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Por Fabiano Tizzo

O que eu conceituo aqui como totalitário pode ser conceituado também como autocrático, pois ambos não se reduzem ao autoritarismo, propagam uma política social conservadora que são guiadas por ideologias oficiais e manipulatórias com alto teor propagandístico – e a título de esclarecimento – o “totalitarismo” ou “autocracia” não são conceitos irrefutáveis e nada mais são do que conceitos utilizados para definir ditaduras que obtiveram abrangência de controle sobre uma dada sociedade que, mantêm características direcionadas ao pensamento político conservador tais como: Alemanha Nazista com Hitler, Itália Fascista com Mussolini e União Soviética com Stalin. Quanto ao regime nazista está relacionada a um regime de governo ditatorial e totalitário, ou como alguns historiadores preferem: autocrático[1].

É importante ressaltar que cada um dos governos citados pressupõe condições históricas peculiares – tempo e espaço – mas carregam literalmente os dois conceitos citados, isso não quer dizer que todas as ditaduras possam ser caracterizadas da mesma forma.

Em um governo totalitário o poder é concentrado no mais alto chefe do país, visto por todos como um líder poderoso que define como deve ser o Estado. Um dos reforçadores do regime é a ideologia, ela mantém a união de todos os grupos que atuam no governo em prol do mesmo ideal. O líder e o grupo são centrados na missão de controlar toda a esfera das comunicações e diversas atividades, como: a política, o social, o poder militar e a economia – tudo centralizado e direcionado em moldes que promovem extremismos ideológicos.

Um Estado que submete sua população a coação e ainda promove vasta fascinação por um líder autocrático como Hitler, pode ser definido no que Hannah Arendt nomeia como totalitário, pois a Alemanha era uma ditadura moderna e abrangente. Possuía uma economia industrial e princípios ideológicos pragmáticos e nacionalistas – esta controlava de forma ampla todo o aparato político e militar, mantinha o controle com muito rigor de todos os sistemas sociais, tudo era legitimado pela maioria dos indivíduos que viviam no Estado. Os indivíduos que compactuavam desse mundo totalitário abstraíam a ideologia propagada e defendiam seu papel de subordinação, afinal nenhum Estado é capaz de perdurar se não houver o apoio da população que lhe dê a legitimidade para impor seu modelo de governo. Era uma subordinação aceita que se dava mediante os mecanismos sociais inclusive “educacionais” e ideológicos fortemente aplicados sob os indivíduos, bem como a conivência da população em concebê-los.

Definido a conotação conceitual no que se refere ao governo alemão, resta agora explicar como funcionava a política totalitária. A Alemanha era um país de economia capitalista com rápido crescimento industrial no período, e ao perceber isso, Hitler no início de seu governo impôs um programa de reforma econômica e social radicais – estes evitaram a luta de classes e ainda intensificavam um forte nacionalismo em todos os pontos da ideologia vigente. Os demais partidos políticos não conseguiam convencer a população com suas idéias naquele momento de efervescência política, pois com todos os recursos da máquina estatal a seu favor, o partido nazista conseguiu atrair e conquistar a massa da população. Afinal era um período pós-guerra, com ascensão e queda de repúblicas, monarquias e agitações socialistas pela Europa.

A origem e a forma como era organizado o partido nazista, bem como suas propostas, transmitiam a sensação de uma suposta verdade e segurança aos alemães sobre as doutrinas ideológicas propagadas na ocasião, estas serviam de base perante a sociedade que seguramente legitimava os ideais do partido. Portanto a ideologia política era transmitida de forma convincente a base social; em contrapartida, concebida e abstraída por ela como a única admitida e legalmente aceita.

 O nazismo alterou o cenário político do país para que a sua ideologia constituísse um Estado que se colocasse como salvacionista, pois criticavam duramente a democracia, o socialismo e o modelo econômico liberal. Assim sendo, um dos primeiros pontos que dava ao Estado o poder da persussão partidária, foi “a existência da ideologia oficial, veiculada com a maior intensidade possível, em que a negação da democracia formal tinha como contrapartida a proposta de construção de uma nova sociedade, de uma sociedade perfeita”. (SPINDEL:1992, p. 44)

Portanto, na ditadura nazista o poder do ditador partiu do apoio popular e isso legitimou com força a criação do Estado totalitário alemão – um estado policial e militarizado com ampla vigilância e abrangência de controle sob a população. Refiro-me aqui à uma forma intensificada e extrema de autoritarismo, ou seja, os regimes totalitários como o nazismo vão muito além do autoritarismo.

No modelo ditatorial alemão, menosprezou-se os ideais iluministas e constituiu-se um Estado com base na força e uma autoridade exacerbada e legitimada pela população – substituíram a luta de classes pela solidariedade de classes. Era propagado um patriotismo futurista e o uso da força como moral educadora, com base em pressupostos de guerra e o emprego da violência como solução para fortalecer o Estado e levá-lo ao progresso. Havia ênfase na “força” do Estado, muito do que se propagava estava direcionado nela e também nos aspectos étnico-raciais com uma concepção maquiada de bem público, ou seja: “o indivíduo é nada o Estado é tudo”. (BOBBIO:1986, p. 36)

Com a suposta idéia de um governo que se insurge como forte e promissor, a figura do ditador tornou-se um símbolo desse modelo político e com isso, eclode com força um modelo de propaganda que passou a se dedicar e inspirar o entusiasmo pleno da população, que muitas vezes carecia de inúmeros recursos básicos de subsistência e, mesmo assim, por mais surpreendente que seja ainda apoiavam o ditador, muitas vezes visto como um líder sério, capaz e carismático. Para Hanna Arendt, o poder do regime também estava centrado na propaganda, “ela visava doutrinar, pois a força da propaganda totalitária reside na sua capacidade de isolar às massas do mundo real com vistas a oferecer um mundo completamente imaginário e distante da realidade”. (ARENDT:1989, p. 402)

Sendo assim, a censura dos meios de comunicação foi validada no Estado alemão. A população não encontrava caminhos para expressar seus descontentamentos. Quando conseguia, era duramente reprimida com prisões arbitrárias, seqüestros, técnicas draconianas de tortura, crueldades ilimitadas e assassinatos com métodos técnicos e científicos em grande escala, criou-se linhas de produção racionalizadas e eficientes em eliminar seres humanos em prol de uma verdade inexistente que só era capaz de se manter pelo uso da força.

Com base na força de tropas militares, ordens eram impostas, mesmo aquelas que iam contra os direitos do homem. O domínio foi exercido em favor dos que estavam no poder, com longo adeus à uma constituição humanizada e os cidadãos privados de liberdade e informação. Os órgãos públicos – principalmente os meios de comunicação – passam a ser comandados pelo regime, inclusive os que se colocavam como formadores de opinião, como as “escolas”, comumente negligenciadas nesse contexto. Nelas recriaram-se “posturas pedagógicas” e ideologias em prol do Estado. Nesse sentido, convém lembrar que, quando um país está sob o governo de um regime totalitário, a educação se torna manipulada em favor da ditadura, cuja própria difusão da doutrina também se propaga por meio dela exaustivamente.

O governo do país atuava de forma monopolizada, dispunha os poderes do Estado nas mãos de um único homem que atuava com juntas militares. Foi imposto métodos de uma vigilância acobardada contra a sociedade, eram repressões realizadas por meio da política, da burocracia que estava subordinada ao exército, da contaminação do judiciário, da tiranização da imprensa e da proibição de instituições culturais que geravam ameaça ao sistema, neste interim quem mais sofreu com esse tipo de autoridade desumana e cruel, foram os judeus. 

Os desfiles cívicos e militares de imenso porte, contribuíam para exaltar a exuberância do ditador como líder máximo, visto como aquele que era detentor de poderes excepcionais: capazes de controlar a sociedade e todo o sitema partidário. A propaganda e o terror passaram a caminhar juntas, em alguns momentos a intensidade propagandística difunde uma doutrinação capaz de legitimar o forte emprego da violência, como cita Arendt:

Nos países totalitários, a propaganda e o terror parecem ser duas faces da mesma moeda. Isso, porém, só é verdadeiro em parte. Quando o totalitarismo detém o controle absoluto, substitui a propaganda pela doutrinação e emprega a violência não mais para assustar o povo (o que só é feito nos estágios iniciais, quando ainda existe a oposição política), mas para dar realidade às suas doutrinas ideológicas e às suas mentiras utilitárias. (ARENDT, 1989. p. 390).

Partindo da citação acima, concluo que não se apontava mais quem eram os supostos culpados pelos problemas do Estado; e sim, executavam-se extermínios, assim como foi o anti-semitismo, este por sua vez, surgiu da criação de uma forte propaganda repetitiva e também das convicções ideológicas que exaltava alguns mitos irracionalistas criados pelo regime com a finalidade de manipular e convencer a massa sobre uma suposta verdade.

A forma como o governo utilizava seus recursos para controlar a vida das pessoas tinha como base um sistema politicamente organizado, que almejava o total controle da vida social dos indivíduos. Embora seja difícil obter o controle social total e dos aspectos privados dos indivíduos que pertenciam ao Estado alemão, ressalto que houve notáveis esforços para isso inclusive na burocracia estatal, no policiamento, no serviço telefônico, serviços postais e auxílio de informantes espalhados pelo Estado.

Por fim, se havia uma tentativa rigorosa em controlar a massa, pode-se imaginar o que foi feito com o processo educacional da Alemanha naquele momento. Afinal, era um alicerce para a formação de opinião, bem como para inculcar a concepção de um mundo supostamente superior e artificial que estaria por vir com um líder supremo, que evidentemente, seria e foi muito bem aceito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

BURGUIÉRE, André. Dicionário das Ciências Históricas. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

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ROSENBAUM, Ron. Para Entender Hitler A Busca Das Origens do Mal. Rio de Janeiro: Record, 2003.

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[1] Não faço referência aqui aos regimes autocráticos da antigüidade, pois com todo esse controle e fascinação por parte dos membros do Estado alemão, “é possível sim” compreendê-lo como uma “autocracia moderna”, isso se dá pelos seguintes aspectos: nos países totalitários ou autocráticos, há uma forma extrema de autoritarismo e maior controle das massas. A propaganda é conduzida pelo Estado, este detém o controle quase que absoluto em quase todos os aspectos, substitui-se a propaganda pela doutrinação com exuberância, desfiles cívicos e militares de imenso porte e emprega-se a violência e se impõe algum tipo de controle sob as crenças religiosas. Não mais se tiraniza, se concretizam extermínios e um claro exemplo dessa afirmação é o anti-semitismo ocorrido por lá, este por sua vez partiu da criação e propagação constante de uma ideologia oficial constituída pelo regime. Criam-se formas para controlar a vida das pessoas com sistemas politicamente organizados, estes almejavam o total controle da vida social e do interior dos indivíduos. O totalitarismo ou uma autocracia moderna, são um fenômenos que resultam de extremismos ideológicos e uma paralela desintegração da sociedade civil organizada. O Governo tende a endeusar-se, implantando uma verdadeira ditadura de Partido único, confundindo o Partido com o Estado e o ditador é o líder máximo, cujo poder permitia o controle social e partidário.

 

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