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Por Rudinei Borges

[A carta foi lida a um grupo de idosos em Itaituba, interior do Pará]

Decerto, não saberia responder se me perguntassem qual o sentido da vida (da vida como tal e de minha própria vida). Talvez seja esta a questão que move a própria existência humana ao longo dos séculos. Talvez seja esta a razão de permanecermos por aqui com os nossos vários sonhos. Talvez também seja esta a razão que leva os poetas, os escritores, os artistas e as pessoas a cantarem e contarem suas dores e alegrias. Talvez todos os livros queiram somente responder a esta questão crucial e intrigante: qual o sentido da vida?

Mesmo neste instante em que já é tarde, em que os cães latem e o sol arde sobre os telhados das casas e o vento quase leve balança as árvores do quintal (as árvores novas e antigas, os pés de manga e de acerola, os pés de cupuaçu, as plantas que já existiam quando viemos morar nesta casa e as que plantamos depois e hoje crescem como as crianças da rua)… mesmo agora, neste instante,  não sei como dizer, ou não encontro palavras, para explicar qual o sentido disto tudo, o sentido dos rostos desconhecidos que vemos nos sonhos, da alegria que salta do peito sem razão evidente ou da lágrima que cresce dentro dos nossos olhos e brota para o mundo como brota o capim, as ervas e as grandes árvores que povoam a floresta. Neste instante em que as folhas caem no quintal. Eu não sei.

Talvez não haja, de fato, uma solução conciliadora para isto. Mas é certo que a vida, em parte, é o que fazemos dela. Com os acertos vitoriosos e os erros traumáticos. Ou com os acertos traumáticos e os erros vitoriosos. A vida é um poema que precisa ser recitado até o suspiro do último verso. Talvez um jogo, uma brincadeira de roda, uma batalha, um sofrimento, um riso. Para que definí-la? Talvez o que precisamos é sentí-la como profetizou Alberto Caeiro em O guardador de rebanhos, um dos mais belos poemas da língua portuguesa. Sentir apenas sem necessariamente conceituá-la. E isto significa seguir para a foz, como faz o rio.

Aliás, contemplar o rio, em especial o Tapajós, é como contemplar a um amigo que não vemos há anos. Foi isso o que senti depois de mais ou menos dois anos sem olhar para as águas verdeadas do Tapajós. É interessante, porém, que o rio jamais perguntará por que segue rumo ao mar, por que corre em direção ao Amazonas, como é o caso do rio de nossa cidade. Talvez, então, devemos optar pela resposta mais simples: para viver é preciso apenas viver; como para amar é preciso apenas amar.

Penso que quando estamos velhos estamos prontos para sermos francos, por vezes com brandura às vezes com amargura. Temos o direito de sermos verdadeiramente chatos ou verdadeiramente simpáticos. Ou as duas coisas. Temos o direito de sermos felizes. E, em particular, temos o direito de amar. Amar mesmo. Sem ressentimentos. Porque quando envelhecemos pode nos faltar tempo para tudo, menos para viver. Entretanto, isso é mera especulação, um conselho vago. O maior sofrimento da vida é não viver.

O que pode alguém com duas décadas e meia de existência contar a quem já passou por poucas e boas na vida. Não muito. Entretanto, afirmo com sinceridade que dormir é muito bom, comer é melhor ainda, viajar é algo que anima a alma, namorar é divertido, dançar mesmo sem saber é engraçado, rir é essencial, trabalhar é cansativo mas importante, caminhar ajuda manter saudável o corpo, silenciar é um remédio valioso e chorar é como encontrar a própria cura.

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