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Por Matheus Pazos

[Colaborador da Parâmetro]

Peter Greenaway quer reinventar o cinema. Artista que é, tenta ao seu modo transcriar experiências milenares numa arte que, segundo ele, ainda é demasiadamente literária. Para tanto, buscará unir tradição e modernidade no filme “O livro de cabeceira” (The pillow book, 1996).

O filme é ambientado na última década do século XX, buscando transpor para o espaço cinematográfico a experiência intensa de tradições do Oriente (o filme homenageia o “Livro de cabeceira”, de Sei Shonagon, poeta japonesa do século X) conjugadas ao frenesi das mudanças advindas da modernidade. 

Um dos principais objetivos de Greenaway em sua produção artística é comprovar a falibilidade da linguagem escrita adotada no decorrer da tradição do Cinema, fazendo com que a sétima arte pare de depender do discurso literário e possa, gradativamente, oferecer aos expectadores uma experiência estética independente[i]. Importante dizer que o próprio Greenaway desenvolve trabalhos na área das artes plásticas e da pintura, optando, em seus filmes, por uma apresentação mais visual dos temas[ii]. Greenaway não conta uma história, mas pinta (ou faz ver) interpretações acerca de determinado dado, sugerindo àqueles que porventura assistam seus filmes a possível reinvenção da criação cinematográfica.

De forma provocativa, como lhe é característico, Greenaway busca expor no “Livro de cabeceira” a difícil relação entre o corpo e a linguagem escrita, isto é, entre a vida e a arte, posto que neste filme a protagonista – uma jovem japonesa que persegue a todo o momento a perfeita similitude entre construção e experiência do prazer – assimila a tradição recebida por seu pai de privilegiar o corpo humano como espaço pleno de significação e objeto efetivo para a realização da felicidade humana.

O filme ainda consegue traduzir[iii] (de forma criativa, diríamos) o sentido tradicional da produção de livros de cabeceira, estes que serviam como estímulo onírico e espaço de catalogação das diversas sensações experimentadas no decorrer dos séculos que enriquecem a cultura oriental. Esta tradução moderna e cinematográfica não deixa de problematizar os conflitos gerados pela difícil entrada da cultura ocidental (com todos os seus modernismos) e a conseqüente experiência de transitoriedade e superficialidade que revoluciona as relações humanas e, de certo modo, relativiza a importância do fazer poético tradicional.

Enfim, é importante ressaltar que os filmes de Greenaway, de modo geral, têm por intento lançar mão das novas tecnologias e, no filme aqui analisado, isto se mostra na sobreposição de cenas e numa exposição influenciada pela televisão, relativizando, assim, a pureza imagética que algumas escolas cinematográficas tanto almejam. Greenaway quer reinventar o cinema, mesmo que para isso tenha que matá-lo[iv].


[i] Sobre isso, ver PETER GREENAWAY. Cinema: 105 anos de texto ilustrado. In: Aletria, 2001, pp. 9-12. É importante lembrar que Godard, sobretudo na década de 80, desenvolveu um novo método de composição de roteiros feitos a partir de imagens e sons. Sobre isso, ver ANITA LEANDRO. Lições de roteiro, por JLG. In: Educ. Soc., Campinas, n. 83, agosto 2003, pp. 681-701.

[ii] Para uma análise mais pontual da produção de Greenaway, ver MARIA ESTHER MACIEL. A poesia no cinema: De Buñuel a Greenaway. In: Cadernos de Tradução – UFSC, 2001, n. 7, pp. 81-91.

[iii] Vale dizer que um dos personagens do filme (amante da protagonista) é um tradutor inglês chamado Jerome. Menção explícita a São Jerônimo, tradutor da Bíblia Hebraica para o Latim. Sobre isso, ver MARIA ESTHER MACIEL. São Jerônimo em tradução: Julio Bressane, Peter Greenaway e Haroldo de Campos. In: Aletria, 2001, pp. 53-59.

[iv] “Cinema died on the 31st September 1983 when the zapper, or the remote control, was introduced into the living-rooms of the world.” PETER GREENAWAY. Toward a re-invention of cinema. In: http://petergreenaway.org.uk/essay3.htm, acesso em 27 de janeiro de 2011.

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