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Por Felipe Garcia de Medeiros

A poesia é composta por um processo alquímico de palavras – misturadas umas às outras, o poeta é o feiticeiro e responsável pela reprodução de sua mistura mágica. O Feiticeiro e sua Magia, de Strauss, reitera esse significado de transmissão da sensibilidade da tribo – processo encantatório pelo qual o homem é impelido a refletir-se no outro como em si mesmo, revelando a multiplicidade de cada ser humano e do supremo poder da palavra. Diria Ezra Pound, o melhor artífice, que os poetas são “as antenas do mundo”. Octávio Paz diz: “A poesia é metamorfose, transformação, operação alquímica”, “por essa razão ela vive muito próxima da magia e da religião” – em O arco e a lira. As palavras evocam uma ausência, e por esse motivo, algo é preenchido no espaço quando se pronúncia uma palavra no vazio – se digo, Jesus Cristo!, o espaço ao meu redor enche-se de poder e significações. A necessidade de se representar, desde o início, a imagem do homem, não o homem em si como pensava Kant (pois a coisa-em-si é inapreensível) foi um dos caminhos encontrados para se chegar ao homem. Emily Dickinson nos assusta e se expressa magnificamente: Se eu leio um livro e ele faz o meu corpo tão frio que nenhum fogo pode me aquecer, sei que aquilo é poesia. Se eu sinto, fisicamente, como se o topo da minha cabeça tivesse sido arrancado, eu sei que aquilo é poesia. Estas são as únicas formas pelas quais eu identifico o poético. Haverá alguma outra? A poesia não acalenta as cândidas almas do otimismo, tampouco tem o objetivo de sentar o sujeito nas cordas de equilíbrio da sua canção. Ela perturba, causa mal estar, deve fazê-lo sentir-se primordial como o pó, inquietá-lo a tal ponto de questionar a própria existência e prová-lo: és mortal, humano. Em Lições de feitiçaria, Rubem Alves dá o exemplo claro do poder da palavra, mostrando-nos a questão do psicanalista: “O psicanalista ouve em silêncio, a fim de aprender os nomes que mantêm o corpo enfeitiçado. – Qual é o teu nome? – ele pergunta. Porque sabe que, quando os seus nomes são ouvidos, os demônios fogem”. Assim, antes de chegar à porteira do meu objetivo, preciso salientar o caráter concreto e preciso da poesia (apesar de estarmos em um âmbito essencialmente fluido), presente em vários poetas imortais. Com “Psicologia da composição” (1946-1947), João Cabral de Melo Neto traz à luz para composição mineral do poema – associando, assim, poesia e matéria, dando-lhe consistência física tais como os elementos da natureza. Depois de publicar “Educação pela pedra” (1962-1965), o poeta define lucidamente o conceito alquímico de poesia e seleção, com o exemplo lúdico e manual de “catar feijões”. O termo “concreto” não se refere exclusivamente ao movimento concretista brasileiro, essa terminologia foi utilizada por Haroldo de Campos em uma entrevista, ao esclarecer que há de existir, na grande poesia, a “concreção”, ou seja, força das palavras impressas no papel, sua presença física e imagética como instância de materialização do poema para o mundo das entidades concretas. Já que o poema, ou as palavras, evocam uma ausência, é necessário que se crie um sistema rígido por meio do verso (mesmo este aparentando ter surgido da garganta de um sabiá) para que se efetue ou evoque a presença dessa expressão poética que jaz no âmago do nosso espírito. Dessa forma, vão existir diversas maneiras de se revelar essa forma latente do reino das palavras. Se considerarmos o movimento alquímico presente na poesia, desde Rimbaud (em Alquimia do verbo), para ilustrar um excelente exemplo da literatura, e com a publicação do seu “poema mágico” Voyelles – cada palavra presente no poema adquire o status de átomo, manipulado singularmente pelo poeta, de uma composição maior: a obra. Para Feynman, “todas as coisas compõem-se de átomos – pequenas partículas que se deslocam em movimento perpétuo, atraindo umas às outras quando estão a certa distância, mas repelindo-se quando comprimidas umas contra as outras”. Para esclarecer o pensamento, devo demonstrar ao leitor o porquê de tantas analogias. Simples: a poesia, como esbocei anteriormente, é composta por palavras (até por estruturas menores, como a letra) que são selecionadas pelo poeta através de um processo alquímico e, portanto, mágico. Acaso, a poesia não encanta (sem a ingenuidade nem a perversidade desta palavra)? Existem poetas capazes de dar à forma do poema, como disse, uma estrutura palpável e sólida, macroscópica (os tecidos, os órgãos, membros), corpos moventes e discursivos, estruturados pelos átomos ou palavras, até a formação preciosa do organismo. Vários poetas utilizaram-se desse processo, como Dante, Laforgue, Baudelaire, Fernando Pessoa – diversos. Tal como a combinação dos genes pode revelar um fenômeno futuro, não foi debalde que as profecias de Nostradamus foram escritas em verso, até mesmo pelo caráter semântico e plural da poesia e também pela força da palavra. O verso discursivo, amplamente utilizado (metrificado ou não) constitui-se como um dos meios de composição poética. À parte deles, Mallarmé experimentou, no fim do século XIX, em “Um lance de dados”, a tentativa extraordinária de criar um poema, utilizando-se de átomos/moléculas/resíduos/ palavras, a partir do nada. A máxima de Lucrécio “EX NINHILO NIHIL FIT” reforça a tentativa astronômica do poeta francês Mallarmé de criar algo do nada – pois do nada nada vem. O nada é amplamente discutido na filosofia, Bergson diz que “pensar o nada” é impossível, “porque a impossibilidade dessa experiência elimina a possibilidade semelhante do pensamento”. Como se sabe, biologicamente falando, a teoria da vida é baseada na ideia de que os organismos existentes foram gerados de outros preexistentes – a biogênese. A tentativa admirável do autor de, “A tarde de um fauno”, era um tentativa de escrever a Grande Obra, infelizmente, não atingida. Diversos críticos da época chegaram a dizer que, na verdade, ele tinha escrito “um extraordinário fracasso”. Mesmo em literatura, onde tudo é possível, o poeta, de fato, compôs um “genial fragmento”, com o desejo de originá-lo do Nada para que se tornasse o Nada. Existem limites até para o impossível. Mallarmé diz, em “Um lance de dados”, que “um lance de dados jamais abolirá o acaso” e, magistralmente, “Todo pensamento emite um lance de dados”. Jacques Monod, em seu ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna, “O acaso e a necessidade”, fala que “a lei geral das sequências dos radicais das fibras polipeptídicas, a lei de reunião a que obedecem é, por meio de análise e de cálculo: a do acaso”. Então “a sequência ‘ao acaso’ de cada proteína é, de fato, produzida, milhares e milhões de vezes, em cada organismo, cada célula, em cada geração, por um mecanismo de alta fidelidade que garante a invariância das estruturas”; tal mecanismo o autor chama de necessidade, das certezas implacáveis, portanto, baseado num mecanismo dialético e dialógico. Literatura e tradição – criação e invariância, mudança e permanência – evolução, como Drummond diz “O que muda na mudança/ se tudo em torno é uma dança?” As palavras, nos poemas de Obra Breve de Fiama obedecem a uma lei atômica, microscópica e, por vezes, macroscópica, no qual o poema realiza uma ideia de “visão nuclear” da poesia; cada verso e cada palavra se relacionam umas com as outras numa cadeia infinita de possibilidades, palavras no campo do acaso e da necessidade, atômicas. Baseando-se nesses mecanismos de criação, dou argumentos sólidos para assertiva de Ezra Pound, quando disse: “A Literatura é a novidade que permanece novidade”. Igitur ou A Loucura de Elbehnon de Mallarmé resume, no capítulo IV, intitulado de “O lance de dados (no túmulo)”, parte da ideia desenvolvida ao longo do ensaio: Breve, num ato onde o acaso está em jogo, é sempre o acaso que realiza a sua própria Ideia, afirmando-se ou negando-se. Frente à sua existência, a negação e a afirmação acabem de fracassar. Ele contém o Absurdo – implica-o, mas em estado latente o impede de existir: o que permite ao infinito ser. Creio que a poesia concreta da geração de 56 deveria chamar-se de atômica, no entanto, esse será assunto para outro trabalho. À primeira vista, o poema moderno é considerado essencialmente metalinguístico – reflete sobre o próprio ato de se compor poesia – e cada palavra presente neles suscita a ideia de sistema físico, um corpo vivo, composto por átomos que podemos ver e não ver a olho nu. Por que podemos ver e não ver? Porque as relações entre as partes visíveis do poema, do corpo, com o todo, irá revelar a verdadeira constituição atômica do poema: a poesia. Ela é, in essentia, a mecânica do desenvolvimento da estrutura micro e macroscópica do poema – o ser que anima os átomos, juntamente com o calor que é colocado nessas moléculas para construção do sentido dessa maravilhosa substância etérea, poesia. Ao leitor, ofereço a chance de ir no mistério – da estrutura da poesia atômica.

Referências Bibliográficas

ALVES, Rubem. Lições de feitiçaria: meditações sobre poesia. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

FEYNMAN, Richard P.. Física em seis lições. Trad. Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

MALLARMÉ, Stéphane. Igitur ou A Loucura de Elbehnon. Trad. José Lino Grünewald. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985,

MONOD, Jacques. O acaso e a necessidade. Trad. Bruno Palma e Pedro Paulo de Sena Madureiro. Rio de Janeiro: Editora vozes, 1971.

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