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Por Fabiano Tizzo

Um dos instrumentos de controle mais significativo e eficiente durante o regime de Hitler foi a propaganda maciça. Ela mantinha o controle de opinião de toda a sociedade alemã, sem o exercício físico da força humana. Ela visava comover e tocar o coração da massa por ser direcionada de forma a agradar os sentimentos, desde as pessoas mais simples às mais cultas, conquistava e se direcionava em compreender e comover o pensamento do povo alemão, inclusive promovendo o anti-semitismo, as forças armadas, a política, o orgulho nacional e a juventude hitlerista.

A propaganda era incessante e repetitiva. Havia interesse que ela se fixasse na mentalidade da massa por meio desse método, com a ressalva que era um dos mecanismos de controle mais organizados e bem controlado pelos nazistas. A influência da propaganda no nazismo e nos diversos segmentos da sociedade alemã do início do século XX se fez sentir mediante a atuação do Ministro da Propaganda e Cultura – Paul Joseph Goebbels , conhecido por seus dotes retóricos, foi o responsável por exortar os alemães a aceitar as idéias raciais, de guerra total, mobilização, ódio, extinção da democracia e aceitação do totalitarismo. Mentor de uma técnica oportunista de oratória, elevou Hitler ao nível de Führer.

A estrutura propagandística era organizada e abrangente, os nazistas conseguiam controlar estações de rádio, jornais, filmes, aulas e professores, correspondência pessoal e até telefonemas. Alguns ritmos musicais, hinos ou livros considerados não germânicos eram proibidos. Muitos livros entravam para uma lista de não permitidos. Um dos guias ideológicos e de ação para a política nazista foi escrito pelo próprio ditador alemão em 1924, sendo chamado por Mein Kampf (Minha Luta). Era visto na Alemanha como a “Bíblia nazista”. Nele um volume intitulado como A Propaganda da Guerra – no Capítulo VI, é aqui apresentado para que possamos ter uma idéia ou uma boa definição daquilo que os nazistas consideravam como propaganda: “Toda propaganda deve ser popular e estabelecer o seu nível espiritual de acordo com a capacidade de compreensão do mais ignorante dentre aqueles as quais ela pretende se dirigir.

Assim sua elevação espiritual deve ser levada um tanto quanto mais baixa quanto maior for a massa humana que ela devera abranger, […] Deve-se proceder com o máximo cuidado, a fim de evitar concepções intelectuais demasiadamente elevadas. […] Quanto mais modesto for o seu lastro científico e quanto mais ele levar em consideração o sentimento de massa, tanto maior será o sucesso. […] A arte da propaganda reside justamente na compreensão da mentalidade dos sentimentos da massa. […] A capacidade de compreensão do povo é muito limitada, mas em compensação, a capacidade de esquecer é grande. Assim sendo, a propaganda deve-se restringir a poucos pontos. E esses devem ser valorizados como estribilho até que um último indivíduo consiga saber exatamente o que representa este estribilho”. (HITLER, 2005. p. 135-136).

O Ministério da Propaganda era coordenado por Goebbels e o Ministério da Educação também era dirigido sob sua influência, estes órgãos eram encarregados de manter um rígido controle sobre os meios de comunicação, escolas e universidades e de produzir discursos, hinos, símbolos, saudações e palavras de ordem nazista. Em 10 de maio de 1933, Berlim foi palco de uma grande campanha famosa de queima de livros que ficou conhecida como Bücherverbrennung.

Depois de uma grandiosa ação publicitária empreendida pelo Estado, os estudantes e a população de Berlim e de outras cidades limparam suas bibliotecas e passaram a assistir à queima de livros ao som da música “Marcha Fúnebre”, de Frédéric Chopin. Houve inúmeras fogueiras de livros. Era uma forma de mostrar que o antigo modelo cultural estava morto e que se iniciava um novo momento para toda a sociedade alemã.

Toda população, os estudantes e as universidades respeitavam esse tipo de ordem e constantemente organizavam-se grandes fogueiras de livros. Eram queimadas montanhas deles, em pouco tempo incendiadas inclusive nas universidades. A partir de então, o Estado passou a determinar o que as pessoas poderiam ler. Autores democratas, pacifistas, sindicalistas, liberais e judeus, como Karl Marx e Albert Einstein, foram considerados antigermânicos. Hitler declarou guerra à razão e a submissão do povo ao Estado ampliou-se. A propaganda tornou-se um instrumento comum no meio, tinha a função de unificar os ouvintes e lhes propiciar o sentimento de nação e pátria que tanto buscavam. Alimentava uma ampla esperança, fazendo os alemães acreditarem nas mensagens mais complexas e surpreendentes da História. Era a ferramenta que o poder buscava para se afirmar, e conseguiu. Propagava-se de forma, que as mentiras se tranformavam em verdades absolutas e concretas, detrurpava-se efetivamente a realidade e, assim, se obtinha a crença de toda a massa.

Todos os ideais e interesses do regime tinham a propaganda a seu favor, com os mecanismos e meios mais avançados existentes na ocasião, que garantiam o controle psicológico e de opinião geral. Muitos dos discursos de Hitler eram transmitidos pelo rádio, que era o meio de comunicação mais acessível ao qual a maioria da massa tinha acesso. Quase todos paravam para ouvir os seus discursos. Muitas rádios eram proibidas de serem ouvidas. A pena pelo descumprimento era a morte. Alguns alemães se arriscavam e compravam fones de ouvido secretamente em lojas confiáveis.

Com isso, governo alemão passou a controlar boa parte da vida das pessoas e a disseminar o ódio étnico-cultural contra o semitismo, tudo isso sustentado por meios de comunicação eficientes e avançados para a época. Desse modo a atenção não se voltava às mazelas do partido, grande parcela da opinião pública se direcionava a um único alvo específico, os judeus. De acordo com Hannah Arendt (1906-75), “a propaganda nazista é parte integrante da guerra psicológica, porém o terror é a sua própria essência. Arendt indica que a abrangência de controle imposta e a determinação de suas ideologias, são os aspectos que mais serviram como fundamento para a criação de um mundo inteiramente fictício”. Com o apoio da propaganda ideológica, muito avançada para a época, era possível conduzir as massas psicologicamente.

Em outras palavras, a propaganda era um dos instrumentos-chave dessa modalidade de governo, e possivelmente um dos mais importantes para vencer a resistência de um mundo que não compactuava totalmente com essa forma de governar. Goebbels acreditou também no direcionamento do processo educacional e da propaganda, pois sabia que os jovens seriam os novos portadores da “verdade alemã”. Inseriu poderes em suas mentes ao criar grandes discursos para convencê-los e transformá-los em fiéis seguidores do Führer e do Terceiro Reich. Os jovens eram sempre exaltados pelo cinema, que os mostrava como futuros heróis e principalmente a abstração em prol da coletividade, além dos padrões de beleza e corpos saudáveis que eram também alvo da incansável propaganda, sempre incitadora.

A propaganda impressionava, transformava, ludibriava e contribuía na criação de uma realidade subjetiva e artificial. Essa modalidade de propaganda totalitária interligou-se à definição dos ideais do governo e, com seu controle eficiente, transmitia apenas aquilo que os alemães deveriam ver, ouvir, pensar e aprender por meio de uma manipulação estatal rigorosa a ponto de entrelaçar diversas atividades sociais e profissionais. A juventude hitlerista foi subsidiada pela “propaganda”, por conseguinte, pela disseminação das “idéias de Goebbels e Hitler”, que, juntas – propagandas e ideais – nutriram os jovens e os inspiravam em seus esforços e treinamentos, ou seja, às idéias eram representadas em diversas propagandas, e assim, idealizadas pelos jovens que se identificavam com aquilo que era expressado e se sentiam estimulados em dedicar seus esforços em favor do Estado. Era uma forma dogmática de associar servidão e alienação. Goebbels foi um intérprete dos sentimentos mais intrínsecos da juventude e da nação alemã, que buscavam a glória da reconstrução e soberania. A própria educação serviu como difusora dos ideais políticos. A propaganda e a educação doutrinária estavam em perfeita sintonia entre si e cumpriam os objetivos de seus idealizadores e da nova Alemanha.

Neste sentido, autor russo Ivan Pavlov (1849-1936) destaca a idéia de que o condicionamento clássico consiste de maneira em que, algumas respostas comportamentais são reflexos incondicionados, ou seja, são inatas em vez de aprendidas, enquanto que outras são reflexos condicionados, aprendidos através do emparelhamento com situações agradáveis ou aversivas simultâneas ou imediatamente posteriores. Isto que dizer que, por meio da repetição consistente desses emparelhamentos é possível criar ou remover respostas fisiológicas e psicológicas em seres humanos e animais, o que abriu caminho para o desenvolvimento propagandístico da Alemnha Nazista e mostrou ter ampla aplicação prática. Apoiado nestes conceitos pode se afirmar que o condicionamento humano foi utilizado como forma de motivação para milhões de jovens alemães lutarem de maneira fervorosa por sua pátria.

O punho levantado, o grito de saudação: “Heil Hitler”! E o símbolo da suástica, era fatores que também condicionavam os membros do partido nazista a seguirem de maneira fiel e com obediência a doutrina implantada naquele país, pois não se negavam em sacrificar a própria vida quando necessário. Um dos primeiros estudos sobre a utilização da propaganda como “arma” em política, foi publicado nos anos trinta, pelo psicólogo russo Serge Tchackotine (1883-1973).

Esta obra apresenta métodos utilizados por ditadores para sustentarem sua influência popular sem o emprego da violência física, utilizando-se de uma violência psíquica para deturpar consciências, é o que Tchakhotine denominou de “artilharia psicológica”, que agia com violência diariamente na tentativa de excluir as vontades individuais para impor ao povo alemão o sentimento de coletividade em prol do Estado nacional e somente 10% das pessoas conseguem escapar à ação da propaganda, enquanto os outros 90% têm atenção fortemente atraída obrigando-os a olhar e a ver os chamamentos propagandísticos”. (TCHACKOTINE: 1967, p. 549) Além da educação, a propaganda nazista foi um dos principais instrumentos psicológicos de ascensão e um dos principais pilares de sustentação do regime de Adolf Hitler. Ela cumpriu sua verdadeira missão na Alemanha daquele período, que foi a de influenciar a opinião e a conduta da sociedade, de tal modo que as pessoas adotaram “uma conduta determinada”. Nesse sentido, toda propaganda é sempre institucional, ideológica e, ao expressar uma ideologia, manifesta-se politicamente com o nazismo fez.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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