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Por Thiago Rodrigues

“[…] não existe a imortalidade da alma, então não existe tampouco a virtude, logo, tudo é permitido.” (Dostoiévski, 2008, p. 127).

Todos conhecem a famosa tese de Ivan Karamázov, personagem do último e talvez o mais importante romance de Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov. É do conhecimento de todos também a influência da obra deste autor, e em especial deste romance, para o pensamento do século XX. Dentre os pensadores influenciados destacam-se, por exemplo, Freud que o considerava “o maior romance já escrito”; Nietzsche que em seus delírios se remetia à passagens do autor; e, o pensador que quero destacar aqui, Sartre que consagrou a famosa tese na não menos famosa máxima: “se Deus não existe, então tudo é permitido”.

Mas a tese – filosófica! – do mestre russo da literatura serve aqui como um mote para introduzir o problema da função da literatura.

Certa vez quando interrogado sobre a função da literatura, o então escritor Chico Buarque responde: “A literatura não serve para nada”, no que retruca o entrevistador: “então, se você não tivesse lido os livros que leu, você seria a mesma pessoa? É evidente que Chico Buarque pensava na instrumentalização da obra de arte e, nesse sentido, a arte não deve servir para nada mesmo. Ou não

Sartre (1984, p. 182) em sua autobiografia afirmou: “Durante muito tempo tomei minha pena por uma espada: agora, conheço nossa impotência. Não importa: faço e farei livros. São necessários; sempre servem, apesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, ele não justifica. Mas é um produto do homem: ele se projeta, se reconhece nela; só este espelho crítico lhe oferece a própria imagem”.

Ao refletir acerca do seu ofício Clarice Lispector (2001, p. 123, grifo meu) em uma de suas crônicas certa vez disse: “[…] eu queria era ‘fazer’ alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso”. Fica claro que a autora também se opõe aqui à instrumentalização da obra de arte, mais especificamente, da prosa. No entanto, subsiste uma questão: escrever é ou não é fazer alguma coisa? Escrever é agir.

 A questão passa pelo problema do engajamento, porque, se escrever é agir, então o prosador deve se engajar. Mas o que significa para Sartre engajar-se?

É em seu famoso ensaio Que é a Literatura? que o filósofo busca respostas à estas questões. É quase ocioso afirmar aqui que Sartre não pretende instrumentalizar a prosa como afirmam seus opositores. São justamente as críticas dirigidas ao filósofo nesse sentido que fomentaram a escrita do ensaio.

Os motivos que levam Sartre a vincular a prosa ao engajamento são muito mais sutis e profundos do que aqueles apontados por seus opositores ao aproximá-lo do Realismo Socialista, por exemplo. Desse modo, por razões óbvias não apresentarei aqui os fundamentos “metafísicos” dessa aproximação, mas cabe apontar alguns pressupostos, mesmo que de forma sucinta e simplificada.

Para o filósofo a obra literária, mais especificamente a prosa, se caracteriza como um apelo à liberdade do leitor, como uma espécie de “pacto de generosidade” para que, juntos, autor e leitor, realizem a obra numa espécie de encontro de liberdades. Assim, o leitor não apenas frui a obra, como também a cria, é o leitor que, num ato livre, generosamente dá sentido à obra. Decorre daí que a prosa se caracteriza por um ato livre do escritor que cria o livro e do leitor que o carrega de sentido, sendo assim, é justamente essa relação que fundamenta o ofício do escritor.

Posto isto, não podemos de forma alguma aproximar a literatura, segundo o pensamento sartriano, de qualquer forma de doutrinação tal como manda as cartilhas do partido.

Portanto, escrever é “fazer alguma coisa”, é agir. Se assim é, escrever é também uma forma de se engajar, ou seja, observa Sartre, desde o momento em que o escritor cria seu romance, ela já está se engajando em algo, porque toda escrita está inserida em um contexto social e histórico, em uma situação, como prefere o autor. Essa concepção está em consonância com a máxima sartriana de que não escolher já é uma escolha, assim, não engajar-se, já é uma forma de engajamento.

Mas, para concluir, retomemos o exemplo de Dostoiévski, foi o romancista russo um escritor engajado? Dentro deste registro com toda certeza! Mesmo que isso possa incomodar algum crítico afoito da concepção sartriana.

Mas, como disse Sartre (2006, p. 218), “nada disso é importante: o mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode passar melhor ainda sem o homem”

Referências Bibliográficas

 DOSTOIÉSVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. Trad., posfácio e notas de Paulo Bezerra. São Paulo: Ed. 34, 2008. (Vol. 1)

LISPECTOR, Clarice. Melhores Contos de Clarice Lispector. Sel. De Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Global, 2001. 3ª Edição.

SARTRE, Jean-Paul. As Palavras. Trad. J. Guinsburg. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, 6ª edição.

_______. Que é a Literatura?. Trad. de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ed. Ática,  1989.

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