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Por Sidnei Ferreira de Vares

 “Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”, disse certa vez a poeta Cecília Meireles. Tendo a concordar com ela: a liberdade é uma condição humana e conquanto não possamos defini-la com a precisão cartesiana, podemos senti-la, principalmente nos momentos onde a vemos cerceada. Obviamente, a liberdade humana nunca é plena. Existem sempre limites físicos, naturais, como demonstrou Freud, que se impõem aos indivíduos. Entretanto, a imaginação constitui um espaço de liberdade infinita e, nesse sentido, é possível afirmar que os limites do corpo não se aplicam à mente. Não por acaso, os poetas criam, os literatos escrevem, os artistas criam e recriam, os intelectuais pensam, e ainda que seus corpos padeçam e a liberdade de movimento esteja comprometida, o pensamento não tem limites. Por isso, partilho da idéia, daquela velha idéia pichada por um anônimo, provavelmente um estudante, no muro da Sorbonne naquele mês de maio de 1968: “Seja realista, peça o impossível”!  Exercer a liberdade é um imperativo existencial, pois, como dizia o filósofo francês Jean-Paul Sartre, “o homem está condenado a ser livre”.

Foi em nome da liberdade que os gregos do período clássico erigiram a democracia (conquanto adotassem um sistema bastante restrito de participação nos assuntos da pólis), e muitos séculos mais tarde os iluministas franceses oitocentistas se insurgiram contra o absolutismo que oprimia aquele povo. Pela liberdade muitos deram suas vidas durante os 21 anos de  ditadura militar no Brasil e muitos mais se sacrificaram para enfrentar as demais ditaduras latino-americanas.

E por que falo sobre tudo isso? Não é só para exaltar a liberdade, que não precisa ser exaltada, mas praticada. Mais do que isso, faço esse apanhado para lembrar que se hoje falamos em liberdade devemos, sobretudo, àqueles que deram suas vidas, derramaram seu sangue, sacrificaram muitas vezes a própria liberdade para que outros pudessem desfrutá-la. Vou ainda mais fundo, falo na necessidade, principalmente na sociedade contemporânea, de sermos diferentes, sendo iguais. Sim, sermos diferentes na igualdade. Pois é o fato de podermos ser diferentes (e, portanto, dispor de liberdade) que nos iguala. Se todos fossemos iguais não haveria liberdade. 

Já em 1898, o sociólogo francês Émile Durkheim, em pleno ápice do caso Dreyfus, prenunciava, num artigo escrito naquela ocasião, os novos rumos da sociedade contemporânea. Dizia ele mais ou menos assim: tirem todas as diferenças existentes entre nós e só restará uma única coisa, a saber, nossa condição de homens. É óbvio, que ele não estava se referindo à questão de gênero. Ele está falando de algo maior, mais complexo, ou seja,  do homem em abstrato, tal como seus predecessores, Rousseau, Montesquieu, Kant, Renouvier, etc., anunciavam por meio de seus escritos. 

O professor Tomaz Tadeu da Silva, em seu livro “Identidade e Diferença”, mostra como no mundo atual a diferença é um fator crucial para a construção identitária. Apesar das diferenças que nos marcam (uns são católicos, outros protestantes; uns são corintianos, outros palmeirenses; uns são petistas, outros pessedebistas, etc.), há algo que nos aproxima: somos todos seres-humanos e é essa condição básica que nos iguala. Nessa mesma direção, o professor francês Alain Touraine, num pequeno opúsculo intitulado  “Igualdade e Diversidade”, demonstra como a diversidade não afeta a igualdade. Basta pensar  nos momentos em que somos todos chamados a agir em favor de uma causa comum. Ora, as grandes catástrofes por mais perniciosas que sejam, não unem pessoas tão diferentes entre si em prol de um único objetivo que é ajudar a quem precisa?

“Liberdade, igualdade e fraternidade”, o slogan que os revolucionários franceses levaram a cabo até hoje serve de bandeira para todo o ser- humano. Não era isso que Nosso Senhor Jesus Cristo, ao seu modo, apregoava? Posso pensar diferente de você, agir diferente de você, acreditar em coisas diferentes de você, mas tanto eu quanto você somos seres-humanos, com todas as implicações positivas e negativas que essa noção abarca.

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