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Por Rudinei Borges

Como confessou certa vez uma crítica de teatro, também não faço anotações sobre qualquer filme quando vou ao cinema. Sou guardador de lembranças. Escrevo sobre o que fica: a parte que fez morada em mim do filme ou do livro ou do espetáculo. Agora, neste instante último, recordo-me com algum afinco a paisagem de Lanzarote no filme José e Pilar de Miguel Gonçalves Mendes. O mar, sempre o mar, levando para si a fotografia do filme – quase como se compusesse um terceiro personagem. O sol e os montes da ilha espanhola dão a impressão de uma felicidade tal que não consigo explicar.

O amor do escritor José Saramago por Pilar Del Rio é uma destas visões que só podemos classificar de um modo: verdadeiro. Na verdade, José e Pilar é um filme de amor – amor tardio. É também um olhar circunscrito para o cotidiano daquele casal: como eles inventavam e reinventavam a própria relação através de idas, vindas, diálogos, silêncios, a enfermidade de Saramago e o fantasma da morte com os seus sinais traiçoeiros.

Gonçalves Mendes permite-nos conhecer a abarrotada agenda de Saramago e como Pilar era criteriosa ao organizá-la. E, sobretudo, é possível assistir ao cotidiano de criação do escritor português: duas páginas por dia era o que ele escrevia para o romance A viagem do elefante, publicado em 2008. O filme de Mendes desvela o sacrifício da criação literária, quando o escritor parece enfrentar as intermitências da morte. Mas Saramago venceu as intempéries e concluiu a história do elefante Salomão.

Conta-se que Saramago elaborava a idéia de escrever este romance desde que, numa visita a Salzburgo, na Áustria, entrou por acaso num restaurante chamado O Elefante. Os sucessos da viagem e as personagens que surgem no caminho, as dificuldades enfrentadas pelo elefante – que no século XVI cruzou metade da Europa, de Lisboa a Viena – e a comitiva que o acompanhava, por caminhos de terra e de mar, personificam a metáfora da vida e da humanidade.

José e Pilar cumpre com maestria a missão de mostrar como o cotidiano, isto é, a vida, mesmo dos escritores, é construída de miudezas.  E é aí, nesta condição, que podemos alçar o vôo para a grandiosidade. Ou coisa que valha.

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