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Por Sidnei Ferreira de Vares

Era sexta-feira, uma noite fria de inverno. Olhava ao meu redor e via apenas as paredes pintadas de branco. Acima da cabeceira, um pequeno crucifixo decorava o ambiente. Confesso, sentia-me enclausurado. Há tempos estava ali, sem melhoras significativas. A solidão do quarto, as paredes, o teto. Sono, muito sono. Foi quando escutei uma voz, doce e suave. Parecia me chamar. Quase imperceptível. A princípio pensei que fosse a enfermeira. Era hora do chá? Talvez, o medicamento. Mas não avistei ninguém. A voz prosseguia, o que me deixou assustado, muito assustado. E como se pudesse ler meus pensamentos, repetia: – Não tenha medo, venha. Tremia de frio ou de medo! Talvez ainda não estivesse preparado. Naquele instante, uma forte e aguda dor tomou conta de meu peito. Contorcia-me numa aflição indiscritível, e naquele exato instante meu coração parava de palpitar. Fiquei alguns minutos como se estivesse dormindo, relaxado, num estado de transe. Não existia mais dor, rancor ou insatisfação, apenas uma sensação de pureza e leveza. Passado alguns minutos vi uma luz acima. Forte, ofuscava minhas vistas. Mesmo assim, insistentemente, tentava ver do que se tratava. Senti uma grande vontade de voar. Voar? Como alguém pode voar? Parecia estar levitando, era incrível aquela sensação. E ao me virar para o outro lado um susto. Aquele era eu! Tinha certeza, aquele era eu! Como poderia ser? Eu estava me vendo no leito do hospital, e o que era mais incrível: estava levitando! Fiquei confuso, não sabia o que estava acontecendo. E subitamente escutei a mesma voz doce que insistentemente dizia: – Não tenha medo, venha! Continuei a flutuar, a subir. Sentia-me leve como uma pluma. Não sabia para onde estava indo, mas alguma coisa parecia me acalentar. Continuei subindo de encontro à luz, quando surgiu, diante de meus olhos, aquela maravilhosa visão. De pronto senti uma vontade enorme de chorar. Avistava ao longe uma cidade, bonita e arborizada. Havia algumas pessoas também, e logo que me viram se aproximaram. Sem falar absolutamente nada, simplesmente tiraram minhas roupas, encharcadas de suor, sem constrangimentos, e deram-me uma veste branca e leve, foi quando um deles disse: – Seja bem vindo camarada! Levaram-me adiante, por um imenso e colorido jardim. Foi quando avistei alguns familiares que não via há muito tempo. Corei diante de tanta vergonha. Devia pelo menos a dois deles! Será que estavam esperando para me cobrar? Caminharam em minha direção e então me saudaram, sem dizer uma única palavra sobre a dívida. Aquilo tudo me deixou ainda mais confuso, mas no fundo feliz. Não sabia bem o que estava acontecendo. Seria tudo um sonho? Um delírio? Neste instante um jovem vestindo a camisa do corinthians, percebendo minha expressão assustada, avançou em minha direção e falou: – Seja bem vindo camarada, esta é a Cidade de Deus, popularmente conhecida como paraíso! Não, não, não. Eu não podia acreditar! Foi quando a ficha caiu. Eu estava morto, havia morrido. Aquele lugar, aquelas pessoas, a recepção. Estava no céu. Tinha sido recepcionado por meus parentes, que não me cobraram um tostão sequer, e o mais impressionante é que descobri que corintiano também vai pro céu! Mais tarde  (ainda não sabia que a noção de tempo era inexistente no céu), resolvi dar um passeio pelos arredores do imenso jardim. Vi algumas crianças brincando e correndo livres e soltas, pessoas sorridentes, alegres, sentadas a conversar. Negros e brancos de mãos dadas, sem pobres ou ricos, tudo em harmonia. Foi quando vi ao longe um senhor de barba cumprida e grisalha. Tinha a sensação que já o tinha visto nalgum lugar. Não sei bem, não me parecia estranho. Caminhei em sua direção, me aproximei. Realmente eu o conhecia. Sim, eu o conhecia! Talvez uma foto, uma gravura num livro, talvez. Continuei a caminhar vagarosamente em sua direção.  Nesse instante, me vendo parado a sua frente, o homem exclamou: – Seja bem vindo camarada! Não se lembra de mim? Pareço-lhe familiar? Pensei durante algum tempo e respondi-lhe que sim, mas não me lembrava. E ele então perguntou: – Olhe ao seu redor e diga-me o que vê! Observando tudo novamente lhe disse: – Vejo uma linda cidade, onde pessoas convivem juntas, sem brigas, sem miséria, sem discórdia. E, então, ele disparou: – Sou Pedro, São Pedro! Putz, que mancada! Só me restou lhe pedir desculpas pelo ocorrido. Como poderia me esquecer de São Pedro, o porteiro do Céu? Que Deus perdoe minha gaffe! Decidi então me retirar, mas antes lhe pedi novamente desculpas. Tinha confundido São Pedro com outra pessoa. Ao me afastar um pouco, vi que ele continuava parado a me observar. Continuei andando e não resisti à tentação (e que Deus me perdoe por isso). Num movimento brusco me voltei e gritei o mais alto que pude: – Hei, Pedrão! Aqui tem dedo de Marx, né?

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