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Por Felipe Garcia de Medeiros

Tanto era bela no seu rosto a morte!

[Canto IV, Uraguay, de Basílio da Gama]

“Édipo está morto” – ressoa a voz do mensageiro da tragédia grega Édipo em Colono, de Sófocles. O que significa “estar morto”, “partido”, “enviado”, de vez, para o “outro mundo”? Brás Cubas teria realmente partido, como se pensa? A morte nos fascina, traz-nos a sensação de que a vida, essa fábula trágica que planta sementes em solo vivo, é breve e, ao que parece, descendente dos mortos. A antinomia memória / olvido parece ser a chave de todo mistério que ronda os sepulcros da morte. Anna Akhmátova, poeta russa, escreveu um poema, do livro Réquiem: um ciclo de poemas, intitulado “Veredicto”, que transcrevemos a segunda estrofe:

Hoje, tenho muito o que fazer:

devo matar a memória até o fim.

Minha alma vai ter de virar pedra.

Terei de reaprender a viver.

Sabe-se que esse poema foi escrito, esse livro integralmente, no período ditatorial do governo “socialista” de Stálin. O filho da poeta foi preso pelo regime político e, ao que se conhece, rendeu muitas lágrimas a todo um povo revoltado com a miserável situação do país (que ser tornou a URSS). À parte disso, o fizemos apenas para contextualizar o nosso leitor assíduo, os versos em questão exprimem, com rara excelência, a já citada antinomia memória / olvido – logo nos dois primeiros versos transcritos. A ausência, como é claro, abre-se como uma lacuna física – não metafísica, em termos da filosofia.

A poeta, exprimindo a dor que sentia pelo arrebatamento cruel do filho, considera essa “ausência trágica” como a própria morte do filho. Sendo, pois, a memória, uma espécie de alimento do passado, para ela, deve morrer com o que foi. Quem o lembra, de certa forma, o que não é absurdo, também está morto. O último verso do poema, sublime, como diria Longino, representa uma ressurreição do sujeito por causa da morte do outro, que se foi.

Por que a morte veste-se de assombro? Por que, pelo fato de estar vivo, nos mata a lembrança? Porque o sujeito, sujeito ao devir, é mortal e, na sua mortalidade, eterno (de acordo com a definição de tempo de Santo Agostinho), duplo nessa ilusão paradoxal que lhe confere o status de homem, de ser humano. Ser humano é, ao mesmo tempo, ser tudo e nada, ao apenas pó – do pó ao pó.

Após esse breve comentário sobre a polêmica, não midiática, aqui, até agora colocada, partimos de uma conhecida frase “shakespeariana” – do conhecidíssimo monólogo de Hamlet – para a construção (inicial e final) do próximo parágrafo, que nos fala da representação da morte em algumas literaturas e, partindo daí, para o seguinte parágrafo, que apresentará o nosso objeto de estudo, sendo desenvolvido “até o fim”.

“Ser ou não ser”. A morte, ou o não-ser, é uma das verdades mais remotas de todos os tempos. Eva teria dado a Adão a maçã, ou o fruto do conhecimento, e graças a esse infeliz ato, Deus teria restituído ao homem o status de simples mortal, humano. Gilgamesh, séculos ainda mais distantes do cristianismo, rei sumério, cantado na epopeia que carrega seu nome, tentou encontrar a imortalidade e a ressurreição do seu amigo Enkidu, que fora levado pela ira dos deuses – através da morte. Essa verdade, real e mitológica, contraditória em si mesma, como explicá-la, ou melhor, considerá-la? Céu ou inferno? Não ser ou transmigração universal das almas? “Eis a questão”.

É a partir de tais inquietações, como leitor, que vamos analisar mais uma representação da morte na literatura, neste caso, no conto “Rosalinda, A nenhuma” (do livro Cada homem é uma raça), do escritor e poeta moçambicano Mia Couto.

Nos primeiros parágrafos da narrativa, já existe um posicionamento inquietante do narrado em relação à morte. Ela, pra os que vivem, torna-se viva – ou, como diz a canção, “ninguém nasce, começa a morrer”. A nossa incapacidade de arrumar “os mortos no lugar do eterno” é que, nós, diferente deles, estamos morrendo e, sendo assim, não nos cansamos de lembrar até esquecer. O que move a vida é o pensamento e, como todos nós somos dotados do que se chama alma – a morte é uma espécie de ausência, como diria Drummond, “uma ausência assimilada, na qual não haveria falta”. “Arrumar os mortos” é, portanto, enterrá-los no pensamento como fizera a terra – beber do Letes.

Yung, nas suas memórias, relata recordações da morte, presentes no sonho. A inconsciência, de certa forma, contrária à visão racionalista, tenta reviver o passado ido. No entanto, creio que, para que essa visão inconsciente seja alimentada, tem de se fazer necessário o constante esforço da razão e do mecanismo da memória. Sem tais elementos, portanto, não existiriam tais aparições oníricas.

De acordo com os indianos, a alma não está sujeita à morte, por isso, não é nada cruel pensar na morte como um rito de passagem para outra ordem física, deixando, doravante, o morto seguir tal como a mãe deixara o filho, livre, fazer a sua vida. Pensar sabendo que o sujeito está vivo, pode nos dar certa insegurança, mas morto, não haverá, pois, o que foi feito, o foi em vida.

 Em seguida, o narrador coloca-nos em xeque. Diz que “os defuntos desconhecem a sua condição definitiva”; “invadem-nos o quotidiano”; “imiscuem-se no território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei”. Sabe-se que, por volto de 1400 a 1500, Portugal empreendeu sua empresa marítima pelo mundo e, assim, colonizou diversos territórios, dentre eles, Moçambique, terra de Mia Couto, descendente de português. O colonizador se tornou, deveras, a própria morte sobre o país africano desde então, matando não só o homem, mas todo um espírito primevo de nação, cultura e sociedade africanas. Há um constante diálogo entre a história e a literatura nesse conto, trespassado magnificamente pela metáfora da morte – na qual se tenta abandonar esse vulto do colonizador e, além do mais, abandonar a concepção de morte para religião cristã, a que foi imposta pelos portugueses. Sendo assim, vamos analisar esse conto a partir desses dois eixos: o da história e o da concepção de morte apresentada no conto.

Os verbos “invadem” e “imiscuem-se”, seguidos, respectivamente, pelas palavras “quotidiano” e “território”, nos apresentam uma dimensão histórica de intromissão, desagradável, e dominação sobre a vida, e sobre a terra de um povo. O mundo dos vivos, “onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei”, é atormentado pelos fantasmas do passado e, apesar de não tê-los mais presentes, como o espírito que anunciou o príncipe da Dinamarca a traição do seu tio, eles permanecem no inconsciente – como já disse – alimentado pela razão.

Podemos dizer que não há como fugir. Então, o narrador continua a reflexão, falando que a morte, “desrespeitada pelos seus inquilinos, perde o fascínio da ausência total”. Ela, a indesejada das gentes, “deixa de ser a mais incurável e absoluta diferença entre os seres”. A diferença entre os seres, a mais absoluta – deixa de ser, a morte, devido à antinomia esquecer / lembrar.

Os três primeiros parágrafos do conto representam, por assim dizer, uma reflexão do narrador no que diz respeito à morte. Partindo de tais premissas, não obedecendo a uma estrutura linear de narração, algo como “sem fim”, a narrativa da estória da singular Rosalinda nos é apresentada com lapsos de tempo (assim como acontece durante todo o enredo). Não vamos nos ater aos mínimos detalhes da estória, pois, como sabemos, são muitos e suficientemente riquíssimos, algo que nos exigiria maior tempo e dedicação, a pena de, se nos precipitássemos na análise, diminuir o valor do texto e submetê-lo a uma crítica medíocre.

Como bem leu, leitor, analisamos, com duvidosa satisfação, “apenas” três parágrafos do conto! Desculpe-nos a modesta explicação, com excessos de empáfia encoberta, e vamos adiante – a morte nos espera. Resolvemos, portanto, analisar o conto “Rosalinda, A nenhuma”, para não reduzi-lo a pedaços cadavéricos (desculpe-nos o trocadilho), utilizando o método cenográfico e digo, com extrema sinceridade, que não conheço um parecido – se houver, pelos menos com esse nome extravagante, desconsidere nossa ignorância. Veio-me à memória, algo parecido, no livro Confissões de um comedor de ópio, de Thomas de Quincey, no qual o autor descreve seu estado de saúde antes de consumir o ópio, utilizando-se da imagem de um pintor para criar a cena e, logo depois, analisando, como crítico, o seu presente estado. Vamos, o que está claro, utilizando cenas em movimento tal como se faz ao ver os capítulos do filme em DVD, analisar e, ou melhor, ver a “presença” da morte durante o conto. Entendemo-nos, leitor? Vamos partir.

 Câmara Cascudo, em seu livro Superstição no Brasil, no primeiro ensaio do livro, “Anúbis, ou o culto do morto”, o autor relata os processos de morte e sepultamento no antigo Egito. Devemos lembrar que, superstição vem do termo em latim superstio, que significa o que permanece, portanto, não devemos entender essa palavra, adotado no livro de Cascudo, como um termo pejorativo. O objetivo do livro é, justamente, observar o que permanece, na cultura brasileira, de tradições antigas, de outros lugares.

No trecho que o autor potiguar fala do Nome do morto, ele nos diz:

O nome pertence ao homem e participa de sua substância. É inseparável. Chamá-lo, pronunciando-o em voz perceptível, é evocá-lo, sugerir-lhe a presença imediata, quase irresistível pela magia poderosa do nome. O espírito do morto obedecerá e comparecerá, na forma corpórea do defunto (CASCUDO, 2001, p. 20).

Rosalinda, durante o conto, sofreu bastante, quando o marido estava vivo, humilhações, traições, surras. Seu esposo se chamava Jacinto (nome que nos recorda o amigo de Apolo que morreu tragicamente e que se tornou em flor). Ele era muito mulherengo, só sabia “ler as garrafas” e, “como um caju”, só aprendera o que a terra lhe ensinara. Há algo de mitológico nessa figura, que nos cerca, ao mesmo tempo em que temos repulsa por suas atitudes “imorais” e falta de caráter, de afeição e, porque não, como Rosalinda, de admiração por ele? Enfim, ele morre e deixa de “dar despesas para o coração da sua ‘amada’”. A morte, como explicitamos desde o início, é evocada, constantemente por Rosalinda que, até no momento do sepultamento do marido, pede aquele que tentava fechar as pálpebras do morto, que não o faça, que deixe aqueles olhos abertos só para ela.  

No antigo Egito, as pálpebras dos mortos eram fechadas, como meio de não permitir que o defunto volte a ver o que foi em vida e, para que abra os olhos para Deus – respeitando, assim a tradição. Mia Couto, nesse instante, além de romper com a tradição colonizadora, também rompe com o próprio costume da literatura africana, ou seja, daquela representada no antigo Egito que, por muito tempo e até hoje, foi e é o modelo de “civilização negra evoluída”. O cadáver, Jacinto, é, sem utilização de qualquer devaneio ilícito, o cadáver do modelo grego ocidental de literatura. O nome, como bem falou Cascudo, evoca toda uma tradição, neste caso, a morta tradição do modelo grego – mímesis do cânone ocidental. Ele está morto, foi ébrio, deu o exemplo de que, como uma civilização que apenas aprendeu somente com a sua terra, como padrão de controle, numa espécie de antropofagia cultural, tal como pensara Oswald, foi tão longe. Portanto, agora, ele deve abrir os olhos, ver o novo, o diferente, a Rosalinda, A nenhuma – e, ao invés de incomodar vivo, deve ir de vez para o eterno e deixar a vida, nova, seguir, os novos modelos de representação literária e cultural.

A personagem principal do conto, ao ver outra mulher, a Dorinha, depois de enterrado o marido, chorar sobre o túmulo dele, decide “translapidá-lo” para outro túmulo. E o faz, trocando a inscrição do túmulo do Jacinto por outro. Neste trecho, aparentemente ingênuo e engraçado, traz-nos à luz o pensamento de Hampate Bá, presente no seu escrito A Tradição Viva, que diz:

A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram, assim como o baobá já existe em potencial em sua semente. (HAMPATE BÁ, 1977) [1].

Como a escrita é somente uma coisa, o fato de trocar a inscrição do túmulo do marido, não é apenas uma peça que Rosalinda que pregar com a Dorinha, mas uma prova de que o saber, em si, é a luz que existe no homem, neste caso, em Rosalinda. A cultura africana, rica, não pelo registro escrito da tradição, mas pelos registros orais passados de geração a geração, supervaloriza, o que é claro, a relação pragmática e presencial do saber – do mestre e do aprendiz – numa relação de intimidade direta e, integralmente, oral. A morte, no conto, não é só a morte mística e mitológica que vim traçando neste trabalho, mas é também a morte de uma tradição, tal como observara Hampate Bá, que ainda, sobre pau e pedra, é viva. No início deste texto, quando falei “Édipo está morto” – não o fiz apenas para mostrar um recurso linguístico de estilo ou de erudição, mas o fiz com o propósito de dizer que, assim como a cultura grega “é enterrada” no conto de Mia Couto (pela representação da morte inesperada e trágica de Jacinto) e a construção do pensamento racional e da narrativa linear, a tradição viva dos antepassados africanos pode também sumir se não for desfeita a antinomia memória / olvido.

O casamento de Rosalinda com Jacinto foi “um simples noivado, coisa de inacabado juízo”. O rompimento que o conto nos traz com o modelo padrão é constante no conto. O que responde Jacinto, ao analisar a aparência (o que se vê por fora, ou seja, a visão de quem não conhece a construção do imaginário) de Rosalinda? Ele diz: – Teu nome, Rosalinda, são duas mentiras. Afinal, nem rosa, nem linda. Mas é justamente essa a visão do colonizador sobre o diferente!

A palavra é divina, Cascudo (2001), mostrou que, ao evocarmos uma palavra, evocamos todo um espírito. Desrespeitar o verbo, o próprio nome, é desconsiderar toda uma construção cultural. Hampate Bá fala da origem divina da palavra, da sua força, e origem:

Como provinham de Maa Ngala para o homem, as palavras eram divinas porque ainda não haviam entrado em contato com a materialidade. Após o contato com a corporeidade, perderam um pouco de sua divindade, mas se carregaram de sacralidade. Assim, sacralizada pela Palavra divina, por sua vez a corporeidade emitiu vibrações sagradas que estabeleceram a comunicação com Maa Ngala (HAMPATE BÁ, 1977) [2]

O papel de Mia Couto é, para os conterrâneos, o de um Griot, um mentiroso, se for visto com os olhos preconceituosos da sua própria tradição, mas, se visto com a construção poética que faz do conto, o que ele diz é uma verdade nua e crua. O conto termina com a loucura de Rosalinda, depois de “se converter em ausência”, por fim, “se promovendo a nenhuma”.

A morte, leitor, portanto, a que nos referimos durante todo este texto, aquela mitológica, construída a partir de uma visão de mundo, é representada, aqui, de acordo com os modelos de morte imaginados pelos egípcios que, suavemente, Mia Couto rompe com alguns costumes da tradição. Já, se tivermos em vista a Rosalinda, ela se vê infortunada pela presença do morto, através de um recurso que nomeamos como memória/ esquecimento, tentando esquecê-lo, agindo como se vivo Jacinto fosse, até chegar a um ponto de não ser si mesma.

O que isto significa para ti, leitor? Será que, de tão enraizadas na cultura africana esteja a do colonizador, quando aquele esquece-se completamente de quem o transformou, será que, após longos séculos de vivências, deixar de ser si mesmo? Enlouquece? Há aí uma questão a se discutir.

E, finalmente, podemos ver a morte de um modelo de representação e, talvez, uma visão ou profecia da possível morte da própria tradição africana. O título As Mortes… Foi utilizado porque, não envolvendo apenas uma visão dela no profícuo conto de Mia Couto, como vimos, seria o termo que mais se aproximaria das ideias presentes na estória.

REFERÊNCIAS

CASCUDO, Câmara. Superstição no Brasil. 4ed. São Paulo: Global, 2001.

COUTO, Mia. Cada homem é uma raça. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.


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