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Por Sidnei Ferreira de Vares

Para quem gosta da sétima arte e deseja discutir as mazelas educacionais de nosso país, o diretor João Jardim, o mesmo do premiado “Janela da Alma” também conta com um documentário arrebatador, a saber,  “Pro Dia Nascer Feliz”.

Em pouco mais de 80 minutos, o diretor retrata o sistema educacional brasileiro a partir dos Estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Percorrendo escolas de periferia e colégios particulares de elite, o diretor escancara o sistema educacional e demonstra o que todos nós já suspeitávamos: a diferença da educação oferecida por ambos os modelos.

As entrevistas com adolescentes de 15 e 16 anos mostram as perspectivas e os sonhos da juventude brasileira, refletindo as diferenças sociais típicas desses “dois Brasis” (a exemplo de Euclides da Cunha em “Os Sertões”).

O documentário de João Jardim bem poderia se chamar “A Reprodução: elementos para uma teoria do ensino”. A referida obra, dos sociólogos franceses Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, que ganhou projeção na década de 70, demonstrou as diferenças culturais entre as classes sociais. Segundo os sociólogos, o “capital cultural” é uma espécie de código de acesso aos conteúdos oferecidos pela escola.

Adquirido processualmente no seio da família, o “capital cultural” difere dependendo da classe ou da ligação que sua família mantém com a cultura valorizada socialmente. As crianças cujos pais podem oferecer uma vida cultural considerada socialmente mais rica podem se aventurar pelo sistema de ensino, com chances reais de obterem “sucesso”.

 As poucas crianças das classes mais pobres tanto econômica quanto culturalmente que ascendem via escolarização e obtêm reconhecimento – apesar de serem poucas, elas existem -, acabam por legitimar todo o discurso meritocrático que as sociedades ditas democráticas empunham.

Essas poucas crianças que, por um esforço descomunal ou por algum fator excepcional, destacam-se no estudo, têm, em algum momento que decidir: ou permanecem fiéis ao capital cultural de suas famílias de origem (desvalorizado socialmente) ou se deixam coptar pela cultura mais “refinada” da elite.

 Com efeito, “Pro Dia Nascer Feliz” oferece, à luz de Bourdieu, uma ótima interpretação do sistema educacional brasileiro ao mesmo tempo em que denuncia o descaso do Estado com os jovens desse país.  

 

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