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Por Sidnei Ferreira de Vares

“Os filósofos só interpretaram o mundo de diferentes maneiras; do que se trata é de transformá-lo.” (MARX, 1998, p. 103).

 Atualmente a expressão “utopia” vem sendo bastante utilizada em discussões acadêmicas, políticas e mesmo em conversas informais. Além de presenciarmos certa banalização da concepção de utopia, assistimos igualmente algumas distorções semânticas que distanciam o termo de seu real significado.

Por conta disto, alguns equívocos têm surgido. Visando contornar esses riscos, centralizaremos esforços na tentativa de definir o que é utopia. Originalmente, a palavra utopia deriva do grego, significando “lugar nenhum”. Muito embora possamos entender utopia como aquilo que não tem lugar num determinado momento, mas que pode vir a tê-lo em outro, insiste-se em relacionar esta expressão a algo irrealizável.

Neste sentido, utópicos seriam aqueles que concebem o que não pode ser efetivamente concretizado. Contudo, esta trata-se de uma análise negativa, pois tem a utopia como algo sem espaço para sua concretização efetiva. Cabe-nos então perguntar: se a utopia é algo irrealizável, por que o homem caracteriza-se como ser utópico? Por que perdemos tempo projetando utopicamente um algo melhor, se este não se realizará?

Grande parte dos pensadores tem sido extremamente reducionista ao analisar este conceito que, mais do que um vir-a-ser fantasioso, mostra-se como um algo possível. As discussões em torno deste conceito são bastante diversas, o que instiga nosso propósito de verificar qual seu real significado. Num mundo onde se apregoa o fim da história e dos sonhos, resgatar o conceito de utopia é mais do que uma meta: é uma necessidade.

Afinal, vivemos num mundo marcado por profundas desigualdades, onde o número de excluídos e a desesperança têm aumentado significativamente. Buscar uma definição precisa sobre o conceito de utopia não é uma tarefa tão fácil como a princípio pode parecer.

A utopia parece operar entre dois registros: o sonho e a realidade, mediada pela esperança da concretização. Segundo Teixeira Coelho (1980, p.09): “[a utopia] (…) não é delirante, nem fantástica. Ela parte, sim, de fatores subjetivos, num primeiro momento, apenas no âmbito do indivíduo. Mas, a seguir, ela se nutre dos fatores objetivos produzidos pela tendência social da época, guia-se pelas possibilidades objetivas e reais do instante, que funcionam como elementos mediadores no processo de passagem para o diferente a existir amanhã”.

Como constata o autor, a utopia oferece uma dimensão subjetiva, uma vez que parte sempre de um indivíduo. Porém, este mesmo indivíduo é produto de uma determinada circunstância histórica, estando situado no tempo e espaço. A utopia possui igualmente uma dimensão objetiva, acompanhando o momento histórico (político, econômico, social, cultural, etc.) no qual o indivíduo está inserido. Como bem define o autor, é guiando-se pelas possibilidades objetivas e, portanto, concretas que a utopia constitui um processo que lança no hoje as sementes de transformações futuras.

Dessa forma, está implícita a idéia de mudança, ou seja, a utopia é sempre não-conformação de uma situação instituída, projetando um algo diferente/melhor para o futuro. Contudo, não poderíamos dizer que a utopia é semelhante ao sonho?

Aparentemente, utopia e sonho podem parecer uma única coisa: porém não são. O sonho é irreal, se restringe à noção de idéia, que pode até ser realizável (dependendo do sonho), mas que não tem obrigatoriedade de se realizar objetivamente. Assim, na maioria das vezes, ao falarmos em sonho, estamos nos referindo à algo que está fora do real, muito embora seja influenciado por este e possa se concretizar. Quanto a utopia, não podemos tê-la como sinônimo de sonho. Ser utópico é projetar o diferente, ou seja, estar consciente daquilo que determinada coisa ou situação é, e inconformado com este algo ou situação, lançar no agora aquilo que acreditamos que possa vir-a-ser amanhã. Assim, a utopia está atrelada ao esforço de realização, não se reduzindo a noção de sonho, fora da realidade e sem comprometimento com o concretizar. A definição de utopia, é encontrada em alguns dicionários, num sentido negativo, conotando um sonho impossível, inalcançável.

Ao contrário dessa concepção, alguns autores apresentam uma visão mais ampla sobre o termo, definindo-a como um projeto possível de ser alcançado. Para isso, a imaginação, ou seja, o ato de imaginar, de projetar, faz-se necessário. Como afirma Teixeira Coelho (1980, p. 08): “Mas a imaginação necessária à execução daquilo que deve vir a existir não é a imaginação digamos comum, aquele que se alimenta apenas da vontade subjetiva da pessoa e se volta unicamente para seu restrito campo individual, detendo-se exclusivamente para propor coisas como montanhas de ouro. Tem de ser uma imaginação exigente, capaz de prolongar o real existente na direção do futuro enquanto projeção de um presente a partir daquilo que neste existe e é passível de ser transformado. Mais: de ser melhorado. Essa imaginação exigente tem um nome: é a imaginação utópica”. Então por que a utopia é vista sempre como algo inalcançável?

Na verdade, esta parece ser uma idéia intencional, da qual as classes dominantes pretendem distorcer o seu verdadeiro sentido, conscientes de tamanha revolução que pode causar uma utopia posta em prática.

A utopia é o primeiro passo para uma prática/ação, para a realização do projeto, que busca o novo inconformado com o que é o presente. “Há sempre um excedente utópico a funcionar como mola de um novo ciclo imaginativo, há sempre algo irrealizado que busca realizar-se numa nova projeção. (…) Nesse quadro, fazer agitar a idéia multicolorida da utopia é uma obrigação cotidiana indispensável ao reatamento dos laços com um passado ocasionalmente generoso (porque utópico) de que somos resultado, e necessária como energia, hoje um tanto carente, para a movimentação do projeto que, só ele, pode nos resgatar”. (COELHO, 1980, p. 12-13)

Dessa forma, podemos definir utopia como desejo de mudança, um projeto que parte do inconformismo a uma realidade dada, buscando transformá-la. Utopia não é sinônimo de fantasia, pelo contrário, é um projeto de mudança real. Nas palavras do professor Ênio da Costa Brito (2000, p.121): “O ponto de partida de qualquer projeto utópico é a realidade ou melhor a insatisfação diante de uma dada realidade. A força da utopia está na sua dimensão simbólica. Claro que a busca de sua realização é necessária”. (…) Pode-se descrever a utopia como “a capacidade do ser humano de viver no provisório”. Diante do “irreversível” processo globalizante e dos discursos que decretam o fim da história, identificamos a força do ato inovador e dos projetos utópicos.  O imobilismo promovido pelas políticas neoliberais, que colocam o mercado como o fio condutor de nossas vidas, degenera a prática/ação e o projeto de um algo melhor. Resgatar a dimensão utópica do homem é uma forma de resistência frente ao imobilismo produzido pelos discursos contemporâneos conservadores.

Referências Bibliográficas

BRITO, Ênio da C. A Cultura como desafio. In: Revista Lumen, v. 6, n. 13, 2000, 113-124 p.

COELHO, Teixeira. O que é utopia. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1981.

FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Traduzido por Auly Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia Alemã. 2. ed. Traduzido por Luiz Cláudio de Castro e Costa. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

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