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Por Rodrigo Vides

O Brasil passa por um período de otimismo depois de seguidas quedas nas taxas de desemprego no país, apuradas pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O otimismo do brasileiro não é à toa, em estudo divulgado pela PME em fevereiro de 2011, constatou-se que o desemprego entre a população com nível superior atingiu seu menor nível em 8 anos: 3,1%, o que corresponde, tecnicamente, a metade de média nacional, calculada em 6,7%. O que nos chama a atenção, no entanto, é a ressalva do prof. João Sabóia, da UFRJ, apontando para o fato de que apesar da quantidade de empregos, principalmente entre os graduados, qualitativamente não atingimos a mesma excelência. Não é raro vermos profissionais com nível superior atuando fora de sua área e recebendo entre 1 e 2 salários mínimos; isto nos leva, inicialmente, a concluir que o mercado continua operando sob uma lógica cruel com os menos favorecidos, e que os trabalhadores de nível superior estão dispondo seus conhecimentos em funções que não condizem com sua formação, já que a demanda permite ao empregador selecionar “os melhores” disponíveis no mercado. Desta forma, convido-os a discutir sobre o que podemos esperar do mercado de trabalho no Brasil, seja com formação superior ou não, o indivíduo busca realizar-se, porém, o que se encontra hoje são meros empregos que nos permitem uma remuneração mínima para darmos conta de nossas necessidades básicas. Será isso o suficiente? Ou será que está lógica cruel do mercado corrompeu o significado do conceito “trabalho”? Para compreender o significado do conceito “trabalho”, nada melhor do que refletirmos a respeito do que se pensa sobre ele. Certamente, se indagarmos um indivíduo qualquer, sua primeira resposta, em nível de senso comum, será de que trabalho é o esforço físico ou intelectual que reverte em algum benefício para si ou para outros; ou seja, é empreender uma tarefa em troca de um reconhecimento financeiro ou moral. Tal conceituação não está de todo errada, de certa forma o trabalho hoje se resume a esta simples equação, contudo, seria muito grosseiro de nossa parte, e pouco esclarecedor aos demais, se assim o tratássemos. Devemos, pois, retornar ao significado moderno de trabalho, ora desenvolvido por Karl Marx; “[…] a essência do ser humano está no trabalho. O que os homens produzem é o que eles são. O homem é o que ele faz. E a natureza dos indivíduos depende, portanto, das condições materiais que determinam sua atividade produtiva”. (ALBORNOZ, 1986, 69) Segundo Albornoz (ibid.), em Marx, é o trabalho que faz a mediação entre o homem e a natureza, é através dele que o homem transforma a si mesmo. Grosso modo, esta seria a conceituação marxiana de trabalho que mais se aproxima das modernas teorizações da antropologia. Sendo assim, é por meio do trabalho que o homem se faz exclusivamente humano. Diferentemente do animal, o homem projeta na consciência seu trabalho, antes de construí-lo na prática; “o homem já contém em si o produto acabado” (id., ibid., 70). Portanto, concordamos com Lessa e Tonet (2008), no qual, para os homens existirem devem transformar constantemente a natureza. Esta capacidade de idear e objetivar inerente ao homem, é que, antropologicamente, permite a sua evolução, pois, o resultado da objetivação transforma a realidade e o próprio indivíduo, ao permitir a apropriação de novas habilidades e experiências (LESSA, TONET, 2008). Podemos afirmar, diferentemente do que se imagina a respeito, que não é o trabalho em si a fonte de toda a riqueza de uma sociedade; em Crítica ao programa de Gotha (2004a), Marx diz que a riqueza real de uma sociedade provém dos valores-de-uso das mercadorias produzidas, e por quê? Conforme o próprio Marx (2010), valores-de-uso de uma mercadoria devem ser considerados como uma “[…] atividade produtiva subordinada a um fim, isto é, um trabalho útil particular” (MARX, 2010, 64), ou seja, a riqueza não é produzida pelo trabalho, se assim o fosse, estaríamos assumindo uma posição metafísica frente ao mesmo, mas, pelo contrário, são as necessidades reais do homem que produzem a riqueza; é o trabalho útil que permite a interação do homem com a natureza e, conseqüentemente, sua humanização; “O trabalho, como criador de valores-de-uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem – quaisquer que sejam as formas de sociedade –, é necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de manter a vida humana” (id, ibid. 65) Entretanto, o imaginário popular, pressupõe que o trabalho por si só, e de forma sobrenatural, é capaz de criar riquezas, sendo o homem meramente uma peça nesta engrenagem. Ora, se o trabalho útil se resume às necessidades do homem e sua efetiva interação com a natureza, como podemos pressupor que ele tenha esse poder? Simplesmente porque uma classe social detém o controle sobre a natureza, enquanto os demais são possuidores somente de sua força de trabalho. Logo, imaginam os homens, que o trabalho tenha esse poder criador sobrenatural, evidentemente, por não serem capazes de idear e objetivar o produto final de seu labor, “esta é a maior alienação a que está submetido o trabalho moderno, pois assim ele se desumaniza” (ALBORNOZ, 1986, 71). Desta maneira, se o trabalho moderno é a relação entre proprietários do meio de produção (natureza, fábricas, etc.) e possuidores de força de trabalho visando só e somente só à valorização do capital, nos encontramos diante dos princípios de trabalho produtivo e improdutivo, ou seja, do trabalho gerador de mais-valia e daquele que não gera mais-valia, de forma que, conclui Marx, “é produtivo o trabalhador que executa trabalho produtivo; e é produtivo o trabalho que gera diretamente mais-valia, isto é, que valoriza o capital” (MARX, 2004b, 157). A competência do trabalho, na estreiteza do pensamento burguês – a qual todos herdamos – sugere que o trabalho multiplique o capital; competente é o trabalhador que se anula, que não pensa e não cria por si e para a sua satisfação. Competente é aquele que se doa ao capital, que o multiplica, mas dele tira uma ínfima parte. Competente é o homem ou a mulher que se entrega de corpo e alma à empresa, que dedica/ gerencia sua vida a ela. Competente é aquele que concretizou o processo de individualização hedonista, iniciado com a modernidade, que cultua o desenvolvimento pessoal e o bem-estar (LIPOVETSKY, 2004); enfim, em termos de competência do trabalho, é o jovem empreendedor nosso melhor exemplo, aquele sujeito de visão, corajoso, positivo, firme e decisivo, capaz de organizar e dirigir pessoas. Voltamos ao início da discussão, contudo, agora, compreendemos a alienação capitalista que encerra esta imagem do trabalho; podemos ainda afirmar, que num mundo globalizado culturalmente pelo capitalismo, isto não mais se refira simplesmente a um conceito, mas já assuma a forma de um arquétipo (DURAN, 1997), diversas imagens se fundem no escopo do trabalho e formam estruturas que podem ser entendidas por todos que atuam no seio sócio-cultural capitalista. E o que é emprego? Começamos afirmando que a melhor forma de definir trabalho era situando estes dois termos, aparentemente semelhantes, em seus devidos lugares. Já sabemos, an passant, o significado de trabalho, agora basta-nos entender como o emprego se insere no contexto hipermoderno de que fala Gilles Lipovetsky (2004). O termo emprego não possui o caráter historicizado de realização, de criação emancipadora, tal qual possui o trabalho em seu sentido filosófico e antropológico, refere-se tão somente a uma forma de acesso da população “a uma parte da renda, e conseqüentemente, ao consumo” (ALBORNOZ, 1986, 81). Estar empregado significa poder consumir, daí o interesse das grandes empresas no profissional empreendedor, pró-ativo, que tome iniciativas, já que acompanhamos um completo desinteresse dos trabalhadores por seus empregos, entendidos meramente como forma de sustento. Isto é o que há de paradoxal na sociedade hipermoderna: ao mesmo tempo em que a sociedade, motivada pela lógica da sedução, permite que novos agentes participem do mercado consumidor, promovido pela indústria, alimentando uma enorme apatia sócio-política, conforme nos revela Herbert Marcuse, carece, ao mesmo tempo, de profissionais que sejam o oposto disto, mas que, entretanto, mantenham-se no seu devido lugar; satisfeitos com suas pseudo-realizações, entorpecidos pelo consumo do supérfluo e conformados com suas liberdades decepcionantes (ALBORNOZ, 1986).

Referências Bibliográficas

ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. São Paulo: Brasiliense, 1986. 102 p.

BURKE, Peter. História e teoria social. São Paulo: Ed. Unesp, 2002. 275 p.

LESSA, Sergio; TONET, Ivo. Introdução à filosofia de Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2008. 128 p.

LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Ed. Barcarolla, 2004. 129 p.

MARX, Karl. Critica ao programa de Gotha. In: ANTUNES, Ricardo. A dialética do trabalho. São Paulo: Expressão Popular, 2004 (a). p. 125-154.

MARX, Karl. Trabalho produtivo e trabalho improdutivo. In: ANTUNES, Ricardo. A dialética do trabalho. São Paulo: Expressão Popular, 2004 (b). p. 155-172.

 MARX, Karl. O capital: critica da economia política: Livro I. 27. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. 571 p.

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