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Por Maria Pionório

Ao publicar em 1762 sua obra máxima no campo educacional Emílio ou Da educação, Jean–Jacques Rousseau aborda pela primeira vez o conceito de infância.

Todavia, esta não foi sua única contribuição para a sociedade, o cerne de sua obra contém críticas inerentes a sociedade dos meados do século XVIII e que ainda hoje podem contribuir para analisarmos as contradições existentes na sociedade do século XXI. O filósofo defende em sua obra o conceito de democracia em oposição à sociedade capitalista de sua época.

Segundo Rousseau a sociedade tende a alienar o sujeito na medida em que o educa objetivando apenas encaixá-lo numa sociedade em que, o que predomina é somente o mundo das aparências, ou seja, há uma espécie de jogo do ter em oposição ao ser.

Em virtude disso, é que o mesmo afirma que o homem nasce bom, porém a sociedade o corrompe. Em outras palavras, Rousseau enfatizava arduamente a distinção entre a máscara e a verdadeira face do homem.

Pode-se afirmar que Emílio foi um “clamor” em objeção ao modo de sistematização das aparências do mundo civilizado. Para o autor, a sociedade falseia e coíbe a possibilidade original do homem ser bom, haja vista que nesta sociedade predomina a imagem de um homem artificial e de paixões artificiais.

Como solução, Rousseau afirma que o homem deve valorizar suas aptidões naturais visando aperfeiçoá-las. Para tanto, faz-se necessário ser educado longe da civilização (isolado), para que não seja corrompido e posteriormente possa atuar na sociedade como um cidadão consciente, visto que para Rousseau é a consciência de cada homem que “aconselha” um bom uso das leis ditadas pela sociedade, caso contrário, de nada servirá aos homens ditá-las.

Conforme Rousseau “(…) se lhe mostrarmos o mundo antes que ele conheça os homens não é formá-lo, é corrompê-lo; não é instruí-lo, é enganá-lo” (Rousseau, 2004, p. 404). Logo, se a sociedade é moralmente corrupta o ideal é que o sujeito seja educado isoladamente de forma que não tenha contato com a imoralidade e possa alcançar a virtude gradualmente até a idade da razão. Em outros termos, mesmo que o sujeito possua poucos conhecimentos, estes conhecimentos serão de fato seus e não “inculcados” pela sociedade, daí a ideia do ter em oposição ao ser.

Para Rousseau, o sujeito deve conhecer-se primeiro, para depois entrar em contato com o mundo. É a ideia de educar o homem para que assuma o que verdadeiramente é, em outros termos, é preciso educá-lo para que haja por si mesmo e não por influência do que lhe é imposto socialmente. “Ensinai-lhe primeiro o que são as coisas em si mesmas e ensinareis depois o que são a nossos olhos; é assim que ele será capaz de comparar a opinião à verdade…” (Rousseau, 2004,p. 248).

Diante desta concepção, podemos perceber algo interessante: na medida em que o sujeito toma consciência de si, o mesmo começa a experimentar várias faces que variam de acordo com a situação que está vivenciando ou com o contexto social em que está inserido. Para Rousseau é preciso que o despertar desta consciência não seja transformado de amor de si para amor próprio, pois isto certamente acarretaria decepções, frustrações e maldades às ações do individuo.

Assim, a partir do momento em que o homem toma consciência de si e posteriormente dos outros, o mesmo tende a se sentir mais seguro, na medida em que percebe que tem a capacidade de pensar por si e formar seus próprios juízos e valores, e é por meio desta educação, que Rousseau acredita alcançar uma sociedade justa e democrática.

Posto isto, é preciso enfatizar que embora Rousseau tenha contribuído para o surgimento da categoria de infância, sua metodologia de isolamento deve ser vista com certa ressalva, já que atualmente sabemos que a interação com o meio e com o outro favorece beneficamente o desenvolvimento do ser humano, teóricos como Vygotsky e tantos outros comprovaram cientificamente este fato. Todavia, há algo que se pode aproveitar como guia de reflexão sobre os dias atuais: a ideia de haver no cerne da sociedade um “jogo de máscaras” que influencia inevitavelmente as ações do sujeito. Ou seja, o homem vive numa sociedade que o condiciona e que determina suas manifestações, o meio cultural lhe é imposto de forma indubitável, logo suas ações são realizadas com o intuito de se ajustar e de se “encaixar” em tal sociedade.

Portanto, cumpre perguntar: será que está concepção está tão distante dos dias atuais? Será que ainda hoje as pessoas não participam desse tal jogo de máscaras na medida em que procuram serem aceitas em determinado ambiente e/ou lugar?

Ora, talvez não haja verdades absolutas para tais indagações, porém sabemos que vivemos numa crise de valores. Não existe mais os grandes discursos que se faziam presentes nos séculos passados, tais como, o discurso religioso e o discurso pautado na cientificidade e na razão. Contudo, podemos observar que inevitavelmente, o homem continua sendo um ser multifacetário, o mesmo tende a se “mascarar” em conformidade com os ideais que lhe são convenientes. São as faces de um todo, isto é, de um mesmo indivíduo que contribui para a construção de sua consciência. Desta forma, o mesmo ajusta-se e reajusta-se incansavelmente, em virtude das inúmeras situações que vivencia e, sobretudo pelo contexto social em que está inserido.

Referência Bibliográfica

ROUSSEAU, Jean- Jacques. Emílio ou Da Educação, Martins Fontes, São Paulo, 2004.

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