Tags

, , ,

Por Larissa Hupalo

Lecionando filosofia me descobri como filósofa. Decididamente filósofa. Queria compreender o limite em que acabava o filósofo e começava o professor e vice-versa, versa e vice. Veio então o questionamento, esse limite deve realmente existir? É claro que as questões didática e pedagógica existem, porém não posso abrir mão da responsabilidade que tenho como filósofa, a de conduzir meus alunos a filosofarem e, como disse Adélia Prado,  “O comer não começa com o queijo. O comer começa na fome de comer queijo. Se não tenho fome é inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo…”.

Compartilhando dessa idéia, quis provocar a fome em meus alunos, e para introduzir a filosofia desenvolvi um texto que longe de oferecer fórmulas e conteúdos prontos sobre o ‘nascimento’ da filosofia, a apresenta na forma de reflexão.

 “Carta de um Ser Humano a você

 Meu nome é Ser humano, nome esquisito, não? Eu não sei como vim parar nesse lugar.. dizem que o nome dele é universo. E querem saber de uma coisa? O universo é um tremendo de um malandrão, está sempre me enganando, transformando as coisas em outras, a semente em árvore, o dia em noite, a criança num adulto.. até transformou a mim, um homem alto e forte, num velhinho fraco e corcunda, nem pareço o mesmo. E vou confessar a você que tudo isso me espanta muito, por vezes me pego procurando o fio que liga meu coração à tomada. Não o encontro. Meu coração bate sozinho.

Não sou habituado a este tal de universo nem a esse tal de mim mesmo. Tudo me espanta, por isso, busco explicação para tudo, aliás tenho duas filhas a mais velha, a Mitologia (Mitó) e a mais nova, nascida na Grécia, Filosofia (Filó). Sim! Eu, Ser humano, gerei a Filosofia. Pra ser sincero, não sei bem quem é a mãe da Filó (vergonhoso isso, eu sei) antes eu achava que era a Explicação das coisas.. mas fico confuso.. porque há possibilidade de ser a Indagação sobre as coisas. São duas mulheres maravilhosas essas. Mas como tenho que decidir somente por uma, decido que a Mãe da Filó é a Indagação sobre as coisas.

A minha filha, Mitologia, é muito séria, sabe. Apesar das duas terem a mesma mãe, a Indagação, a Filó é muito diferente da Mitó. A Mitó não se lembra muito da mãe dela, nunca mais se indagou sobre as coisas, só nasceu da barriga da Indagação, mas esqueceu-se dela. É teimosa, com ela não tem meio termo, não escuta ninguém, a verdade dela é absoluta e ponto. Não aceita outros pontos de vista porque se acha a última bolacha do pacote. Diz que foi um ser divino que revelou tudo para ela e ninguém pode questioná-la. A Filó é diferente, honra a mãe Indagação que tem, se pergunta sobre tudo, até mesmo sobre as loucuras da irmã, Mitologia.


Minha filha Filó, arrumou um namorado agora, um tal do Pensamento racional. Filó namora com o Pensamento.

Bom.. agora estou indo embora, e vou contar uma coisa a vocês, mas, shiiiii, pois é segredo. Vou deixar o pensamento, bem pertinho de vocês, mas precisamente EM vocês. Pensem bastante e se tornem como minha filha, filosofem.”

Anúncios