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Por Sidnei F. de Vares

É engraçado observar como os discursos se estruturam e ganham força, principalmente no que se refere ao mundo do trabalho. Digo isso, pois, nos últimos tempos, fomos bombardeados com a tese segundo a qual os indivíduos, no interior de uma escala geracional, se diferenciam a partir de algumas características definidoras de personalidade, comportamento, visão de mundo, etc. Essa visão, difundida principalmente pelos meios de comunicação de massa, com o endosso dos “especialistas” da área de Recursos Humanos, constitui um dos grandes equívocos retraduzido discursivamente.

É que os “especialistas” dividem em três grupos os profissionais, procurando legitimar essa arbitrariedade na diferença entre as gerações. Tentemos seguir “raciocínio” desses “especialistas” (o que vai exigir mais paciência do que rigor intelectual): eles definem o primeiro grupo de “Baby Boomer”, ou seja, aquela geração imediatamente nascida no pós-guerra e que hoje, pela idade e experiência, ocupa, na maioria das vezes, os postos mais altos da empresas. Essa geração, segundo os “especialistas”, é responsável pela liderança na maioria dos negócios. Geralmente possuem uma renda estável, sofrem pouca influência da marca no momento da compra, e reverencia muito mais a qualidade do que a quantidade, sendo firme e maduro nas decisões. Já a “geração X”, nascida  a partir dos anos 60, conquanto individualista não perde a convivência em grupo. Assim como os Boomers prefere a qualidade do que a quantidade, além de buscar seus direitos e visar a liberdade financeira. Por fim, vem a “geração Y”, sempre conectados a procura de informações fáceis em seus note-books e celulares de última geração, pois só assim mantém-se em dia nas redes de relacionamento. Outra questão é que essa geração faz muitas coisas ao mesmo tempo (uma espécie de feminilização laboral)

Bem, segundo eles, os “especialistas”, essas gerações vivem em constante disputa dentro das empresas, pois possuem características distintas que os levam ao confronto. O primeiro grupo e o segundo trabalham com a idéia de hierarquia, enquanto o segundo é mais autônomo e depende menos disso.

O que posso dizer a respeito disso? Ora, só um idiota acredita nessas coisas. Aliás, tendo em vista que os cursos de extensão em Recursos Humanos estão em alta, é natural que uma nova geração de imbecis apareça tentando criar rótulos, quem sabe até para justificar uma demissão em massa da velharada.  Sempre acreditei que “O Príncipe” de Maquiavel, “A arte da Guerra” de Sun Tzu e “Como tirar proveito de seus inimigos” de Políbio fossem o melhor curso de administração a ser feito. Realmente é um absurdo rotular pessoas utilizando-se de critérios geracionais. Afinal, isso é reduzir as capacidades humanas com pretensões a achar que somos todos idiotas. Ora, um velho pode ter mais energia ou ser mais irresponsável do que um jovem, bem como um jovem pode ser tão autoritário quanto Hitler  (como os especialistas classificariam o bando de idiotas que agrediram aqueles jovens na paulista? Talvez, de “geração” fdp?). Sei que alguns “especialistas” vão objetar que o que define cada geração é o comportamento. E eu retruco: por que então assentar o discurso em questões geracionais? Ora, a geração mais velha lutou contra ditaduras, opressões morais e sociais e gerou muito da tecnologia que hoje utilizamos. Enquanto isso, a  nossa geração atual chora compulsoriamente  encharcando ainda mais os cabelos lambidos ao som de Restart ou dançam alegremente as músicas (se é que se pode denominar assim) de Lady Gaga. Ademais, minha mãe já fazia quatro ou cinco coisas ao mesmo tempo a 40 anos atrás, escutando o Chico e o Edu Lobo. Conversa pra boi dormir, é isso que os “especialistas” vendem, encobrindo sob o invólucro da ciência suas maravilhosas pesquisas. Prefiro Nicolau Maquiavel e seus ensinamentos de administração de empresas.

 

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