Tags

, , , ,

 

Por Fabiano Tizzo

O nazismo surgiu da decadência social da Alemanha e da esperança de um povo sofrido que, no pós-guerra, passava por necessidades básicas e carências diversas. Potencialmente revolucionário e inovador, o Partido Nazista exaltava o passado associando-o a um futuro promissor para toda a nação. Trazia consigo uma concepção materialista, dogmática e doutrinária cuja sustentação justificava a ampla supremacia de um chefe, apoiado na força policial militar e autoritária. Fundamentava pilares que embasavam um fanatismo epidêmico.

Seduzidos pela sugestão de superioridade, os alemães instauraram e difundiram idéias que deram origem ao movimento anti-semita ou anti-semitismo[1]. A adesão a tal movimento levou à racionalidade desse povo à extinção. Além disso, o líder pleiteou ideais de superioridade de sua raça clamada ariana, supostamente superior a todos os outros povos existentes no mundo, e a necessidade de espaço, conservação e melhorias para que se alcançasse “o triunfo” nazista.

Hitler apontou os supostos culpados pelas dificuldades que a Alemanha enfrentava, baseando-se em um dogmatismo direcionado ao extermínio de um futuro mártir: “o povo judeu”. Para o líder, não bastava solucionar a crise, era preciso responsabilizar e punir os culpados por todos os fracassos da Alemanha e as dificuldades que passava o povo alemão.

Alguns historiadores supõem que a assinatura do Tratado de Versalhes foi a base do Partido Nacional Socialista, ou Partido Nazista, estimulando o seu surgimento, uma vez que Hitler sempre criticava o pacto, tendo por objetivo o seu não-cumprimento. Para todas as categorias de chefes desse partido havia autonomia de liderança, mas nunca poder supremo. Apenas o Führer possuía poderes absolutos e adquiriu uma liderança imbatível.

No interior do referido partido, havia procedimentos que resultavam na expulsão, prisão ou morte de membros traidores ou desleais; eram os chamados processos disciplinares. A obediência era absoluta e executada sem questionamentos. A honra, a ordem, a disciplina e a dedicação eram idealizadas e pregadas, e se sugeria uma Nação saudável, forte, poderosa e temida.

O Partido Nazista promovia a vitória do melhor e a submissão do mais fraco, e assim produzia pretexto para justificar possíveis guerras. Qualquer espécie de oposição era duramente reprimida, e os responsáveis levados aos vários campos de concentração, onde eram punidos severamente ou mortos.

O Partido Nacional Socialista jamais conseguiu vencer uma eleição livre, mas Hitler, ocupando o cargo de chanceler (abaixo do presidente), utilizou sua grande influência e finalmente conseguiu a aprovação pela maioria do parlamento da Lei dos Plenos Poderes. Hitler adquiriu um ato de permissão, que deixou sem efeito a Constituição da República de Weimar. Ele obteve o direito de legislar, era o único que podia fazê-lo.

O programa político dos nazistas era sintetizado em vinte e cinco pontos principais (cf. RIBEIRO, 2005, p. 40): 

  1. Reunião de todos os alemães na grande Alemanha;
  2. Abolição do Tratado de Versalhes;
  3. Reivindicação do espaço vital;
  4. Definição de cidadão: só quem tivesse sangue-alemão;
  5. Exclusão dos judeus da comunidade alemã;
  6. Quem não fosse cidadão estaria sujeito à lei dos estrangeiros;
  7. Os não-cidadãos poderiam ser expulsos caso o Estado não tivesse condições de assegurar alimentos à comunidade alemã;
  8. Os cargos públicos deveriam ser reservados aos cidadãos;
  9. Direito e dever de trabalho;
  10. Abolição de rendas não derivadas do trabalho;
  11. Eliminação da escravidão do lucro;
  12. Confisco dos lucros de guerra;
  13. Nacionalização das indústrias monopolistas;
  14. Participação dos trabalhadores nos lucros das grandes empresas;
  15. Incremento da previdência para velhice;
  16. Fortalecimento da classe média;
  17. Reforma agrária;
  18. Punição dos usuários, açambarcadores e traficantes do mercado negro com pena de morte;
  19. Substituição do direito romano pelo direito alemão;
  20. Reforma da escola, direcionando-a no sentido nacionalista;
  21. Proteção da mãe e da criança;
  22. Criação de um exército popular;
  23. Limitação da liberdade de imprensa e de arte;
  24. Liberdade do credo religioso, desde que não contrariasse a moralidade da raça germânica;
  25. Criação de uma forte autoridade central do Reich.

Após a morte do presidente Hindenburg, em Agosto de 1934, um plebiscito foi realizado na Alemanha e o povo aceitou a ditadura de Hitler, com 38.362.760 votos favoráveis e apenas 4.294.654 votos contrários. “Por conseguinte, a Alemanha passou a ser um estado totalitário apoiado por um partido único, o Nacional Socialista, que contava com apenas 25 mil membros até 1927. Em 1938, chegou a reunir 8 milhões”. O supracitado autor escreve ainda: “Contudo, o exército não controla mais o partido, é ele que passa a comandar o exército. Todos os ministérios estavam diretamente submetidos ao controle do Führer”. (RIBEIRO 2005, p. 40-41).

Os direitos individuais não eram levados em conta. O que verdadeiramente preponderava era a idéia de moral nacional, bem como as leis da vida em comunidade sem qualquer liberdade individual, rompendo com a influência das políticas liberalista e comunista.

Resumidamente, esta ideologia se fixava na superioridade da raça alemã e na substituição da luta de classes pela união de todas as categorias para trabalhar pela grandeza da pátria. Estabeleciam-se o culto da força e da vontade de poder, a subordinação do indivíduo ao Estado e a ditadura de um chefe nacionalista e totalitário.

Todos esses acontecimentos parecem ter ocultado a racionalidade do povo alemão, na medida em que o indivíduo deixou de ter a sua individualidade, de pensar em si mesmo e se doou ao Estado, perdendo sua identidade pessoal e inclusive a sensatez. Um dos enfoques do regime em seus discursos indicava que o interesse público do Estado deveria estar sempre acima do interesse particular de qualquer cidadão.

Quem desejasse ser cidadão[2] deveria, antes, servir à Nação sem exigir nenhum tipo de remuneração; isso representava confiança mútua entre a comunidade e o Estado.

Pode-se afirmar que se tratava de um sistema de idéias dogmaticamente organizadas, maquiado como um instrumento de uma luta ética e política. Um conjunto de idéias próprias e disfarçadas de boa moral e conduta nacional, por um homem persuasivo que desencadeou a Segunda Guerra Mundial.


[1] O termo era muito usual na ocasião e significava ser anti-judeu ou estar em contraposição, repúdio e hostilidade aos judeus. Coincide com desrespeito cultural e humano, aos malefícios e todas as formas de sofrimento desse povo ocasionado pelos nazistas. No século XIX essas idéias anti-semitas complementavam e fortaleciam a doutrina nazista. O termo (anti-semita) foi utilizado pela primeira vez em um jornal alemão chamado Neue Freie Presse, escrito por Wilhelm em 1880. Em 1885, o termo passou a ser conhecido como anti-semitismo.

[2] Hitler deixava claro que ser cidadão alemão e pertencer ao partido nazista era gratificante e privilegiável, isso se dava principalmente pela garantia de ser superior. Era uma crença indiscutível naquele contexto. Entretanto, muitos cidadãos alemães sentiam-se auto-realizados com suas promessas, tendo em vista os dias incertos e difíceis que viviam no período: refiro-me à humilhação e desonra pela derrota na guerra, ao orgulho ferido e um período de baixa estima que passavam. Era uma forma de acreditar em algo que pudesse trazer o orgulho nacional de volta. Isso era muito almejado naquele momento em razão das necessidades materiais, afetivas, pelas expectativas devido à nova proposta que visava anos de ouro e vida nova aos alemães. A título de ilustração, o dia primeiro de maio era feriado e simbolizava “O Dia Nacional do Povo Alemão”.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

CHAUI, Marilena. O que é Ideologia. 32ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1990.

D’ALESSIO, Márcia Mansor; CAPELATO, Maria Helena. Nazismo: Política, Cultura e Holocausto. São Paulo: Atual, 2004.

DIEHL, Paula. Propaganda e Persuasão, na Alemanha Nazista. São Paulo: Annablume, 1996.

 HERF, Jeffrey. O Modernismo Reacionário – Tecnologia, Cultura e Política em Weimar e no Terceiro Reich. São Paulo: Ensaio, 1993.

 HITLER, Adolf. Minha Luta. ed. São Paulo: Centauro Editora, 2005.

LENHARO, Alcir. Nazismo. O Triunfo da Vontade. São Paulo: Ática, 2003.

 RIBEIRO, João Jr. O que é Nazismo. São Paulo: Brasiliense, 2005.

 SPINDEL, Arnaldo. O que São Ditaduras. 9ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.

 TCHACKOTINE, S. A Mistificação das Massas pela Propaganda Política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1967.

 WILLIAM, L. Shirer. Ascensão e Queda do Terceiro Reich. 5ª ed. Vol. I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.

 ZIEMER, Gregor. Educando para Morte: Aspectos da Educação Nazista. Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1942.

Anúncios