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Por Thiago Rodrigues

Sartre escreve seu famoso ensaio acerca da pergunta fundamental sobre o que é a literatura como resposta à uma série de críticas que lhe foram dirigidas por defender a literatura engajada. Uma das primeiras objeções que lhe é lançada é se o filósofo existencialista não estaria repetindo o erro dos pintores soviéticos? Ou seja, não estaria o autor instrumentalizando a arte?

Um pressuposto aqui é a identificação entre a literatura e as “outras artes”. Daí a pergunta: Você quer engajar as artes? No que responde o autor, “Não, nós não queremos ‘engajar também’ a pintura, a escultura e a música, pelo menos não da mesma maneira. E por que haveríamos de querer?” Como se todas as artes se equivalessem. Então, Sartre atenta para a especificidade da literatura, em especial, da prosa. Assim, se queremos compreender como se dá o engajamento da pintura segundo o filósofo francês, por exemplo, precisamos primeiramente entender o que difere a literatura das “outras artes”.

Tomemos como fio condutor a esta breve explanação a distinção feita pelo filósofo logo no inicio do referido ensaio, a saber, entre o que ele chama de “palavra opaca”, isto é, a poesia e “palavra translúcida”, ou seja, a prosa. Como foi dito acima, por “palavra opaca” o autor entende a poesia, que é o mesmo que dizer que a poesia se realiza como positividade pura. Mas o que significa afinal dizer que a poesia é positividade pura? Significa que a palavra na poesia não representa algo para além dela mesma, isto é, para o poeta, segundo Sartre, “as palavras são como coisas”. Essa concepção fica mais clara se compreendermos o que o autor entende por “palavra translúcida”. A prosa ou “palavra translucida” é quando a linguagem ganha um caráter, ao menos em certa medida, instrumental, assim, se para o poeta a palavra aparece como coisa, como positividade pura, para o prosador a palavra aparece como pura translucidez, como signo, como uma ferramenta capaz de dizer alguma coisa.

 Desse modo, o escritor (prosador) lida com significados e, portanto, a palavra é sempre um meio para se alcançar algo para além dela mesma. O filósofo chega a afirmar que “a prosa é utilitária por essência: [assim] eu definiria de bom grado o prosador como um homem que se serve das palavras”. Ou seja, se a finalidade da linguagem é comunicar algo para alguém, é necessário também engajá-la. Por quê? Ora, se a prosa sempre comunica algo, e, se o homem está condenado a ser livre, como defende o filósofo, quando se escreve, se escolhe e, ao escolher-se, o homem escolhe por ele e por todos, o homem elege valores e se engaja em algo, mesmo que ele faça isso de forma alienada. Conseqüentemente a prosa carrega sempre um viés ético. No entanto, embora a maior parte dos comentadores defenda que Sartre realiza uma instrumentalização da obra de arte , nossa leitura se adéqua com a concepção defendida por Franklin Leopoldo e Silva em Ética e Literatura em Sartre: Ensaios Introdutórios, na qual, segundo o comentador, há uma relação de interdependência entre o âmbito teórico e o âmbito estético da prosa, e que, portanto, Sartre não negligencia a prosa enquanto obra de arte. O que se evidencia em passagens como esta: “Ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo. E o estilo decerto, é o que determina o valor da prosa”. Ou então: Lembro, com efeito, que na “literatura engajada”, o engajamento não pode, em nenhum caso, fazer esquecer a literatura e que nossa preocupação deve ser a de servir à literatura infundindo-lhe sangue novo, assim como servir à coletividade tentando lhe oferecer a literatura que lhe convém. Mas isso ainda não responde a pergunta acerca do engajamento das “outra artes”. É que para Sartre, a pintura se assemelha à poesia na medida em que também a pintura, ou a música, não lidam com signos.

Isso soa estranho fora do registro em que o filósofo desenvolve seu pensamento, na realidade, dizer que a pintura não trabalha com signos é o mesmo que dizer que ela é positividade pura, e que portanto, não remete a nada, não é um meio para se alcançar alguma outra coisa. Ou seja, como exemplifica o autor, quando Tintoretto pinta aquele rasgo amarelo no céu sobre o Gólgota, ele não busca significar ou provocar a angústia, como se o amarelo representasse angústia, mas sim, que “ele é angústia, e céu amarelo ao mesmo tempo”. É angústia feita coisa. Essa concepção fica mais clara no caso da música, qual é o significado de uma melodia? O que ela diz? O significado de uma melodia “não é nada mais que a própria melodia, ao contrário das idéias[que é o caso da prosa] que podem ser traduzidas adequadamente de diversas maneiras”. Análoga à música, qual é o significado do angustiante amarelo do céu de Tintoretto? Como traduzir adequadamente essa angústia? Ou seja, o amarelo é a própria angústia feita coisa, assim como uma melodia triste é a própria tristeza materializada. O que o filósofo busca defender, não é que as “outras artes” não possam ser engajadas, é apenas que elas devem ser engajadas de um modo diferente. Mas nossa questão persiste: como engajar a pintura?

Assim, se essa breve explanação não diz o que é a pintura engajada – o que requereria um estudo de mais fôlego –, ao menos podemos vislumbrar aquilo que ela não é. Sendo assim, nem de longe poderíamos aproximá-la às concepções do movimento regionalista brasileiro ou do realismo socialista russo, por exemplo. Portanto, engajar-se não é se filiar a nenhum tipo de cartilha ou preceito prévio, nem tampouco é submeter-se.

REFERÊNCIAS

BORNHEIM, Gerd Alberto. Sartre: metafísica e existencialismo. São Paulo: Perspectiva, 2005. 3. Ed.

LEOPOLDO E SILVA, Franklin. Ética e Literatura em Sartre: Ensaios Introdutórios. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

_______. Literatura e experiência histórica em Sartre: o engajamento. In: Filosofia e Crítica: Festschrift dos 50 anos do curso de filosofia da Unijuí.

PERDIGÃO, Paulo. Existência e Liberdade: Introdução à filosofia de Sartre. Porto Alegre: L&P.M., 1995.

SARTRE, Jean-Paul. Que é a Literatura?. Trad. de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ed. Ática, 1989.

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