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Por Sidnei Ferreira de Vares

Poucos brasileiros, principalmente os mais jovens, sabem o que foi o período repressivo no Brasil durante o regime militar iniciado no ano de 1964, após a deposição do presidente João Goulart. O “golpe” (não posso denominar de outra maneira o movimento que instaurou a ditadura dos melicos, conquanto alguns defendam o caráter revolucionário daquela trágica ação), não só sacrificou o regime democrático que tentava se consolidar após a queda do Estado Novo, como também ignorou milhares, milhões de eleitores que depositaram em Jango seu voto e sua confiança. 

Aliás, Jango não foi apenas um pretexto, mas vítima. Oriundo de São Borja, João Goulart ascendeu politicamente atuando nos meios sindicais, o que o credenciou a ocupar, meteoricamente, o ministério do trabalho durante o último governo de Vargas.  Na ocasião, o aumento de 100 por cento no salário, defendido pelo então ministro do trabalho, enervou a burguesia brasileira e os militares de alta patente, que sob a já conhecida desculpa do “perigo do comunismo”, forçaram sua demissão do cargo.

Jango então ficou esquecido, pelo menos até o mês de agosto de 1954, quando Vargas comete suicídio. Vale lembrar que a morte de Vargas adiou, em uma década, aquele que seria também um golpe, haja vista que o Clube da Lanterna, cuja presença de udenistas e lacerdistas era forte, já articulava e confabulava com a Escola Superior de Guerra, contra o então debilitado governo de Getúlio Vargas.

Mas, no mês de março de 1964, as velhas forças reacionárias teriam uma nova chance. A vítima era um político, cuja ligação com o getulismo não era negada nem por ele mesmo: Jango.  Tendo alcançado a presidência após a renúncia enigmática de Jânio Quadros, que ficou apenas 8 meses a frente da presidência, Jango assumiu o país com poderes reduzidos, condição imposta pelos grupos políticos conservadores, que não queriam o antigo pupilo de Vargas na presidência. Todavia, após intensas negociações, e com a intervenção marota e mineira de Tancredo Neves, Jango decide acatar as imposições dos grupos rivais, e assume a presidência dentro de um regime parlamentar.

Em 1963, porém, após algumas manobras, Jango consegue reaver plenos poderes. A bandeira das “reformas de base”, que tratavam de pontos importantes para a agenda política do país, tal como reformas agrária, educação, agricultura, transportes, etc., passa assim a ser a cartada do governo e, embora não tivesse qualquer radicalidade em seu tom, foi mal recebida pela burguesia nacional. A desconfiança acerca das intenções do presidente na implementação de uma “república sindicalista” no Brasil, acirravam os ânimos. Entre o comício realizado na Central do Brasil e a resposta na Passeata de Deus e da Família pela Liberdade em São Paulo, Jango se equilibrava para não perder o poder, mas cônscio das armações que tramitavam nos bastidores.

Ainda que a esquerda radical, de um lado, representada pelo esfacelado PCB e, de outro, pela força discursiva de Brizola, tentasse se identificar com o governo, não era possível confundir o rico estancieiro Jango com o esquerdismo. O comunismo foi a desculpa que conduziu os militares ao poder. Logo, os mesmos civis que apoiaram e participaram do golpe se arrependeriam. Ao contrário das intervenções armadas anteriores, dessa vez os militares não entregariam o poder aos civis. O governo de Castelo Branco praticamente estruturou o regime por meio dos quatro primeiros atos institucionais. O presidente Costa e Silva deu o tiro de misericórdia com o AI-5 do qual o maior tributário foi o sucessor Garrastazu Médici. E foi nesse período, no qual a “linha dura” assume as rédeas do poder, que a repressão política alcança seu mais alto grau de truculência. Estudantes, trabalhadores e, principalmente, os militantes de grupos de esquerda, em sua maioria, dissidentes do PCB que optaram pela luta armada, se tornam as vítimas da estrutura repressiva armada pelo governo. Torturas, exílios, mortes, desaparecimentos, tudo para garantir a soberania e a ordem da nação.

Se os governos de Geisel e Figueiredo se propuseram a uma abertura política “lenta, gradual e segura”, não foram capazes de punir os agressores covardes que durante anos mataram e torturaram. A lei de anistia foi o que os torturadores queriam. Mas no campo da história nada é definitivo.

No dia primeiro de janeiro de 2011, uma mulher assumiu a presidência da república do Brasil. Os tempos são outros. Não pelo fato de termos agora uma “presidenta”, o que constitui um avanço significativo. Basta considerar que o governo esteve nos últimos 8 anos nas mãos de um ex-operário e ex-sindicalista, caracteriznado uma mudança histórica para um povo que sofre da síndrome de viralata, conforme afirmava o saudoso Nelson Rodrigues.

Aliás, a senhora que se tornou a mais nova presidente foi uma das poucas sobreviventes das torturas realizadas nos presídios durante os anos de chumbo. Sim, ela passou pelo presídio Tiradentes em São Paulo, foi barbaramente torturada, mas nunca deixou de lutar pelos ideais democráticos. Acusada de “terrorismo”, principalmente por aqueles que contribuíram para cercear a liberdade de imprensa, de manifestação, de pensamento, a mulher que assumiu a presidência pouco tem a ver com dondocas como Vera Fisher e Lúcia Hipólito. Ousou pegar em armas, sim! Para que hoje até as referidas dondocas tivessem direito ao voto. Soube esperar e perseverou. Chegou onde muitos homens nunca vão chegar.

E os torturadores? Bem, os torturadores, se ainda estão vivos, podem ser agora torturados, pelos menos imageticamente, pois terão que assistir (ou não, pois vivemos hoje num país livre), a antiga “inimiga” ocupar o cargo máximo de uma república, com uma única diferença: hoje vivemos numa DEMOCRACIA! PARABÉNS DILMA ROUSSEFF.

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