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Por José Renato Polli

Conversando com um amigo, ele me lembrou de duas falas de dois dos maiores historiadores contemporâneos sobre a quem cabe fazer história. De Eric Hobsbawn ouvimos: “Quem quer que investigue o passado com critérios científicos reconhecidos é um historiador, e isso é quase tudo com que concordarão os membros da minha profissão.” Jean Chesneaux deixa bem claro: “A história é, com certeza, algo por demais importante para ficar somente por conta dos historiadores”. 

No entanto, no planalto central, agora, burocratizam a profissão de historiador, com a finalidade de “regulamentá-la”. Os “companheiros” da esquerda encabeçam essa empreitada. Max Weber, que não era nenhum socialista, revira-se no túmulo. O discurso de algumas entidades (termo um tanto complicado, porque soa algo do além, desencarnado), centra-se na ideia da proteção dos “direitos” dos historiadores e da “reserva de mercado”. É como se, possuindo um diploma e “sendo autorizado socialmente” o historiador estivesse imune a “perder os seus direitos profissionais” e de cidadão. 

Fico imaginando o que significaria processar Karl Marx por exercício ilegal da profissão de historiador. Justo ele que ensinou tanto a esses profissionais? Ou quem sabe, queiramos enquadrar Paulo Freire, por nunca ter se formado em Pedagogia. Mais ainda, colocar Saramago no banco dos réus de uma instituição de literatura por nunca ter feito um curso superior. Convenhamos, parece estranho. Dizem que é para garantir a participação em concursos. Mas não basta ter um diploma na área?

O texto da “lei” informa que não se impedirá o exercício livre da função de historiador. Alguns colegas se safaram. O corporativismo não pega todo mundo. É bem verdade que as instituições públicas precisam de profissionais com formação teórica e metodológica em história para ajudar na elaboração de políticas públicas de preservação do patrimônio, mas querer restringir o direito a “fazer história” aos historiadores, já é demais. Os jornalistas também já sofreram com isso, boa parte dos bacharéis em direito ainda sofre. Os músicos, então, nem precisamos comentar. Em que essa medida ajuda os historiadores? Já não são regulamentadas outras profissões? O que trouxeram de novidade para pedagogos, geógrafos, sociólogos, advogados, etc.?

Fica a impressão, ao menos do lado de cá do articulista, que essa regulamentação é uma pura perda de tempo e de dinheiro público. A quem interessa?

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