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Por Sidnei Ferreira de Vares

Quando Sófocles, eminente teatrólogo grego escreveu a mais importante e conhecida de suas peças, “Édipo-Rei”, provavelmente não imaginava qual o lugar que a história lhe reservava. É que seu texto, pelo brilhantismo com que se refere à força do destino, serviu até para nomear o famoso complexo psicanalítico elaborado por Sigmund Freud, muitos séculos mais tarde. Para quem não conhece ou recorda da história, Édipo, filho de Laios, rei de Tebas que foi amaldiçoado de forma que seu primeiro filho se tornaria seu assassino e desposaria a própria mãe, manda matar seu filho recém-nascido. Salvo por um pastor, que o entregou à Políbio, rei de Corinto, Édipo, anos mais tarde, descobre a maldição e para fugir ao seu destino resolve ir para Tebas, sem saber que ia ao encontro dos pais verdadeiros. E assim como estava previsto, Édipo acaba matando seu pai, sem saber, numa briga de estrada. Assim que chega a Tebas, Édipo livra a cidade da horrenda esfingie e de seus enigmas, recebendo a recompensa: é eleito rei e premiado com a mão da recém-viúva rainha Jocasta. Durante alguns anos governa soberano, até que uma consulta ao oráculo de Delfos lhe trás uma revelação: o assassino de Laios está na cidade de Tebas. Disposto a vingar a morte do antigo-rei de Tebas, Édipo parte numa investigação para descobrir que era o assassino de Laios, sem saber que era ele mesmo. Ao descobrir toda a verdade, Jocasta se mata e Édipo vaza as vistas, ficando cego.

Essa típica tragédia grega, sempre foi vista como uma apologia às forças do destino. Já os psicanalistas, entendem o texto de Sófocles como uma representação das complexas relações humanas, principalmente no seio da família. Mas, conquanto essa seja a interpretação mais usual, penso que podemos transportá-la e utilizá-la no âmbito da política. Digo isso porque, a metáfora da “morte do pai” corresponde a uma busca por autonomia, que conduz as pessoas ao enfrentamento de responsabilidades inerentes à vida adulta.

[Teatro na Grécia Antiga]

Ora, o paternalismo constitui um fenômeno político bastante conhecido na América Latina. No Brasil, onde também é conhecido, muitas vezes se confundiu com as práticas populistas. Getúlio Vargas, que durante o Estado Novo usou de violência para conter os dissidentes, entrou para a história como o “pai dos pobres”. Notem a expressão “pai”, que não foi empregada sem riscos. Ela identifica o que falávamos anteriormente. Sabemos que numa relação entre pai e filhos predomina o amor e o respeito. Quem em sã consciência bradaria contra seu pai? À medida que um político, por meio da afetividade, procura conduzir seus filhos (o povo), quem bradaria contra ele? Essa confusão entre política e afeto (paternal) sempre é muito perigosa.

Nos últimos oito anos, o presidente Lula procurou encetar uma postura bastante paternalista. O tom paternal em seus discursos foi uma constante. Nada contra a figura de Lula, que foi, a meu ver, um bom presidente. Entretanto, isso não impede que façamos críticas ao paternalismo ao qual procurou submeter seu povo (seus filhos). Espero que assim como Édipo, possamos “matar” esse paternalismo em política que volta e meia assombra o ambiente político latino americano. Matar o pai nesse caso significa ver nos políticos apenas o que são: políticos. Só espero que ninguém vaze as vistas depois disso. Na verdade ao invés de ficarmos cegos, deveríamos usar uma grande lupa para enxergar os detalhes dessa mistura sempre perniciosa entre política e afeto.

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