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Por Sidnei Ferreira de Vares

[Palestra realizada na Universidade Anchieta, em São Bernardo do Campo, SP]

Primeiramente gostaria de dar boa noite a todos os presentes. Boa noite também aos colegas que estão compondo a mesa comigo. Gostaria de agradecer ao convite, em especial ao Colégio Anchieta que por meio da Profa. Hidirlene entrou em contato comigo.

O tema sob o qual nos debruçaremos hoje, constitui, a meu ver, um tema bastante interessante, conquanto complexo, à medida que possibilita uma multiplicidade de leituras.

A questão da “vida pós-vida”, e esse é o motivo deste debate, mexe numa série de problemas, principalmente no âmbito da religiosidade. Tenho, porém, a missão de tratar o assunto de ponto de vista da filosofia. Penso que minha contribuição será mais no sentido de problematizar a discussão.  

E para dar início a nossa empresa, gostaria de falar do meu incômodo inicial frente ao título de nosso encontro, a saber: “vida pós-vida”. Confesso que fiquei incomodado quanto a este título, visto que a maneira como está posto negligencia um elemento determinante para a referida discussão.

Refiro-me à questão da “morte”. Sim, pois para falar em “vida pós-vida” temos que necessariamente falar na experiência da morte, pois ela é o limítrofe entre a vida vivida e uma suposta vida supra-sensível ou espiritual. Ora, não é a morte a cessação dos impulsos vitais que mantém vivo o corpo humano?

Contudo, embora nossa sociedade fale muito sobre a morte, dada a sua banalização, principalmente nos meios de comunicação, não pensamos muito a seu respeito.

Daí uma diferença bastante importante: ainda que se fale muito da morte não temos o hábito de pensá-la. Aliás, não são poucas as vezes que pessoas são repreendidas quando começam a filosofar a respeito do tema.

Mas, por que nossa sociedade não pensa a morte com maior profundidade? Penso que isso se deve, sobretudo, à “condição humana”. Sim, como afirmou Pascal, o homem é frágil como um “caniço”, e é justamente essa fragilidade que nos assusta. Nossa finitude não deixa de ser angustiante. Talvez por isso seja mais “fácil” não pensar a respeito.

Sobremaneira penso que essa “falta” deve-se ao avanço da sociedade urbano-industrial que deslocou a morte da dimensão “pública” para a dimensão “privada”.

Até o advento das revoluções burguesas, entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX, a experiência da morte estava mais próxima de ser humano.

Como diz o sociólogo Philippe Ariès, em seu livro “O homem diante da morte”, os moribundos recebiam em casa, familiares, vizinhos, amigos e, depois da morte, os rituais fúnebres “presentificam” a morte e movimentam por vezes toda a comunidade em torno do morto.

A experiência social da morte era vivenciada com todo seu ardor. Mas com todas as transformações sociais iniciadas com a urbanização, e principalmente com os avanços do discurso higienista, tanto o moribundo quanto o morto são deslocados para lugares específicos. A isso chamamos processo de “privatização” do morrer.

A morte deixa de ser uma experiência pública para se tornar privada. Também não podemos perder de vista que vivemos numa sociedade materialista, consumista e imediatista, que supervaloriza o momento presente e que entende a morte como uma espécie de derrota da vida; e todos nós sabemos que as “derrotas” são sempre jogadas para debaixo do tapete, ou seja, não precisam ser exibidas. Por tudo isto é que reafirmo que o tema da morte, embora banalizado, é pouco refletido em nossa sociedade.

O grande paradoxo subjacente a tudo que até aqui expusemos, é que a morte tem uma relação intrínseca com a vida. Se a morte é o fim de tudo, a vida é um valor a ser admitido. Mas se a morte é a libertação para a outra vida, é também o sentido da vida que está em jogo. De qualquer modo, refletir sobre a morte é refletir sobre o sentido da vida.

Temos então uma conclusão, ainda que provisória: vida e morte não são momentos estanques, mas partes de um mesmo momento a que chamamos “existência”. Pode parecer simplista, mas não há vida sem morte nem morte sem vida.

Mas, o que se está buscando discutir mais profundamente é se podemos falar numa “vida pós-vida” (conquanto eu prefira falar em vida pós-morte). E é aqui que a filosofia pode dar sua contribuição, como de fato tem dado ao longo dos séculos.

Podemos afirmar que a discussão acerca da “vida pós-vida”, num escopo estritamente filosófico, não é tão incomum como alguns imaginam. O contrário seria mais exato: dentro da tradição filosófica ocidental, este tem sido um assunto bastante corriqueiro.

Os poemas homéricos, que muitos especialistas consideram um texto fundador da tradição cultural ocidental, estão repletos de referências a uma vida supra-sensível. O mundo dos mortos, o Hades, não deixa de ser um forte indicativo da espiritualidade do povo grego, conquanto outras culturas, até mesmo anteriores, também tenham essas referências. Mas há um fato bastante interessante sobre os poemas homéricos. É que o mundo dos mortos era temido pelos mortais médios. Os heróis, homens virtuosos, cuja ação era marca distinta, não temiam a morte, mas a sua sorte em vida.

O importante para os grandes homens gregos era empreender grandes realizações, ainda que a morte fosse inevitável. Não conhecemos a história de Aquiles que parte para Tróia sabendo seu destino?

Tenho a impressão que toda a discussão em filosofia daquilo que chamamos “vida pós-vida”, remete a uma discussão bastante antiga. Trata-se do conhecido embate entre “materialistas” (como Demócrito) e “essencialistas”. Apesar das variações que esta última corrente apresenta em seu interior (o essencialismo transcendente e o imanente), penso que seu primado, principalmente a partir da tradição platônica, engendrou a idéia do “homo-duplex”.

As noções de “corpo” e “alma” acabam sendo absorvidas pela filosofia clássica e o primado da alma sobre o corpo, nítido quando adentramos a filosofia de Platão, marcou os séculos posteriores, inclusive impactando sobre o período medievo, quando os pensadores cristãos sintetizam fé e razão. Estava instituída uma tradição que perduraria no ocidente durante séculos e que só começaria a sofrer alguns abalos a partir da ascensão do antropocentrismo moderno.

Sobre o “abalo” a que me referi, gosto muito de um ensaio de Michel de Montaigne, com o título bastante sugestivo, “De como filosofar é aprender a morrer”.  Nele o autor recupera a questão da filosofia como exercício para a aceitação da morte, algo que já estava presente em Platão. Porém, o pensador francês entende a morte não como um momento oposto à vida, mas como seu componente. Vida e morte são faces de uma mesma coisa, a existência. Morremos todos os dias desde que nascemos e, desse ponto de vista, somos seres para a morte. Ainda que o autor defenda a existência de uma “vida pós-vida”, temer a morte não faz sentido. Como diz Lucrécio, tantas vezes invocado por Montaigne, nunca encontraremos a morte, pois enquanto somos ela não é, e quando ela é, nós já não somos.

É a velha questão colocada por Hamlet de Sheakspeare: ser ou não ser, eis a questão! Somos e não somos, como explicar esse fato. Penso que a razão humana não seja capaz de dar respostas plausíveis sobre isso. Existem limites muito claros, limites esses que homens como Hume e Kant não tardaram a demonstrar – aquele com seu ceticismo e este com seu criticismo.

Mas, é no século XIX, com seu cientificismo, que se encontram as críticas mais severas ao essencialismo. Seja pela influência do evolucionismo darwinista, do materialismo histórico marxiano, da filosofia do martelo nietzscheana, do positivismo comteano, da psicanálise freudiana, que a idéia de uma “vida pós-vida” passa seus maiores apuros.

Já no século XX, o existencialismo ateu de Jean-Paul Sartre é uma ruptura aberta contra essa tradição essencialista, reduzindo a existência ao aqui e agora.

Poderíamos, de fato, explorar outros tantos pensadores, antigos e modernos, que se posicionaram sobre o tema. Todavia, não teríamos tempo hábil para tudo isso.

Como ser humano, repleto de angústias e incertezas, confesso que pensar na minha morte não me agrada muito. Porém, tendo em vista que os homens têm o péssimo hábito de morrer, não nos resta outra certeza.

Ainda assim, pensar numa “vida pós-vida” (ou morte, como prefiro falar), não deixa de ser um analgésico existencial para as dores humanas. Espero sinceramente que haja outra vida, quem sabe num paraíso, repleto de virgens, como algumas tribos nórdicas acreditavam (pois só no paraíso elas existem).

Mas, ainda que não encontre nenhuma virgem sequer, ficarei feliz se tomar um uísque com Romeu Tuma e der um abraço no ACM. Só Fidel é que não, pois os médicos fizeram a autopsia, mas disseram que ele está bem.

Só mais uma coisa: espero que corintiano também vá para o céu!  Boa noite a todos!

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