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Por Emerson Rossi

O teatro pode reconstruir a vida, como pode as ciências humanas também reconstrui-la, cada um com sua abordagem própria que muitas vezes alinha sucessivamente fatos simultâneos e exalta traços do ponto de vista de que compreende o objeto, mas que no fim encontra as mesmas vicissitudes. Hoje vamos reconstruir uma peça teatral “Luiz Antônio – Gabriela“ que representando a vida de uma só travesti evidencia dramas de um grupo social explicitamente marginalizado ainda hoje.

O espetáculo é um pedido de desculpas do diretor Nelson Baskerville ao seu falecido irmão Luiz Antônio que durante sua vida foi uma travesti (Gabriela) motivo de vergonha, rejeitada pela família desde o final da infância, foi surrada em casa e pela polícia, expulsa de casa, morou com outras companheiras iguais, colocou silicone, usou drogas, morou no exterior, pode ter feito turismo sexual, mas decididamente trabalhou a noite na vida artística, infectou-se com o HIV e acabou morrendo em 2006.

A peça pode ser considerada uma tragicomédia musical que faz um teatro muito mais dinâmico que o comum, no sentindo de que se deslocam pontos de vista (narradores), tecnologias, cenários, focos de luz, funções, como atores que interpretam e são “assistentes de palco” e a relação com o tempo histórico e a memória.

A peça é expressão de um teatro contemporâneo que traz outras linguagens, conta com seu público, se reconhece como espetáculo e reserva espaço (escrito) para o público se manifestar. Mesmo realizada num clima intimista tanto pela história, como pelo espaço onde está em cartaz à peça têm dramas sociais de um grupo “Travestis e trans” (“Ts”) que conquista visibilidade positiva lentamente, tais questões desde a vergonha a morte infecciosa que preencheram a peça, são um caminho comum ainda hoje, todavia não é a trajetória necessária, é sim a trajetória convencionada por uma ética de convicção nomeada Heteronormatividade que tem como reprodutores do desconhecimento até a justificação em nome da ciência psiquiátrica e do sagrado. Em contraposição, uma ética de responsabilidade com os direitos humanos “constituintes de nossa sociedade” e a dignidade, já faz a diferença na vida de algumas Gabrielas e diante do desafio de manter a condição humana mesmo golpeada em seu íntimo constantemente.

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