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Por Maria A. Alves Pionório

[Colaboradora da Revista Parâmetro]

A Consciência Humana é este morcego!

Por mais que a gente faça, à noite, ele entra

Imperceptivelmente em nosso quarto!

 (Augusto dos Anjos)

O título deste texto, talvez seja bastante sugestivo, ou para alguns um “exagero”, já que a palavra catástrofe tem por si só uma característica impactante, justamente pelo sentido literal que detém, logo ao escutá-la, quase que instantaneamente remetemo-nos a algo ruim, negativo que porventura tenha acontecido ou venha acontecer. Eis aí, o motivo pelo qual utilizo este termo, para chamar atenção a algo importante, já que entendo a poesia (e neste caso, também incluo o poema) como algo que transcende as linhas do papel e que não se limita apenas às palavras descritas em um conjunto de estrofes, rimas e métricas, mas que possui em seu âmago uma função muito maior.

A poesia, tanto quanto o poema, embora carregue em sua essência a mensagem do poeta, permite indubitavelmente ao leitor interpretá-la subjetivamente, de tal modo que ao mergulhar-se na inércia de não poder transbordar para o mundo de alguma forma sua expressividade de forma leal e contemplativa a todos os seus aspectos, contenta-se apenas em identificar-se na poesia do poeta, descortinar ali os seus sentimentos, indignações, angústias, indagações e anseios mais profundos. Logo, se o poeta escreve, mesmo que implicitamente para expor seus anseios, sentimentos, ou mesmo para manifestar algo que o incomoda seja do ponto de vista pessoal ou social, também compartilha seus sentimentos com desconhecidos (os leitores), mesmo que a razões e/ou inspirações que o fizeram escrever não sejam as mesmas razões que proferiram aos leitores a curiosidade aguçada para compenetrar-se na sensibilidade contida em sua obra.

Posto isto, penso que a poesia possui um papel social, principalmente no que diz respeito à educação.  Conforme Zizi Trevisan, em sua obra Poesia e Ensino: Antologia Comentada, a escola não deve considerar uma concepção de método baseada em uma “organização formal” da aula como suficiente em si mesma, pois dela, também poderá resultar uma concepção redutora de leitura e de poesia transformando-a apenas em um instrumento utilizado para o treinamento técnico e formal do ato de ler.

Trevisan propõe sob um ponto de vista dialético do método (didática), elevar-se ao nível de uma “concepção conceptual”, ou seja, a leitura, a poesia (ou qualquer que seja a natureza do texto), passa a ser concebida como um exercício ativo de recriação da produção textual. O aluno lê para elaborar a realidade, avaliar, julgar, escolher…

Na leitura estética (da poesia), em sua grande maioria (seria injusto generalizar), os professores preocupam-se muito mais em dissecar o material estruturante do poema e/ou poesia, tais como, classificação de estrofes, versos, sílabas poéticas e etc., ao invés de promover reflexões em torno de comparações de sentido (denotativo e conotativo).

Conforme Trevisan “o desconhecimento da especificidade da linguagem literária acaba por neutralizar a missão educativa de criar condições de revelação do potencial inventivo das nossas crianças”. E neste caso, penso que não só às crianças, mas também aos adolescentes, aos jovens.

No dia 25 de outubro de 2010, estive presente no lançamento do livro Escritor na Escola, trabalho este desenvolvido pelo Centro de Integração Empresa Escola – CIEE em conjunto com a Academia Paulista de Letras. O projeto consistia por meio de um concurso literário realizado em duas escolas públicas da Zona Norte de São Paulo, a saber, E.E Buenos Aires e E.E Dr. Octávio Mendes (Cedom) selecionar os trabalhos vencedores e as menções honrosas nas três categorias contempladas: conto, crônica e poesia. Estes trabalhos compõem o livro Escritor na Escola, prêmio da Academia Paulista de Letras para os estudantes do ensino médio vencedores do concurso.

Após as leituras dos trabalhos e juntamente com as interpretações teatrais realizadas para ilustrar da melhor forma possível a essência do conto, da crônica ou da poesia premiada, não pude deixar de notar o quão criativa as mentes dos alunos podem ser quando aguçadas e estimuladas à criticidade, desabrochando  assim jovens poetas e poetisas, que por meio de sua expressividade criativa contagiam os leitores, que por sua vez identificam –se e “mergulham” na sensibilidade precisa de suas obras. Daí a diferença entre trabalhar o ensino de poesia ou de qualquer outro gênero textual de forma coerente e trabalhá-lo de forma mecanicista e robótica. Espero que este projeto, a meu ver, tão importante do ponto de vista educacional, pois estimula o prazer pela leitura e alimenta a auto-estima do educando expanda-se para outras regiões do estado e não se iniba em ultrapassar fronteiras.

Portanto, se na ótica de Trevisan, a poesia tem a capacidade (desde que seja trabalhada corretamente) de aguçar a criticidade do leitor em relação ao mundo e, por conseguinte torná-lo um cidadão crítico, capaz de exercer sua cidadania, só posso afirmar que de fato a poesia, possui uma função social, me atreveria até a dizer uma “bela função social” e justamente por isso torna-se indispensável à humanidade, logo o mundo sem poesia seria uma “catástrofe social”, na medida em que privaria poetas, poetisas e leitores (as) de exprimirem suas inquietações pessoais e/ou sociais: estes de modo direto e aqueles de modo indireto.

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