detrimento das relações amorosas entre os crentes e não crentes.

A inquisição e o “atirar a primeira pedra”, foi a gota dágua para que a igreja se perdesse temporariamente em seus princípios. Fruto de um contexto de época. Prevaleceu uma tradição católica que tem seus méritos culturais, já que a história é um processo aberto, cheio de contradições. Mesmo em ambientes mais fechados, arejamentos à liberdade podem subsistir. Estando a serviço dos reis e rainhas, da propriedade feudal e do controle da fé, a hierarquia católica se afastou do povo que crê. Os pobres sequer adentravam ao recinto das catedrais. Mesmo que muitos tenham denunciado esse engodo, como o inigualável Francisco de Assis, o que prevaleceu foi o tilintar dos cálices dourados em que o sangue de Cristo seria bebido, enquanto a massa campesina morria na tenra idade. A quantidade de ouro existente em um mosteiro, representava a proporção da presença de Deus em seu espaço. Ser bispo ou abade era sinônimo de nobreza. A cultura, a filosofia e a própria teologia foram submetidas ao controle hierárquico. Alguns escaparam, por pouco (Galileu, por exemplo), outros não (Giordano Bruno, por exemplo).

Nem mesmo a Reforma Protestante, enigmaticamente, conseguiu dar conta de incorporar o espírito cristão original. Martinho Lutero apoiou o massacre de camponeses revoltosos liderados por Thomas Munzer (com todos os reparos que se possa fazer a esse teólogo protestante). Calvino arquitetou a tese da predestinação e deu contornos ao que Max Weber chamaria de ética protestante e espírito do capitalismo. Por vias diferentes, líderes católicos e protestantes assumiram o andar de braços dados com o poder econômico.

É bom que se faça justiça, ao menos temporariamente, já que a igreja católica condenava a usura. Em parte pelo princípio da luta contra a exploração capitalista, mesmo que, por outro lado, fosse uma poderosa senhora feudal e beneficiária de outra exploração.

Após a modernidade, bastou um esforço intelectual para que a humanidade acordasse do sonho capitalista e lá estava a tendência hierarquizante a “denunciar” o ateísmo do socialismo. Leão XIII teve o mérito de ser o primeiro papa a denunciar as condições dos operários na Encíclica Rerum Novarum, em 1891. No entanto, defendia a propriedade privada e condenava o socialismo, referindo-se aos males do capitalismo, dizendo que “os socialistas, para curar este mal (a condição operária degradante), instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para – os Municípios ou para o Estado”. Não dá para deixar de mencionar uma cena do filme “O Nome da Rosa”, em que William de Baskerville, ao perceber que os frades do mosteiro jogavam restos de comidas aos campesinos diz: “uma generosa doação da igreja aos pobres”. Uma interpretação equivocada sobre a luta de classes (instigada pelo socialismo) não possibilitava perceber que Marx apenas tratava de constatar uma realidade, o ódio já existia e era alimentado pela religião, precisava ser eliminado com o sonho socialista. Leao XIII pregava a via da conciliação entre classes, vendo os conflitos sociais na mesma perspectiva da antiga tradição social católica: a desarmonia é apenas fruto do desamor, da ganância. Tão somente. Esquecia-se, por razões óbvias do momento histórico em questão, que o cerne de toda desigualdade econômica é o controle da propriedade privada. Enredava-se pelo discurso moral, que a doutrina positivista alardeava em fins do século XIX.Uma fraternidade universal só seria possível dentro dos muros da propriedade privada e o socialismo já nascia condenado por interpretações frágeis que se empregaram ao significado da crítica marxista. Marx nunca condenou a religião em si, mas seu uso social em função de interesses das classes dominantes, colocando-a como um dos elementos da superestrutura. A “ditadura do proletariado”, foi uma “brincadeira” feita pelo filósofo alemão para se referir ao direito democrático das massas ascenderem ao poder (e, diga-se de passagem, pelas vias normais) e ajudarem a suprimir as diferenças sociais pela base. O que foi feito com a doutrina marxista nos países do leste europeu é uma outra história. O próprio Marx, prontamente, contestou as interpretações que foram feitas de seus postulados.

Mais tarde, a igreja progressista perceberia que o socialismo poderia ser relido, aproximado às causas evangélicas. O Vaticano viu desvios doutrinários onde parte dos membros da hierarquia percebia benefícios críticos e elementos para reflexão sobre o uso que se faz da fé e das causas evangélicas em favor da opressão. Não bastou o alerta dado ao jovem rico, não bastaram as admoestações para dar a César o que é de César, não bastou o desapego do pequeno Zaqueu como lição. Não bastou a fala de Jesus, sua denúncia contra a ganância dos ricos, sua denúncia à oficialização da religião, seu uso e controle por parte dos sacerdotes judaicos. Claro, ele tinha amigos bem sucedidos, como Lázaro. Mas houve a demonstração de que estar ao lado do evangelho, pode significar estar ao lado de uma causa: a causa dos desvalidos. Esquecendo-se dos mais basilares princípios do discurso evangélico, “cristãos autênticos” (que nunca alimentaram o ódio entre as classes) enriqueceram a custa da servidão, da escravidão e da exploração capitalista, com o beneplático, até recentemente, do discurso oficial da igreja. A religião católica foi utilizada para colonizar, desclassificar, menosprezar, doutrinar, converter de forma proselitista, povos e nações inteiras, sem o menor drama de consciência. Índios e negros eram considerados inferiores.

No Brasil, não bastaram as denúncias feitas por religiosos comprometidos com o evangelho durante o período colonial. Mas, como dizia um amigo sacerdote (Padre Paulo André Labrosse): onde falta a consciência humana, age o Espírito Santo. Como diz o antigo testamento, onde falham as lideranças religiosas, age Deus. E vieram mudanças, tardias e efêmeras, mas vieram. O Vaticano II, Medellín, Puebla, a Teologia da Liberação e a opção preferencial pelos pobres. O cristianismo se aproximava, por vias clandestinas, sem a total aprovação do Vaticano, do discurso socialista.

A igreja latinoamericana sinalizava para a necessidade de aliar fé e luta social, a obrigação do povo de Deus se engajar nas fileiras da cidadania. Ao mesmo tempo aconteceram muitos problemas no Brasil e em vários países do continente. Vieram as ditaduras. O Vaticano II ainda não fazia eco (e creio que não faz hoje, lamentavelmente). As Conferências de Medellín e Puebla tardaram a lograr êxito, especialmente no Brasil, por força de algumas tendências católicas que tentavam, desde o início do século XX, operar pela via da direita no movimento social, sindical e no meio educacional.Foi o caso da Ação Católica até meados da década de 60.[1]

A herança política da República Velha, da Era Vargas, do desenvolvimentismo, assumia feições retóricas entre partidos como a UDN e o PTB. Jânio Quadros e João Goulart foram eleitos, para presidente e vice. A renúncia de Jânio assombrou a direita, que enxergava o fantasma de Getúlio Vargas e o ectoplasma do comunismo na figura de Jango.

A solução temporária foi o parlamentarismo. O plebiscito de 1963 recolocou João Goulart na posição de presidente com plenos poderes. Pressionado pelas massas e pela direita, o presidente anuncia as reformas de base. Era o estopim da crise. Em março de 64 a tríade militarismo-burguesia-política externa americana assumia o controle do Brasil. Era a vez do arbítrio, do AI5, do SNI, do autoritarismo, de leis educacionais como a 5692/71 que desprezavam as Ciências Sociais e Humanas introduzindo ficções pedagógicas como Educação Moral e Cívica no currículo do Ensino Básico. Em 68, no entanto, a sociedade civil organizada saiu às ruas. Muitos cristãos leigos ou da hierarquia não tinham lido Vaticano II, Medellín. Decidiram apoiar o golpe militar. Pior, demonstraram oficialmente que eram a favor da ditadura.Na minha cidade, os empresários, padres e políticos se juntaram em um movimento em favor das causas mais retrógradas. A família tradicional (representada pelos senhores locais), a propriedade e o “anticomunismo ateu”. Como dizia Paulo Freire: “isso é velho demais, atrasado demais” e foi dito faz apenas quatro décadas e meia. Os ateus que se apinhavam na luta social nem mereciam a conversão, diriam os mais radicais.O perigo do comunismo (sic) justificava a expropriação dos direitos e o sucumbir da sociedade democrática. Religiosos eram perseguidos e torturados. Frei Tito de Alencar Lima se suicidou, por conta dos traumas psicológicos sofridos durante a tortura nas mãos de Sérgio Paranhos Fleury, que chefiava a operação OBAN (Operação Bandeirantes). O operário e líder comunitário católico Santo Dias da Silva era morto pela Polícia Militar de São Paulo. Milhares de homens e mulheres foram assinados sob o regime militar. Desvios impensados e da luta contra o regime ecoaram em atos de desespero político, como as guerrilhas urbanas e rurais. Muitos católicos não tinham consciência da necessidade de ajudar a apaziguar tensões políticas e conclamar as forças contrárias ao regime para a luta pela paz a partir dos direitos dos pobres e desvalidos. Não ajudaram a denunciar a ditadura em esforços legais e democráticos. Continuavam a “votar” na ARENA, no PDS, no PFL, a apoiar os que endossavam a maldade política. A efemeridade da democracia é um fato inconteste, conforme anunciou Claude Lefort. A água chegava ao pescoço, militantes da igreja eram presos e torturados. Alguns acordavam, lentamente, outros dormiam no silêncio dos anjos. Jornais católicos panfletários pró-golpe apoiavam o regime de exceção. Paulo Freire era expulso do país. Justo ele que era um confesso devoto, efetivamente autêntico? A casa de Dom Helder Câmara (o bispo vermelho e fundador da CNBB) foi metralhada por grupos governistas em 1968 e ele próprio seqüestrado. Bispos de São Paulo mais corajosos, como o Cardeal Arns e Dom Gabriel Paulino Bueno Couto assinaram o Manifesto de Brodósqui contra a ditadura.

Os responsáveis das igrejas progressistas de todo o Brasil assumiram o risco da prisão e da tortura escrevendo “Brasil Nunca Mais”. Os teólogos progressistas foram colocados no banco dos réus da comissão da doutrina e da fé. Muitos militantes católicos dos movimentos espiritualistas nunca tiveram oportunidade de ver a situação política com outros olhos. Alguns se omitiram. É uma pena. A mística bem que poderia andar de mãos dadas com o compromisso social cristão. Para fazer justiça, parte dos leigos que se engajou nesses movimentos, que faziam o contraponto à igreja progressista, especialmente os movimentos de jovens, não tinham a menor noção do que estava em jogo, já que em muitas localidades não havia abertura para que o discurso social e político da então engajada CNBB fizesse eco. As paróquias se tornaram seu centro gravitacional, Encontros de Casais, Movimentos de Jovens, Cursilhos de Cristandade, se tornaram a opção oposta à opção preferencial pelos pobres. [2] 

A fé como elemento da cultura é um grande bastião para os sofrimentos do povo, é preciso acreditar, rezar, esperançar uma vida melhor para todos acreditando na existência de um ser supremo. E esse ser não compartilha da violência, do sarcasmo, do moralismo, do controle, do arbítrio. O Cristo cósmico defendido por Teilhard Chardin não é o Cristo de muitos cristãos, porque eles não conseguem fazer convergir para a bondade universal, que é uma justiça inerente à natureza mesma do filho de Deus. Uma bondade que é utopia e construção. São cristãos que nunca viram que ditaduras não podem se constituir como regimes que visam o bem comum. Para muitos dos que participavam e ainda continuam participando de movimentos espiritualistas mistificadores, que não compreendem a mística cristã, fazer política é apoiar e fazer política direita, “optando” pelo discurso mistificador da fé, centrado no moralismo, nas “razões” não consensuadas (onde encontrar consenso em meio à contrariedade explícita?). Apóiam quem abusam da boa fé do povo durante o processo eleitoral. Como tendem para a falta de democracia no espaço eclesial, enxergam-na também (e a vivem) na política, defendendo-a. Não existe espaço para a subversão, não existe espaço para o Cristo subversivo, já que ele o foi: andou com os despossuídos, os analfabetos, os alijados, os doentes, as prostitutas, as crianças, os cobradores de impostos. Preferiu o povo humilde, não a hierarquia judaica ou os ricos. Preferiu os apóstolos, não os chefes religiosos ou políticos tradicionais. Nunca incitou a violência, assim como nunca o socialismo democrático a defendeu. Onde está a violência?No domínio, na razão instrumental, como dizem os filósofos da escola de Frankfurt. E onde há domínios não há democracia. Onde há controles não pode haver consciência coletiva. Onde se situam os controles? Podem ser identificados nas práticas institucionais (na igreja, nos partidos, no Estado, na mídia, na família). Onde se situa a democracia? Ele é algo recorrente ou temos ainda um longo caminho a percorrer para alcançá-la, construí-la? Está na esfera pública, como nos indica Habermas?

Parte desses cristãos continua naquela mesma perspectiva moral da idade média, que subjuga a política a “princípios religiosos” que não são compartilhados por todas as pessoas, especialmente de outras crenças. Por isso reificam as práticas discriminatórias, difamatórias, condenatórias. Bispos e padres se envolvem em atos abusivos e desrespeitosos em relação ao direito de opinião. A constituição brasileira de 1988 reafirmou o Estado laico e a liberdade religiosa. Mas há uma distância entre os direitos de cidadania e o dogmatismo eclesiástico. Execram defensores do aborto como uma questão de saúde pública, mas não questionam a distribuição de preservativos em postos de saúde. Uma flagrante contradição de princípios. São cristãos conformados, de batina e báculo, para quem há um total esquecimento de que “as prostitutas e os publicanos vos precederão no reino dos céus”. Arriscaria dizer que muitas meninas que abortaram também, sobretudo se foram forçadas a isso, sem o amparo social que mereciam como pessoas humanas. E mais, que “meu reino não é deste mundo”, uma clara definição de que não há um lado político em que instituições religiosas devam se colocar. As pessoas sim, devem proceder segundo a sua consciência.Não se deve subestimar a liberdade de consciência. Nem adotar práticas de corporativismo eclesiástico defendendo quem incorre em delito eleitoral. A igreja tem o direito de manifestar seus princípios? Obviamente. Mas não de querer impô-los ao conjunto da população. Lembremo-nos do etnocentrismo que teve como colaborador a religião católica. Lembremo-nos da condenação eterna aos diferentes. Lembremo-nos de que a salvação está proposta para todos e que Cristo já nos libertou do pecado. A igreja não é um bloco homogêneo, felizmente, como nenhuma instituição é. A sociedade é uma arena de lutas, as instituições também são. Mas a igreja é instituição ou povo de Deus? Comunidade universal dos crentes ou organismo/entidade da sociedade civil?

Alguns membros dessa entidade se prontificaram a correr riscos em nome da justiça social, como os riscos que todos os cristãos movidos pela justa ira, como dizia Paulo Freire, correm. Pessoas como o já citado Dom Helder, Alceu do Amoroso Lima, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduino, Dom Angélico Sândalo Bernardino, Dom Luciano Mendes de Almeida e tantos outros membros da hierarquia ou leigos que deram a vida em favor dos pobres e despossuídos deste mundo. Os pobres que, beneficiados com programas sociais, são vistos como vagabundos que não querem trabalhar, numa realidade histórica em que a visível construção de condições para o trabalho formal tem se dado a passos largos.

Nos anos 70 a igreja acordou, por um curto período de tempo, e se tornou o grande guarda chuvas que abrigava as resistências à ditadura. Celebrou junto com outras igrejas cristãs e não cristãs um dos mais belos atos ecumênicos já vistos, em pleno ano de 1975, na catedral da Sé, denunciando com coragem o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, um “judeu comunista”, no dizer dos generais. Dom Paulo Evaristo e o Rabino Henri Sobel se tornaram ícones da luta intereclesial contra a ditadura. O espírito ecumênico ganhou força e as diferentes igrejas e religiões se aproximaram. Novos ventos espirituais refrescavam o rosto do cristianismo.

A farsa da redemocratização culminou no Colégio Eleitoral. O Movimento das Diretas foi rejeitado pelo congresso, abria-se caminho para a “conciliação temporária” de interesses. José Sarney assumia o legado de Tancredo Neves e enfrentava um dos piores momentos econômicos do país. Tardou, mas a constituição de 88 abriu caminho para as eleições. Um novo espectro rondava o planalto central, a volta da direita raivosa. Fernando Collor de Mello criava um factóide político em torno de sua própria imagem. E caiu para dar espaço ao que já havia permitido iniciar, a onda neoliberal. Antes disso, em 79, muita gente voltou, as eleições se tornaram recorrentes novamente. Os cristãos puderam se organizar em outras bases e instituições. Muitos movimentos espiritualistas se transformaram ou terminaram. As Comunidades Eclesiais de Base podiam agora ofertar uma boa safra de cristãos comprometidos socialmente para os partidos mais diversos e sindicatos. Clubes de mães, sociedades amigos de bairro, se enchiam da presença dos militantes da igreja progressista. Os cristãos mudaram, passaram a se comprometer com a causa evangélica, unindo fé e política. A igreja se comprometia com os pobres, dava voz e vez a eles em seus espaços. Por um curto período, a aparente normalidade entre os muros das igrejas se consolidava. Não se imaginava a volta à grande disciplina, a reviravolta geopolítica, a escolha uma política externa e interna promovida pelo Vaticano marcada pelo retorno do controle hierárquico. Cardeais e bispos progressistas foram sendo substituídos por outros mais afinados com a visão de Roma. A Teologia da Libertação foi colocada sob suspeita, a Frei Boff foi imposto o silêncio obsequioso e as dioceses progressistas foram esquartejadas. Práticas que continuam até hoje, quando determinados bispos colocam na geladeira eclesial quem assume uma posição política diferente. Era o retorno da mistificação, espaço para os recuperados movimentos em que cristãos calados, participam até hoje. Ou melhor, calam apenas para determinadas questões, para outras estão abertos. Nunca ouviram falar do Cardeal Cardjin e do Método Ver-Julgar-Agir, nem da Ação Católica de Esquerda, já que os novos padres são formados em outras escolas pastorais, outras teologias. Nunca se preocuparam com as angústias de muitos jovens da minha geração, que militavam nas fileiras da Pastoral da Juventude, sonhando uma fé comprometida com a mudança social. Que liam quase devorando o Concílio Vaticano II, as Encíclicas Sociais, os documentos sociais da CNBB.

Evidentemente, nem todos os participantes desses movimentos se comportaram desta maneira, tiveram a oportunidade de conhecer outras experiências, muitas vezes fora de suas dioceses originais. Mas suas direções, afinadas com o discurso de bispos menos afeitos aos apelos populares, davam o tom de sua visão política e de mundo. Talvez por falta de abertura para outras visões, talvez propositalmente, talvez por convicções nunca postas em dúvida. Ainda hoje as Comunidades Eclesiais de Base funcionam a todo vapor, mesmo que muitos nunca tenham entendido o que essa experiência significa e apesar de todo controle. Para esses que não as compreendem, o amor ao próximo é a base de tudo, mas um amor deslocado da história, do sofrimento dos pobres e excluídos. Um amor caritativo e piedoso, mas insuficiente para o real compromisso cristão.

Os cristãos de direita, nunca imaginariam o que significa para um jovem de 23 anos, como Pedro Yamaguchi Ferreira, dar a vida pelos mais pobres em meio à floresta amazônica. Inebriam-se na vida litúrgica, mas não compreendem a liturgia como ato concreto de dedicação aos humildes. Eles estão com exemplos logo abaixo do nariz, mas não conseguem percebê-los. Não entendem que o amor a Cristo não se vive entre os muros das paróquias, ou em celebrações volumosas, porque “a fé sem obras é morta”. Muitos até se esforçam em obras de caridade, em trabalhos assistenciais, em pastorais que se dedicam ao trabalho de resgate da dignidade da pessoa humana. Mas com o que se comprometem politicamente? Com quais projetos políticos?

Projetos populares e participativos ou aqueles que cumprem ordens de organismos internacionais? Endossam o projeto neoliberal, capitaneado por quem deveria estar mais à esquerda. Endossam o projeto verde, que no mundo todo serviu de esteio para reformas à direita e se abstém de tomar partido (há controvérsias). Endossam o discurso da esquerda sectária que abdica da tarefa de construir junto e prega o voto nulo. Alguns até mudaram de lado, antes endossavam o popular, agora endossam os que fundamentaram políticas públicas pautadas pelo espírito privatista. Endossam a política vinda de cima ou a que se faz a partir dos de baixo? Dispõem-se a reservar um espacinho de seu tempo para discutir o orçamento, participar de uma seção na sua Câmara Municipal, ajudar a mudar os rumos da política feita pelos eleitos, entre uma oração e outra? Arregaçam as mangas em suas comunidades locais, discutindo questões de interesse coletivo em movimentos de saúde, em defesa da escola pública, nas associações de bairro? Ou vão na onda dos que talvez nunca leram os documentos da CNBB que denunciaram as injustiças patrocinadas pelos que ainda contaminam a vida econômico-política, infiltrados em partidos nada populares? As pastorais sociais de tendência popular fazem exatamente o contrário. Comprometem-se com o efetivo sofrimento do povo, sem uma perspectiva meramente caritativa. Claro, contestarão, enumerando uma série de pessoas do seu círculo político que destacariam também como cristãos autênticos. Mas o que me parece é que tem faltado leitura complexa. Há pessoas honradas em qualquer agremiação política, como há também desonrados. O mesmo pode se dizer da igreja? Sim, somos santos e pecadores, não? Padres pedófilos envergonham a igreja, que não tem culpa desses desvios. Eles devem ser punidos? Apedrejados? Ou vale a força da lei e do direito dos homens? Políticos corruptos envergonham os partidos políticos? Qual deles está imune a esse desvio? Não deveria prevalecer para estes a força da lei? Perdem-se os princípios de uma instituição religiosa ou política por quais razões? Por falhas humanas? Se disserem que sim, estaremos de acordo.

Então, por qual razão centramos fogo nos desvios (já que existe a lei) e perdemos o foco em relação aos projetos? Por qual razão não apoiamos que se cumpra a lei? Eu fico com a premissa de que o evangelho é revelado aos humildes. Não me alivio com a defesa incondicional de nenhuma pessoa, porque seria contraditório com relação à natureza humana, plena e decaída. Mas como humanista, não posso me furtar a uma leitura complexa, quase nunca precisa, sobre o que move a vida de cada ser humano.

Não sou como disse, afeito a rótulos, prefiro a liberdade de consciência, o espírito livre, independentemente da instituição política e religiosa que se me apresentam como “melhores”. Talvez por isso tenha me afastado delas, onde não percebi espaços para o efetivo debate democrático. Sou imune ao petismo sectário e ao catolicismo reacionário. Mas reconheço em alguns militantes da igreja e de partidos progressistas um efetivo compromisso com os pobres. Prefiro manter-me fiel a alguns princípios que julgo fundamentais, sem me declarar mais como parte integrante de um rótulo. Sinto-me livre para reconhecer o que há de bom e o que não há em qualquer espaço institucional, mas sempre preservando certa distância crítica. Talvez ainda esteja inserido na comunidade dos crentes, no grupo dos que defendem uma luta popular ancorada na democracia socialista, mas não necessito deste reconhecimento social. Sou a favor, da reflexão apurada, crítica. Talvez por ser filósofo e me dedicar à Sociologia e à História, penso que a dialética da contradição é, por um lado, uma dádiva do conhecimento, por outro, me esforço para que sejam construídas, especialmente através do trabalho educativo, relações dialogais melhor qualificadas, para não recairmos no adesismo barato, sem fundamento. A subjetividade é um outro valor que cultivo. O que se entende sobre o bem comum pode ter várias interpretações, como já disse. Quem sabe ele possa constituir-se como um princípio intersubjetivo, que pode ser discutido e aprimorado? Agindo como esses ditos cristãos agem, apoiando os projetos que apóiam, não creio que possamos atingir esse patamar consensual, quase utópico hoje em dia. Não dá para suplantar a força do domínio e do poder exercido pelos de cima sem a unidade dos de baixo. Uma unidade na paz, não como elemento de conciliação, mas como razão ética de força intersubjetiva. E quem está com os de cima? Quem está com os de baixo? Quem se cala e prefere a “neutralidade”? É preferível crucificar a perdoar? Ver a palha no olho dos irmãos, ou descobrir a trave no próprio? É preferível que os bancos das paróquias sejam reservados aos mais importantes, como na idade média? Que eles participem da liturgia como um direito adquirido aos mais destacados “fiéis”? E que seja anátema aquele que supostamente não compartilha das crenças cristãs? Não leram São Paulo? Não leram Jesus?

Ah, o velho Dom Paulo Evaristo um dia colocou um mendigo, desses que são expulsos das igrejas, sentado no altar da celebração fraternal. Exemplo ímpar.Esses cristãos confundem liberdade religiosa e de opinião com controle moral. Mas acreditam em tudo que é publicado na “imprensa livre”. Os vitimados pela falta de oportunidades culturais e educacionais, no entanto, não são tão ignorantes assim para que a tutela do padre, do bispo ou do líder partidário precise ser manifestada. Alguns dos que estão um pouco acima na cadeia social, parecem nunca ter lido absolutamente nada que tenha algum rigor científico. Desconhecem o significado do termo “dilema ético”, porque não o tem, vivem de certezas e ortodoxias, não do benefício da dúvida, não do sentido da complexidade e da noção de contexto. Esqueceram-se da compaixão, esqueceram-se do perdão. Esqueceram-se que em situações extremas, o que prevalece é sempre a consciência de cada um e que só a Deus cabe julgar. Pobres dos divorciados, dos destituídos do sagrado, dos homossexuais, dos que não compartilham mais da prática católica, buscando espiritualidade nas partículas de seu próprio organismo, no Deus não panteísta, mas condição imanente em toda criatura. Nenhuma vida perdida deve ser justificada, é verdade. Mas há dilemas morais em que escolhas não são movidas por racionalidades, teologias. São meras escolhas, difíceis, mas escolhas. Mas nenhuma alma viva deve ser atacada até à morte moral, porque isso é contra o evangelho.

Deixemos o nome das pessoas de lado e pensemos em projetos políticos. Não pessoalizemos situações, vamos olhar de forma mais abrangente que há uma malvadeza solta pelo mundo, uma malvadeza contrária ao evangelho. Uma malvadeza que na voz de um prêmio Nobel de economia significa impedir uma política para os excluídos, tornando o Estado um serviçal dos interesses privados.

Se tivermos que discutir a política econômica, fazer ver que ainda há um esforço enorme para que a efetiva mobilização popular aconteça; se tivermos que fazer ver que ainda há privilégios e concentração de riqueza, tenhamos coragem de assumir essa tarefa. Se tivermos que denunciar desvios de princípios, comecemos fazendo pela própria igreja, tenhamos humildade para assumir essa postura. Infelizmente alguns cristãos votam em quem beija o crucifixo em um palanque. Nos pastores televisivos (católicos ou evangélicos) sem teologia. Esqueçem-se que sujeitos a erros todos estão. Esqueçem-se do espírito fraternal e do respeito à pessoa humana e atiram a primeira pedra. Votam nos candidatos comprometidos com a grande imprensa, com o latifúndio improdutivo, com a destruição do patrimônio público, com o controle da feitura das políticas públicas sem participação da sociedade civil. Votam nos que endossam e engrossam as fileiras dos desmantelamentos neoliberais, nos que vendem o que é de todos alegando que o Estado deve se abster de interferir na economia, mesmo interferindo em favor da propriedade privada. Abdicam da fé cristã e continuam agindo como sempre agiram, fechando os olhos para o fato de que é mais fácil um nó bem grosso passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. E alimentam o ódio através de panfletos e homilias (e olha que o ódio de classes era considerado uma característica do socialismo, hein?). São contra tudo o que o evangelho prega. Particularmente, sou feliz por ter uma criança em minha família que se recusa a falar mal dos outros. Com apenas 11 anos de idade, dá um banho de cristianismo em vários sacerdotes e bispos que ocupam os altares. Até agora, só teve o benefício do sacramento do batismo e da eucaristia. E nunca será ordenada. Continuam considerando que só se pode viver a autêntica fé cristã dentro das paredes das igrejas. Continuam enaltecendo a “probidade administrativa” dos “melhor preparados” e dos que se declaram católicos ou cristãos. Desconsideram os operários que chegaram ao poder, os ateus, os budistas, os xintoístas, os umbandistas, os maometanos, os espíritas. Encontram a corrupção apenas onde desejam ver. Encontram as boas realizações e o “sucesso” da escola pública em determinados estados do país. Ficam felizes por ver seus filhos se tornando cidadãos “preparados” por essa escola que empurra todo mundo pra frente sem aprender, que despreza o professor. Rezam bastante e esqueçem-se do mundo, esqueçem-se que a vida é uma oração. Se houver um juízo futuro, a História dirá. Como há justiça divina, devemos esperar que ela se manifeste. Lavam as mãos todos os dias, como fez Pilatos. Crucificam o povo.O Cristo dos pobres, da mensagem revelada aos humildes, infelizmente está esquecido por esses cristãos, que se associam aos poderosos, que votam nos seus representantes, que cantam e dançam alegremente liderados pelos eminentes proporcionadores da cura e da libertação. Libertação em outra perspectiva, não a Libertação integral, social, política, ecológica. Que Deus me perdoe se minha crítica for ácida, já que não quero condenação, mas tenho esperanças em alguma harmonia possível. Consola-me o fato de Cristo ter dito que após admoestar um irmão que se recusa a reverter seus atos, devemos sacudir o pó de nossas sandálias e continuar nossa missão. Consola-me o fato de Jesus também ter permitido a si mesmo a raiva contra os fariseus hipócritas, sepulcros caiados. Ter usado o chicote contra os vendilhões do templo. E Ele nunca perdeu o amor pelos efetivamente arrependidos. Também tenho esse desejo. Penso mais em correção fraterna que expurgo. Não os condeno, mas conclamo à reflexão. Não me acusem de não possuir autoridade. Vocês gostam do argumento da autoridade autoritária, mas eu prefiro a autoridade dos argumentos democráticos, aprendidos com minha passagem pela igreja e pela minha caminhada intelectual.

Não me esqueço da caridade e da fraternidade, mesmo considerando-me um servo inútil. Não continuem rotulando e assumindo rótulos, por que “nem todo aquele que me diz senhor, senhor, entrará no reino dos céus”. Não se esqueçam das palavras de Jesus: “eu quero compaixão e não sacrifícios”. A compaixão com os sofredores deste mundo. Neste mundo em que Deus se manifesta, no aqui e agora.

Por fim, reconforto-me ao lembrar que ainda há outro tipo de cristão no Brasil, que nunca ficará acomodado esperando que Deus faça por nós, o que é nosso dever: promover a justiça e a igualdade. Muitos deles nem estão ocupando os espaços das igrejas, não participam dos sacramentos ou talvez nunca tenham ouvido falar em Jesus. 

 

[1] Sugiro a leitura da dissertação de Paulo Roberto de Almeida (Círculos Operários católicos: prática de assistência e de controle no Brasil- 1932-1945. PUC/SP, 1992), professor da Universidade Federal de Uberlândia sobre o papel exercido pelos Círculos Operários Católicos no Brasil, movimento que operava no meio católico conservador, infiltrando-se na luta sindical para dar contornos ao discurso em favor de direitos trabalhistas.

[2] Valeria a pena ler o texto de Vera da Silva Telles intitulado “Anos 70: experiências práticas e espaços”, publicado na obra “As lutas /sociais e a cidade”, organizada por Lúcio Kowarick e publicada em 1988 pela Editora Paz e Terra. Também interessante é o trabalho de Emir Sader “Quando novos personagens entraram em cena”, publicado pela mesma editora em 1989, demonstrando o engajamento social cristão nas lutas populares.

A polêmica lei SOPA e o individualismo nos protestos

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Por Rodrigo Manzano

Há alguns dias, folhava uma dessas revistas de grande circulação e a mesma trazia uma reportagem sobre o crescimento de protestos nos espaços públicos. De forma especial, manifestações na principal avenida da cidade de São Paulo pipocaram nos últimos tempos. Vemos desde causas justas, como a luta contra a corrupção e a exigência de transparência nas contas públicas, até causas que eu diria no mínimo polêmicas, como a luta pela legalização da maconha, algo que não representa propriamente um bem comum ou algo que trará benefícios à sociedade como um todo.

Na verdade, percebemos que os grupos se articulam e protestam de acordo com seus interesses, mas tal organização me leva a questionar se esses protestos realmente trazem algum caráter de mudança, levam a alguma reflexão crítica, ou se os mesmos hoje não passam de uma forma de “desencargo de consciência”, no qual aqueles que os organizam acreditam fazer algo pela sociedade, mas que na verdade acabam só por representar seus próprios interesses, e o pior, sabemos que muitos desses protestos reúnem uma massa que mal sabe contra o que está protestando e que vai ao “evento” apenas para poder sair da rotina, e quem sabe até curtir formas de manifestações como churrascos, farras com instrumentos musicais entre outros atos que levam a questionar a eficácia do protesto.

O assunto do momento é a polêmica lei SOPA (Stop Online Piracy Act) que tramita no congresso norte americano e que visa colocar limites ao acesso da população em geral aos conteúdos que a internet disponibiliza, de forma especial aos serviços de download de arquivos como músicas, filmes, livros, entre outros. Tal possibilidade tem deixado pessoas revoltadas ao redor do mundo, e a ação de hackers visando protestar contra a tal medida tem se tornado um dos principais assuntos trazidos pelos noticiários, sendo que os mesmos invadem sites das mais diversas empresas, bem como do próprio governo norte americano, criando uma espécie de “vingança” por terem perdido um dos maiores benefícios que a internet nos trouxe, a possibilidade de acesso a arquivos de forma rápida e sem custo. O cenário exposto até aqui é bem interessante, e obviamente, como professor, eu mesmo já me beneficiei dos serviços de download disponibilizados pela internet. Baixar livros para utilização em sala, ou mesmo para leitura pessoal, ou mesmo o download de músicas e vídeos, seja para uso didático ou para uso pessoal, é um benefício que agrada a todos. Porém, ao abrirmos qualquer rede social nesses dias, vemos uma verdadeira revolta generalizada e não esclarecida, por parte das pessoas. O que eu vi de bobagens escritas pelas pessoas quando se fala sobre a lei SOPA, só nos revela a falta de consciência política da população, assim como um verdadeiro protesto digno de “rebeldes sem causa” no qual ninguém vai às verdadeiras causas que levam a situações como estas, ou a questionamentos mais profundos, sendo que o que está por trás de tudo isso é o espírito capitalista, o mesmo que leva às diferenças sociais, aos casos de corrupção e à toda a falta de infraestrutura do qual somos vítimas, de forma especial em nosso país.

Em primeiro lugar, falando das bobagens que eu dizia ter lido em redes sociais, vi muitas críticas ao governo brasileiro, de forma especial ao nome da presidenta. A falta de consciência dos internautas já começa daí, afinal, como foi dito acima, o problema se encontra nas mãos do Estado Norte-Americano. Se fosse para ser organizado um protesto contra algum governo, o alvo deveria ser Obama e seus congressistas, e não Dilma, seus ministros e a Câmara Brasileira. Por mais erros que a política brasileira tenha, por mais que nossos governantes promovam ações que só tragam benefícios a eles e que por consequência prejudiquem a população, como aumentos exorbitantes de salários, benefícios a banqueiros, políticas que fingem promover a educação, a saúde, o emprego, nesse caso, o governo brasileiro está isento de culpa. É muito recorrente reclamações deste tipo na boca da população, na qual se acusa uma esfera do poder público que pouco ou nada tem a ver com o problema em questão. Só mostra o quanto o brasileiro é alienado ao se falar de política.

Em segundo lugar, o que está por trás das reclamações das pessoas que criticam tanto o SOPA, o porquê de tal situação trazer tanta indignação. As pessoas usam muito o argumento de que querem uma internet livre, querem livre acesso aos conteúdos e que tal medida cerceia nossa liberdade. Só que no fundo, tal situação traz tanta polêmica porque interrompe uma diversão pessoal. Pergunto-me quantas das pessoas que reclamam da medida realmente fazem download de informações importantes, ou se no fundo, o problema não seja a interrupção da aquisição de arquivos para unicamente uso pessoal. Daí, percebemos o quanto a causa é egoísta. Além do mais, esquecemos o histórico propriamente dito da internet.

Nascida no contexto da Guerra Fria, seu único objetivo era servir os interesses da grande potência ocidental capitalista na promoção dos valores do capital. Quando ela passa a ser sinal de compartilhamento de arquivos de forma gratuita, não precisa ser grande conhecedor das estruturas capitalistas para perceber que isso contraria a lógica do mercado. Ou seja, a internet que nasce para os interesses capitalistas, e que se firmou como uma forma de acelerar as relações financeiras e comerciais, acaba por tornar-se algo totalmente contrário a esses interesses. Obviamente que isso não duraria por muito tempo. Na verdade, o interesse do Estado americano é garantir que empresas que trabalham com algum tipo de direitos autorais não saiam prejudicadas devido aos downloads gratuitos considerados ilegais. Posso até considerar que realmente seja um abuso do Estado Norte Americano querer controlar a internet desta forma. Porém, da mesma forma que considero tal ato um abuso, considero também um abuso sermos bombardeados todos os dias por séries norte americanas, os, como diria Renato Russo, “enlatados de USA”, que só promovem o tão fascinante “american way life”. Assim como considero um abuso que as tropas americanas estejam há mais de 10 anos intervindo nos assuntos do Oriente Médio apenas querendo explorar petróleo, usando como pretexto a história de que se precisa implantar a democracia para o desenvolvimento nesses países. Assim como considero abuso, se voltarmos no tempo, o forte patrocínio que os norte americanos deram às ditaduras militares na América Latina buscando evitar a implantação de regimes supostamente socialistas, não sendo poucas as mortes que tal promoção yankee acabou gerando.

Assim, o problema é a face selvagem do capitalismo, que é colocada em primeiro lugar, e o ser humano, nesse sistema, torna-se apenas um mero instrumento, um objeto nas mãos das empresas que querem enriquecer às custas do consumo. E o protesto por parte dos internautas revoltados só revelam o quão forte ainda se encontra a ideia de fetiche da mercadoria, tão forte no pensamento do velho Marx, e que é viva na mente de uma sociedade consumista.

Desta forma, o que se percebe no protesto e na revolta daqueles que não aceitam a lei SOPA é apenas uma revolta individualista, algo que chega perto de uma “birra de criança” que se sente lesada por ter seu brinquedo retirado. Por que que ao invés de nos pronunciarmos tão veementemente contra a restrição a sites e downloads, não nos pronunciamos contra esse capitalismo que oprime e que segrega milhões de pessoas no mundo todo? Por que não buscamos construir uma sociedade mais solidária, inclusive como forma de se opor a esse capitalismo ferrenho? Por que não buscamos sair do individualismo que coloca as coisas como mais valorizadas do que as pessoas?

Nossa revolta pela restrição aos sites deveria ser muito menor do que nossa revolta pela falta de infraestrutura para toda a população, de educação e moradia de qualidade, entre tantas outras mazelas que o capitalismo e a lógica de mercado geram em todo o mundo. Porém, parece que o ser humano perdeu a sensibilidade ao seu próximo, e realmente se “maquinizou” sendo que o revolta mais sua perda de contato com as máquinas do que com os outros seres humanos.

É triste, se olharmos tal situação mais criticamente, o nosso egoísmo e mesquinhez diante de uma causa tão séria. Voltamos aqui ao começo do artigo. O individualismo nos protestos. Podemos ver claramente como o ser humano ficou de fora nos interesses de muitos dos protestos e revoltas. O que se está por trás é o interesse pessoal, o que me agrada. São coisas como estas que nos levam a perceber o quanto nossos protestos estão aquém das lutas das décadas anteriores. Lutávamos, ou melhor, lutaram, pois não vivi a época das lutas contra a ditadura militar, por verdadeira liberdade. Uma liberdade plena, que envolvia também melhores condições de vida para a população em geral. Hoje nos esquecemos dessa vertente da liberdade, e falamos de liberdade de um ponto de vista individualista. Assim, falamos de liberdade de acesso à internet. Mas será que realmente, na internet, temos acesso livre a tudo o que queremos?

Eli Pariser, um ativista americano, fez um estudo sobre os sites que acessamos, e percebeu um forte controle por parte da internet ao que queremos ver. Seu vídeo sobre o “Filtro bolha” circula na internet, e nos faz lembrar a filosofia foulcautiana, nos mostra o quanto é ilusória essa ideia de liberdade, principalmente relacionada à internet. Talvez só poderemos levantar a bandeira da liberdade quando junto a ela podermos levantar a da solidariedade. Para isso, precisamos vencer o individualismo que nos cerca, que corrói a humanidade. Ou então, vamos continuar preocupados porque não poderemos mais baixar capítulos de nossas séries preferidas enquanto nas ruas próximas de casa, pessoas passam fome e isso não nos comove.

A Geração Y, a Educação no Brasil e a crise da irresponsabilidade

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Por Rodrigo Manzano

Estamos às portas do início de outro ano letivo, e com o advento da abertura das aulas, sempre surgem as diversas discussões sobre a qualidade da educação no Brasil. Como professor da rede pública do Estado de São Paulo, sempre nessa época somos tomados pela discussão sobre índices de Saresp e similares que apontam o rendimento da escola e quase que religiosamente a responsabilidade sobre o sucesso ou o fracasso, sendo este segundo muito mais característico na atual conjuntura, recai sobre nós professores. Porém, até hoje, uma discussão realmente séria sobre educação no Brasil ainda não foi feita, de forma especial levando em consideração as opiniões daqueles que estão na linha de frente, ou seja, os professores.

A atual geração de estudantes, geração esta que nasceu na segunda metade da décade de 90 pra cá, é chamada de geração Y! Tal geração foi marcada por ter acesso ao conhecimento e á informação, pois praticamente nasceu com o acesso à internet disponível dentro de suas casas. Em um simples clique, sites abordando qualquer tipo de assunto podem ser encontrados e, segundo essa visão utópica, já a escola não teria o mesmo papel que teve há 20, 30 anos atrás. A função da escola hoje não seria passar conteúdos, pois estes seriam encontrados facilmente. Cabe aos professores serem muito mais mediadores do processo de aprendizado do que simplesmente transmissores de conhecimentos. Tal visão é importante e não retiro sua importância, porém, isso traz uma série de consequências que estão levando cada vez mais a educação a uma situação insustentável, sem que ninguém analise com seriedade que tal assunto precisa.

Exige-se dos professores hoje criatividade, saber lidar com tecnologias, fazer com que as competências e habilidades de sua disciplina sejam passadas para os alunos de uma maneira contextualizada, fazendo ter valor e significativo para o mesmo. A pergunta que se faz após esse cenário todo que foi exposto é: até que ponto esse tipo de educação tem dado certo atualmente? Como já foi dito, um verdadeiro caos educacional tem se visto atualmente! As políticas educacionais quem têm sido implementadas em todo o Brasil nem de longe fazem com que o aprendizado se torne algo válido. Pelo contrário, o que se percebe é que as teorias educacionais que tratam o aluno como sujeito de seu processo de aprendizado são aplicadas de uma maneira bastante defasada, diria aqui, e peço desculpas até pela expressão, de uma forma bem porca, que nem de longe ajudam a construir uma educação de qualidade. Juntamos ao mesmo tempo a imaturidade dos nossos alunos, que muito pouco aproveitam desse cenário, com uma política educacional mal aplicada.

Sabemos que nossos alunos são menores, ainda não têm a responsabilidade e a maturidade totalmente desenvolvidas, e que acabam sendo fruto de uma cultura que muito pouco valoriza a educação e o aprendizado. Porém, o processo educacional ao qual estão sendo submetidos, principalmente quando levamos em consideração a tão famigerada “progressão continuada”, nem de longe ajuda o aluno a desenvolver essas características tão necessárias ao seu desenvolvimento rumo à idade adulta. Usamos como argumento “o aluno precisa gostar de aprender” “o processo de aprendizagem precisa ser agradável” “cabe ao professor inovar e levar o aluno a gostar de sua matéria”. Lamento, mas esse tipo de argumento, pelo menos a mim, não me convence. Posso até concordar que uma aula criativa atraia os alunos, que recursos tecnológicos podem inovar, mas, não são tudo o que um aluno precisa. Há momentos sim que o aluno precisa de uma aula tradicional, pelo menos nos moldes em que vivemos de educação, com cerca de 40 alunos em sala e com uma gama de assuntos a serem tratados em cada disciplina, não dá pra ficarmos só em aulas totalmente criativas, com seja lá qual for o método que o possa agradar o aluno.

Tenho pouco tempo de experiência como professor, afinal, leciono há dois anos. Já usei vídeos de comédia, letras de músicas, poemas e outros textos, além de filme hollywoodiano, pra tornar minha aula mais atrativa. Deram certo, porém, sabendo fazer a relação necessária com a teoria. Não nego que minha disciplina facilita um pouco essas coisas. Mas no decorrer de um ano, se cheguei a fazer isso 10 vezes foi muito. Na maioria das vezes, a aula foi expositiva, usando de métodos tradicionais, e ainda assim alcancei meus objetivos. Não quero dizer com isso que sempre consigo meus objetivos. Pelo contrário, muitas vezes, mesmo usando de métodos “modernos” os  objetivos nem de perto foram alcançados.

O que quero dizer com tudo isso é que o problema no Brasil é cultural. Somos um país, lembrando aqui a classificação feita por Immanuel Kant, extremamente heterônomo. Só fazemos o que é certo se há uma lei que nos obrigue de alguma forma, e mesmo assim, com algumas ressalvas. Só pararmos pra pensar na tão polêmica Lei Seca, que reduziu acidentes de trânsito não porque deu consciência aos motoristas, mas sim porque as pessoas têm medo de serem pegas em uma blitz. Se isso ocorre quando temos em mente que o que está em jogo é a vida, quem dirá a educação? Queremos que nossos alunos estudem porque eles vão ter consciência de que é para o futuro deles! Lamento, mas a maioria dos nossos adolescentes mal tem alguma perspectiva sobre seu futuro. Num país em que se veem pessoas sem estudo sendo admiradas por serem excelentes atletas, de forma especial representantes da paixão nacional, o futebol, ou até mesmo ocupando cargos do poder público, a educação já deixou há muito de ser vista como fator de ascensão social. E o que é pior, pois o real motivo de uma educação de qualidade, que deveria ser a formação completa do futuro cidadão, esse nem de longe passa pela cabeça de nossos alunos, os representantes dessa geração Y, uma geração de pais despreparados, pois o que mais ouvimos hoje são os pais dizendo que não sabem o que fazer com seus filhos, que não são obedecidos e por isso acabam por fazer todas as vontades desses mesmos filhos, que vão às escolas sentindo-se invulneráveis, pois sabem que aquilo é necessário, mas que não lhes exige nenhuma responsabilidade, afinal, pra que estudar? Corremos um grande risco, pois os pais já não estão conseguindo dar responsabilidade alguma a estes jovens e o Estado, a partir desta situação, também está falhando nesse aspecto, afinal, o papel da escola, que deveria ser o de formar o cidadão, nem de longe está sendo cumprido. Nossas escolas tornaram-se, com o perdão da expressão, depósito de alunos, mas nem de longe são centros de aprendizado e cultura.

Quero terminar deixando claro que não sou nenhum defensor da palmatória ou de estruturas “panópticas” lembrando aqui a análise feita por Michel Foucault, para a educação. Porém, estamos vivendo um momento exatamente oposto ao que Foucault criticava em meados do século passado. O lema “é proibido proibir” entrou na educação como um jargão, e é sim, um jargão deletério. Os primeiros frutos dessa geração Y estão sendo colhidos, pois são as pessoas que estão saindo de nossas escolas nesses últimos anos! Encerro pegando os mesmos índices, pois ao fim do ano passado, os índices do Enem mostraram o como a educação está fragilizada, deficiente, em nosso país. Talvez esteja mais do que na hora de tentarmos uma síntese, vendo o que de bom teve na educação tradicionalista do passado, afinal, se ela foi tão ruim, por que temos tantos médicos, professores, advogados, engenheiros, entre tantos outros profissionais, de excelente sucesso e talento profissional? Será que as próximas gerações terão a mesma capacidade, a capacidade de substituir os profissionais e cidadãos que viveram até agora? Ou será que cairemos em um verdadeiro ocaso graças aos frutos da tão renovada educação, que quer apagar a mancha da escola tradicionalista, mas que até hoje ainda funcionou? Tantas perguntas e cabe a nós responde-las, porém, com atitudes.

Ipad, Guantánamo e a minha biblioteca

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Por Sidnei Vares

Tenho uma razoável biblioteca em minha casa. Embora nunca tenha catalogado os exemplares ou mesmo contabilizado o número de livros. Na verdade, gosto de misturá-los. Acho que é inconsciente, mas gosto de revirá-los, vez por outra, e ficar irritado ao não achar aquilo que está bem de baixo do meu nariz. Entre as estantes, fotos de intelectuais decoram os livros. Sartre, Durkheim, Marx, Piaget e Freud. Não sei o motivo exato, mas gosto de todos eles. Claro, cada qual ao seu modo. Desconfio que sei a resposta. Durkheim se opôs ao egoísmo típico dos utilitaristas. Marx denunciou a exploração da classe burguesa. Freud demonstrou o quão pouco sabemos sobre nós mesmos. Piaget, mostrou como o indivíduo se desenvolve. E Sartre, esfregou o peso da liberdade em nossas ventas. Claro, não acho que o mundo das ideias se resuma a estes pensadores.  Devo, contudo,  reconhecer que sempre os admirei. Quanto a mim, sou um mero leitor. Curioso e ignorante. Mas, voltando a minha biblioteca (singela se comparada a do falecido José Mindlin), gosto de admirar o colorido mosaico que se forma  com as diferentes capas de livros. Sempre em constante transformação, à medida que a disposição se altera. Gosto de espaná-los, com meu espanador de cabo longo. E, de vez em quando, subir na escadinha que guardo atrás de uma poltrona para apanhar os livros que ficam no alto da estante. Às vezes volto meu olhar para estante e a contemplo, como um todo, com enorme satisfação e um sorriso infantil no rosto. Fico tentando calcular o tempo que demorei para adquirir cada um dos volumes. Anos e anos, sei disso. A maioria foi compra. Pagamento à vista ou  no cartão. Uma parte foi presente. A outra parte esqueci completamente, talvez empréstimos. A memória falha às vezes. O importante é que os tenho e pronto. Certa vez – não sei quem disse isso -ouvi o seguinte: se  você quer ter uma boa biblioteca não deve emprestar seus livros, mas também nunca deve devolver os que pediu emprestado. Sábias palavras! Quantos livros perdi depois de emprestá-los? E, mesmo assim, continuo com essa prática. Penso que a cultura existe para ser difundida e não trancafiada. Coisa de professor. Contudo, admito que cultivar uma biblioteca não é a coisa mais fácil do mundo. Outro dia um colega me chamou de “ultrapassado”. Mostrou-me seu ipaid, seu e-book, e disse-me que carregava uma verdadeira biblioteca naquele aparelho. Abriu um livro para eu ver. Passou as páginas, dedilhando com desenvoltura o bichinho. Perguntei-lhe quanto custava.  Segundo ele, menos do que paguei para mandar fazer as estantes, ocupando, como fez questão de ressaltar, muito menos espaço. Confesso que me senti envergonhado. Velho, antiquado. Mas logo lembrei dos passeios que faço todos os dias com meus livros. Claro, um ou dois, por vezes três, debaixo do braço. Depende do dia. Literatura, filosofia, sociologia ou história. De acordo com meu humor (e o deles também). E o cheiro! Sim, o cheiro de cada um deles (pois cada um tem um cheiro). As páginas amarelas de uns e as brancas, alvas, de outros. As capas opacas, brilhantes, rasgadas, emendadas, duras, moles ou simplesmente sem capa. E a personalidade, onde fica? Cada livro tem uma personalidade. Disse isso ao tal colega, ele riu. Sinto quando um livro quer ser lido. Eles olham, afixam de tal modo o olhar que é impossível recusar. Os menorzinhos ao lado dos grandes parecem filhotes carentes, indefesos. Fico com dó. Os grossos parecem autônomos. Os dicionários são tão imponentes, donos de si. E as coleções, são como grandes famílias. Caetano, numa música chamada “livros”,  diz que “os livros são objetos transcendentes, que podemos amá-los do amor tátil que votamos aos maços de cigarro. Dominá-los, cultivá-los em aquários, em estantes, gaiolas ou fogueiras, ou jogá-los para fora das janelas”. É verdade. Eu, particularmente, prefiro que fiquem confortavelmente em minhas estantes. No máximo, na minha mesa. Adoro tocá-los, dedilha-los, enfim. Folhas secas são tão charmosas dentro de um livro! Adoro encontrá-las. E as referências de um antigo dono? Nome, ano. A quem pertenceu? Que estudava? Qual seu interesse quando começou a lê-lo. Essas histórias certamente dariam outro livro. Pensei em tudo isso. Ele insistiu e perguntou se não estava interessado em comprar um ipad. Com num estalo, lembrei do livro que estou lendo sobre Guantánamo, e disse-lhe que não. Imaginei o meu acervo encarcerado ali, naquele aparelhinho. Definitivamente, sou contra a prisão.

Cinema & Debate UNIFAI

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Dando continuidade ao projeto CINEMA & DEBATE UNIFAI No dia 19 de Novembro de 2011- às 13h30 exibiremos e debateremos o filme “OTELO”. Baseado no romance de William Shakespeare, o filme, dirigido por Orson Welles, é um dos clássicos do cinema. O Referido filme trata de questões relevantes, como o ciúmes, a inveja e a traição. O seu personagem principal, que empresta o nome a obra, é um general mouro que serve o reino de Veneza. Toda história gira em torno da traição e da inveja. Inicia-se com Iago, alferes de Otelo, tramando com Rodrigo uma forma de contar a Brabâncio, rico senador de Veneza, que sua filha, a gentil Desdêmona, tinha se casado com Otelo. Iago queria vingar-se do general Otelo porque ele promoveu Cássio, jovem soldado florentino e grande intermediário nas relações entre Otelo e Desdêmona, ao posto de tenente. Com a introdução do Prof. Ms. José Rubens e os comentários finais de Profa. Dra. Neide Boechat. CONTAMOS COM SUA PRESENÇA PRESTIGIE, COMPAREÇA, ASSISTA A UM BOM FILME E PARTICIPE DE UM GRANDE DEBATE. ABERTO À TODOS. ENTRADA FRANCA!
 
RUA AFONSO CELSO, 711 – AUDITÓRIO DO UNIFAI – PRÓXIMO A ESTAÇÃO SANTA CRUZ DO METRO.

Saudades do que não vivi

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Por Sidnei Vares

Durante a baixa Idade Média, quando as guerras diminuíram, a nobreza de espada, costumeiramente ligada às artes militares, se viu lançada num grande vazio de sentido. Não por acaso, os torneios esportivos (os chamados festivais, onde combates eram realizados), se proliferaram com vistas a dar conta desse flagelo existencial. Assim, os nobres podiam rememorar tempos idos e gloriosos, onde a honra, simbolizada pelo brasão, constituía um valor inegociável, e as armas a única maneira de resguardá-la. Cito esse episódio da história com vistas a refletir sobre a nova geração de estudantes da FFCHL da USP. Estes parecem sofrer desse mesmo vazio, isto é, sentem saudades do que não puderam viver. A maior parte dos alunos revoltosos, que sempre se viu como uma espécie de aristocracia intelectual do campus, gostaria de ter vivido durante anos 60 e 70, no ápice do regime militar, só para contribuir com a “revolução”. Muitos chegariam ao orgasmo se tomassem um “safanão” de Fleury ou um “esculacho” de Erasmo Dias. Como não vivemos mais sob uma ditadura, invocam com saudosismo esse período e se esforçam para exumar a luta contra a tirania dos militares. Esses jovens têm saudades daquilo que não puderam viver (e alguns professores do que viveram). Talvez se criássemos um espaço, como na Idade Média, para que pudessem lutar com suas sandálias de couro, bolsas a tira-colo e camisetas do Che (por baixo de seus moletons da GAP), contra algum tirano, de preferência um representante do grande capital monopolista (sugiro Steve Jobbs, pois já não pode retrucar), só para sentir a virtual sensação  (como em seus IPods de última geração) de realizar uma revolução, certamente a frustração diminuiria e, quiçá, a revolta. E ao som de Bob Marley exclamaria algum revolucionário aluno: – Viva à queda da bastilha, quer dizer, da reitoria!

A solidão como expressão do individualismo

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Por Sidnei Ferreira de Vares

[O presente trabalho foi apresentado durante a Jornada Internacional “O mal-estar na cultura: a solidão”, ocorrido em São Paulo-Brasil e em General Del Pico-Provincia de los Pampas na Argentina]

Quero agradecer a organização do evento e também ao convite. É com muita felicidade que participo desta jornada sobre a solidão. Também quero agradecer à recepção fraternal de meus coirmãos argentinos, cuja gentileza e zelo não poderiam passar despercebidos. E, até por conta disso, me comprometo não falar de futebol. Brincadeiras a parte não me sinto nem um pouco sozinho aqui com vocês.

Inicialmente, gostaria de fazer algumas observações a respeito do tema que dá título a essa jornada e pelo qual estamos reunidos. Não sou especialista no assunto e, portanto, é como um profundo desconhecedor da solidão que falo sobre ela. Todavia, penso que isto me dá algumas vantagens. Em primeiro lugar, a vantagem de poder explorar o tema sem sentir-me pressionado pela força da exatidão. Em segundo, a possibilidade de estabelecer relações com episódios da própria vida, onde a solidão é um de seus ingredientes. Todavia, evitarei debater o tema do ponto de vista filosófico-existencial. Conquanto esse seja um viés analítico importante, dispõe de um poder paralisante, à medida que deste ponto de vista a solidão se converte numa condição humana irrecusável a qual todos estamos submetidos.

Afirmar que a solidão é uma condição irrecusável, e de certo modo essencial, é dar uma resposta lapidada, dispensando uma discussão mais plural sobre o tema. Soa mais ou menos assim: “a solidão é uma condição irrecusável e essencial ao humano, e não há mais nada a ser dito a respeito do tema, pois a filosofia já o fez”. Assim, o indivíduo vive e morre só, e não há o que ser discutido.

A posição que sustento está no sentido oposto. Penso que discutir a solidão é possível, ainda que, conforme alertei, não seja a pessoa mais indicada para isso. Porém, pretendo contribuir para essa discussão adotando a perspectiva das relações que se estabelecem entre indivíduos. Com isso, quero dizer que o ponto de partida desta reflexão é o das relações sociais.

Segundo o Dicionário da Academia Brasileira de Letras, a solidão é o “estado de quem está ou se sente só; isolamento”. Já para o Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, a solidão é o “isolamento ou busca de melhor comunicação. No primeiro sentido, a solidão é a situação do sábio, que, por tradição, é perfeitamente autárquico e por isso se isola em sua perfeição. Afora esse ideal, o isolamento é um fato patológico: é a impossibilidade de comunicação associada a todas as formas de loucura. Em sentido, próprio, contudo, a solidão não é isolamento, mas busca de formas diferentes e superiores de comunicação: não dispensa os laços com o ambiente e a vida cotidiana, a não ser em vista de outros laços com homens do passado e do futuro, com os quais seja possível uma forma nova ou mais fecunda de comunicação. O fato de a solidão dispensar esses laços é, pois, uma tentativa de libertar-se deles e ficar disponível para outras relações sociais”.

Como se pode verificar, a “solidão” é identificada com “isolamento” ou mesmo com um estado “patológico”, o que dá ao termo uma conotação francamente negativa. Aliás, não são poucos aqueles que reforçam tal impressão. Basta destacar que para alguns, “a solidão é o mal do século”. Essa expressão, empregada sem muito cuidado, tende a ocultar um ponto fundamental, a saber, a solidão é “uma” condição humana. Notem que utilizei o termo “uma” e não “a” para me referir à condição humana da solidão. Isso significa que a solidão pode ou não constituir uma patologia. Ela é uma das condições possíveis. Não se trata, portanto, de uma condição alienígena ao universo do humano. É claro, porém, que tal condição tem causas que podem variar no tempo e espaço, o que lhe aufere um caráter histórico e social. E, nesse sentido, os antigos talvez lidassem melhor com a solidão do que nós, os modernos.

Hoje a solidão é vista com algum estranhamento. Isso fica mais claro quando pensamos a relação que a sociedade contemporânea mantém com os solitários. Não precisamos ir muito longe. Aquela tia solteira, ou aquele amigo que a despeito dos demais decide ficar sozinho. Mesmo que se considere o fato de que esse tipo de solidão não é o mais radical, ainda assim podemos nos deparar com críticas socialmente construídas ao “solterismo” de um e ao “isolamento” do outro. Fica então a pergunta: por que a sociedade é tão implacável com a solidão?

Longe de querer formular uma resposta definitiva, pode-se afirmar que a solidão é entendida como a negação da própria idéia de comunidade. Para o eminente filósofo grego Aristóteles, “o homem é um animal político”, ou seja, um animal cuja natureza se inclina à vida da pólis (da cidade). Não foi também o “estagirita”, em sua Ética a Nicomâco, quem afirmou que “uma andorinha só não faz verão”, procurando demonstrar que um homem não pode ser julgado por um ato isolado? É claro que os gregos não desvalorizavam a individualidade. Muito pelo contrário. Entretanto, a ideia de que somos seres sociais e estamos naturalmente propensos a viver em contato uns com os outros parece ter sobressaído.

Talvez a tradição cristã nos forneça algumas pistas sobre o tema. Vejamos uma das passagens mais conhecidas das sagradas escrituras, a parábola de Adão e Eva. Aqui, a solidão aparece como a negação da felicidade. Afinal, Adão, primeiro homem criado por Deus, habitava o paraíso. Ora, existe um lugar mais propício à felicidade do que o paraíso? Todavia, Adão era infeliz, e sua infelicidade, percebida por Deus, só foi parcialmente solucionada quando este cria Eva, sua companheira, o que, como todos nós sabemos, fez crescer os problemas de Adão. Porém, a moral da história é simples: o paraíso sozinho não tem graça, com o outro pode se tornar um verdadeiro inferno. Ideia esta que Deus não deixa de difundir através de seu “crescei-vos e multiplicai-vos”. Talvez, disso resulte o famoso ditado popular: “antes só do que mal acompanhado”. Pena Adão não tê-lo escutado antes de conhecer Eva, certamente permaneceria sozinho. Em suma, a solidão de Adão foi resolvida, mas a convivência com o outro lhe trouxe outros pesares, pois, como diria Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”.

Então, o que é a solidão? Penso que é um estado, que pode ser físico ou espiritual – ou até incluir a ambos –, desencadeado por fatores variados. Se tivesse que dar uma resposta, ainda que inconclusa, faria a partir da relação indivíduo-sociedade (que me é mais próxima em virtude da relação que tenho com a sociologia).

É, nesse sentido, que proponho de maneira despretensiosa e inconseqüente uma “tipologia” da solidão. Penso que a solidão pode ser de três tipos: (a) a “voluntária”; (b) a “circunstancial” (c) e a “relacional”. Em todos esses casos, encontramos variações. Elas podem ser “parciais” ou “radicais”. Vejamos como isso ocorre.

A solidão “voluntária” se dá por livre escolha. O indivíduo deseja ficar só, ou seja, não viver ao lado de mais ninguém ou estabelecer o mínimo de relações possíveis com o (s) outro (os). Pensemos no seguinte. Esse tipo de solidão pode ser “parcial” ou “radical”. Parcial é a condição daquele que decide se afastar do (s) outro (os) por um período calculado de tempo. Posso querer tirar “férias” do (s) outro (os), e sei que isso não durará mais do que o necessário. Mas existe também o caso daquele que quer viver só, como o personagem de Burt Lancaster no belíssimo filme de Visconti “Violência e Paixão”, cujo exílio consentido é interrompido por vizinhos que se mudam para o apartamento acima do seu. Ou mesmo pensar no personagem do filme dirigido por Sean Penn, “Na Natureza Selvagem”, em que um adolescente, Christopher, decide viver sozinho como um andarilho. Nesses dois casos, a solidão é uma opção, porém, radical.

Agora passemos ao segundo tipo, a saber, a solidão “circunstancial”. Aqui existem fatores que muitas vezes não são desejados, mas que influem na solidão do indivíduo. Assim como no primeiro exemplo, a solidão circunstancial também apresenta nuances. Posso ficar parcialmente só, por exemplo, em virtude do isolamento momentâneo a que fui submetido, retornando à vida normal assim que possível tal como a personagem de Juliette Binoche no filme “A liberdade é azul” de Kieslowsky, onde, após a perda do marido e da filha num acidente automobilístico, Julie passa por um momento de reclusão no qual enfrenta o peso da própria liberdade. Mas posso ficar radicalmente só (o que é mais difícil de acontecer), por conta de um acidente que me isolou numa ilha, tal como Tom Hanks, no filme “O Naufrago” e, nesse caso, dependente da fortuna para retomar ao curso normal da vida. Nesses dois exemplos, a solidão não foi calculada ou mesmo desejada, mas resultado de circunstâncias específicas e dramáticas que escapam a volição individual.

Há também o terceiro e último tipo de solidão a qual chamei de “relacional”. Este tipo deve-se, sobretudo, à incapacidade de algumas pessoas, por fatores que não cabem ser aqui discutidos, de se relacionar com outras. Por vezes, o temperamento difícil ou a timidez excessiva coloca o indivíduo em situações de solidão.

Toda essa descrição visa apenas demonstrar que a solidão faz parte da vida humana. Não acredito, apesar de admirar seu trabalho, que Tom Jobim tenha razão quando diz que é “impossível ser feliz sozinho”, embora não duvide que para algumas pessoas solidão em demasia possa acarretar tristes conseqüências, como na música “Um homem chamado Alfredo” de Vinícius de Moraes.

É nesse sentido que falo em solidão como expressão do individualismo. Embora algumas circunstâncias possam determinar um momento solitário mais ou menos intenso, independente de minha vontade, também posso escolher a solidão e, neste caso, ser solitário não deixa de expressar certa condição experiencial que me põe em conexão com o outro, por mais paradoxal que isto possa parecer. Ao escolher a solidão, me comunico silenciosamente com aqueles que me cercam.

Num mundo caracterizado pelo voyeurismo e pelo alcance das comunidades virtuais, parece incoerente se falar em solidão. Contudo, um alerta: a solidão não é a mera ausência do outro, mas também um estado de espírito, ou seja, passa pela maneira como cada um percebe o mundo e a si mesmo no mundo, o que explica a sensação de solidão do indivíduo que vive rodeado de gente por todos os lados. Seus efeitos, esses sim, são um problema para o homem contemporâneo.

CINEMA & DEBATE UNIFAI

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Dando continuidade ao projeto CINEMA & DEBATE UNIFAI No dia 22 de Outubro de 2011- às 13h30 exibiremos e debateremos o filme “O Retrato de Dorian Gray”. Baseado no romance de Oscar Wilde, o filme, dirigido por Albert Lewin e lançado 1945, é um dos clássicos do cinema. Adotando uma linguagem realista, o referido filme trata de questões relevantes acerca do prazer, da beleza e da moralidade. A apr…esentação será do Prof. Ms. José Rubens, que falará sobre a produção e a parte técnica do filme. A mini-palestra será realizada pelo Prof. Ms. Sidnei Vares, que abordará o roteiro a partir das categorias e conceitos de Platão e das reflexões de Umberto Eco. Onde? No auditório do Unifai Rua Afonso Celso, 711 – Vila Mariana Entrada Franca e aberta a todos CONTO COM SUA PRESENÇA PRESTIGIE, COMPAREÇA, ASSISTA A UM BOM FILME E PARTICIPE DE UM GRANDE DEBATE

 

SEMANA DE HISTÓRIA UNIFAI

Dias 10, 11, 13 e 14 de outubro RECORTES DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

2ª feira – 19h30 Prof ª. Ms. Ana Elisabeth Vasconcelos Tema: História do Jornalismo no Brasil Contemporâneo

3ª feira – 19h30 Prof. Ms. Jorge Luzio Matos Silva Tema: Tinha uma África no meio do caminho: História Moderna e Contemporânea nas relações Brasil e Índia.

 

5ª feira – 19h30 Prof. Ivan Akselrud de Seixas Tema: Ditadura Militar: quem tem medo da verdade histórica?

6ª feira – 19h30 Prof. Dr. Carlos Eduardo Riberi Lobo Tema: O Mundo Árabe na atualidade: revolução ou continuidade?

Onde?

UNIFAI

Rua Afonso Celso, 711 –  Próximo ao metro Santa Cruz.