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Por Felipe Garcia de Medeiros

Para ilustrar com maior clareza o elemento humano presente em alguns trechos da obra o Uraguay de Basílio da Gama, e sua constituição dialética, é preciso mostrar algumas características básicas do Arcadismo, pois, como sabemos, Basílio fazia parte desta escola literária e tinha como pseudônimo o nome Termindo Sipílio.

O arcadismo buscava o natural e o simples, adotando esquemas rítmicos mais leves, e claros. “Esse momento poético nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de formas bem definidas, julgadas dignas de imitação” (BOSI, 1980: 61-75). Um dos pressupostos teóricos principais para a definição da estética árcade era a procura do verossímil, da imitação da natureza e dos clássicos por meio da mimese, teoria proposta por Aristóteles, em sua Arte Poética. Do ponto de vista ideológico, que se impõe no meio do século XVIII, o arcadismo traduziu, inicialmente, a crítica da burguesia culta aos abusos da nobreza e do clero.

O momento histórico é o do “século das luzes”, “e há um ponto nodal para compreender o artifício da vida rústica na poesia árcade: o mito do homem natural cuja forma extrema é a figura do bom selvagem” (BOSI, 1980: 61-75). Podem-se esboçar, agora, algumas características desse movimento literário: a recorrência ao simples e natural, a imitação da natureza e dos clássicos, a critica à cidade, à nobreza, ao clero e, finalmente, a valorização do homem natural, do bom selvagem.

Selecionei alguns trechos do poema “épico” de Basílio da Gama para ilustrar claramente, como já disse, os caracteres humanos dos personagens e das suas ações. O aspecto humano tratado na obra o Uraguay é um dos pontos chaves para se compreender a representação de toda a ação do poema épico. Nele é possível perceber os caracteres do nativo (índio), do português e do jesuíta, personagens integrantes da obra. A ambição humana, quando posta em confronto, revela a face mais negra da civilização, representada no Uraguay: a guerra.

A guerra, mostrada no poema, é a motivação maior para todas as ações e atitudes presentes na história. Basílio representou a invasão dos portugueses e espanhóis contra a política educadora dos jesuítas da missão dos Setes Povos no Brasil, precisamente, em uma tribo do sul do país. O sentimento de humanidade do autor do Uraguay é coerente com as características do arcadismo, ou seja, apesar de exaltar o governo de Pombal e lançar a culpa de todo o infortúnio da história para os jesuítas, ele se mostra indignado com a única solução de todo o problema, que é a guerra:

Vinha logo de guardas rodeado,

Fonte de crimes, militar tesouro,

Por quem deixa no rego o curvo arado

O Lavrador, que não conhece a glória;

E vendendo a vil preço o sangue, e a vida,

Move, e nem sabe porque move a guerra.

O Lavrador deixa-se corromper pelos artifícios “inexplicáveis” da guerra, movendo, assim, a própria, vendendo a um preço inútil e vão o sangue e a vida, sem saber ao menos o que é a guerra, suas motivações, os fatores que levam a ela e, principalmente, as suas conseqüências. O egoísmo do ser humano parece estar acima da humanidade, e até da vida, como fora dito por Maquiavel: os fins justificam os meios. De que importa a glória para um pobre lavrador? Um pouco de sustento e vida calma e nada mais justifica o seu sossego. Assim, Basílio nos mostra a invasão dos colonizadores e a facilidade e entrega do Lavrador, figura sem prestígio, sem voz, vendida e, ao mesmo tempo, expõe sua indignação com a profunda inconsciência de um homem que move a guerra sem saber o porquê e também com a passividade daquele que é invadido por outro para lhe tirar os bens naturais da terra, deixando claro também o seu sentimento de inconformismo diante da situação bélica e opressora.

O “grande herói” da história é Gomes Freire de Andrade. Ele é “sábio” diante dos seus inimigos e se surpreende com o preparo e com a organização do povo indígena. Vindo do “Velho Mundo”, ele não sabia que uns “pobres” nativos pudessem ter uma cultura definida e um modo de viver tão sofisticado quanto eles tinha na Europa.

Quem podia esperar que uns índios rudes,

Sem disciplina, sem valor, sem armas,

Se atravessassem no caminho aos nossos,

E que lhes disputassem o terreno!

A visão de índio que tem Andrade é totalmente equivocada e européia: rudes, sem disciplina, sem valor, sem armas. Os índios, para os europeus, eram um elemento exclusivamente exótico e interessante como se só fizessem parte da Natureza, sendo meros acessórios, enfeites. Sem baixar a cabeça, a coragem e ambição de Andrade parecem estar acima das leis humanas e naturais:

Irado, não o nego, lhe respondo:

Que para trás não sei mover um passo.

É válido lembrar o que fez Basílio: “os seus índios não são tomados ao vivo; são afetados e adornados epicamente. Os seus portugueses também” (ROMERO, 1953:453-477). Qualquer característica humana que for analisada neste trabalho não terá necessariamente um correspondente fiel à história, pois o princípio de que se vale o arcadismo é o da verossimilhança, ou seja, a representação do real e não este fielmente como se configurava naquele contexto histórico.

Enganaram-se os invasores em relação aos índios, pois, além da educação dos jesuítas, os índios apresentavam uma bravura de espírito que fazia com que seus inimigos reconhecessem tal sentimento e fosse mais prudentes e cautelosos nas suas ações e nos seus diálogos:

Quando Menezes, que vizinho estava,

Lhe diz: Nestes desertos encontramos

Mais do que se esperava, e me parece

Que só por força de armas poderemos

Inteiramente sujeitar os povos.

Menezes não era nada diplomático, como se vê acima, logo, queria resolver toda aquela situação por meio da força bruta que, aliás, é um tanto quanto contraditória a proposta dele do ponto de vista de eles se considerarem “homens civilizados”. Gomes de Freire de Andrade, embora impetuoso e ávido, decide tomar de vez cautela e responde com segurança ao Menezes:

Torna-lhe o General: tentem-se os meios

De brandura, e de amor: se isto não basta,

Farei o meu pesar o último esforço.

Mandou, dizendo assim, que os Índios todos,

Que tinha prisioneiros no seu campo,

Fossem vestidos das formosas cores,

Que a inculta gente simples tanto adora.

Abraçou-os a todos, como filhos,

E deu a todos liberdade.

Diferente da primeira imagem de Andrade, agora ele se mostra “bonzinho”, dizendo que os meios que deverão ser usados serão os de “brandura”, e de “amor” até as últimas conseqüências. Ou seja, ele se opõe, de forma clara, à brutalidade exposta primeiramente por Menezes, mostrando, dessa maneira, que ele é realmente civilizado. Em seguida, ele manda os seus soltarem alguns índios que estavam presos para que eles voltassem para suas famílias, abraçando a todos como “filhos”, dando a todos a liberdade. O heroi é flexível, conhece bem o coração alheio, e usa de suas artimanhas impositivas para tratar a todos os submissos a ele como um “filho”, e o heroi, sendo a voz do colonizador, como o possuidor único da ordem, e da paz, e da liberdade geral. Andrade é um ser humano soberbo, hipócrita, um dos personagens pelo qual Basílio da Gama deixa clara a ambigüidade do seu discurso no decorrer da narrativa: exalta o português (expondo os defeitos e as qualidades), mas, reconhecendo o valor do índio (também mostrando os defeitos e as qualidades), acaba denegrindo o jesuíta.

O fim ostensivo de todo o poema era atacar os jesuítas; o seu resultado inconsciente, descoberto agora pela crítica, foi dar plena entrada ao indígena na poesia, fazê-lo lutar aí face a face com o Europeu, mostrá-lo em seus costumes, suas tradições, seu gênio; “apresentá-lo como gente espoliado pela Perfídia de Europa. Os índios são vencidos pelos portugueses como uma espécie de preito à verdade histórica, mas ocupam a melhor parte do poema e são descritos com particular atenção” (ROMERO, 1953:453-477). É louvável a tentativa de Basílio de tentar colocar um disfarce épico, temor utilizado por Antonio Candido, para encobrir sua real atenção ao índio no Brasil, fato que será decisivo para as próximas gerações de escritores da literatura brasileira. Mesmo flexível, como o Andrade, Basílio escapa das garras da crítica do governo ao seu poema, enfim, os portugueses realmente vencem.

Aparecem em cena os dois grandes e ilustres índios da narrativa: Cepé e Cacambo. Estavam sem arcos, sem aljavas, com as testas com várias e altas penas coroadas, assim como pinta Basílio:

Por mandado dos seus, dous dos mais nobres,

Sem arcos, sem aljavas; mas as testas

De várias, e altas penas coroadas,

E cercadas de penas as cinturas,

E os pés, e os braços, e o pescoço.

Os dois índios em questão era a representação do ideal do Bom Selvagem postulado por Rousseau. Aquele que não fora corrompido pelo meio, vivendo de meios arcaicos e usando a Natureza como fonte primária da vida, bem ilustrado no poema:

Pobres choupanas, e algodões tecidos,

E o arco, e as setas, e as vistosas penas

São as nossas fantásticas riquezas.

O diálogo iniciado entre o índio e o português se configura como uma das partes mais emocionantes do poema, exceto aquela em que morre Lindoya. O conceito de liberdade humana e do bom selvagem em questionamento pelo general, dizendo:

Fez-vos livres o Céu; mas se o ser livres

Era viver errantes, e dispersos,

Sem companheiro, sem amigos, sempre

Com as armas na mão em dura guerra,

Ter por justiça a força, e pelos bosques

Viver do acaso, eu julgo que inda fora

Melhor a escravidão, que a liberdade.

Para Andrade, os índios viviam sem “lei” (de fato não havia esta palavra em seu vocabulário), mas eles tinham, sim, uma organização, uma cultura e um modo de viver diferente da, do europeu. Se eles estavam com armas “na mão em dura guerra”, era porque precisavam lutar pelo que pertenciam a eles. O “viver do acaso” é apenas um fonte diferente de obter o sustento próprio dos índios, ou seja, a matéria-prima para qualquer necessidade do índio é essencialmente a Natureza e nada mais. Outra característica do personagem colonizador é o seu profundo egoísmo e sua ambição: ora, se compararmos um modo de viver no qual estamos sócio-cultural e historicamente situados, outro diferente só poderá nos fazer mal, incomodar e nos parecer estranho. Os jesuítas tinham um fator em seu favor: aceitavam o modo viver dos nativos, se mostravam mais compreensivos e utilizavam do bom senso, apesar de, no território indígena, gozarem de uma certa superioridade e prestígio, como fala o general:

[…] Esse absoluto

Império ilimitado, que exercitam

Em vós os Padres, como vós, vassalos,

É império tirânico, que usurpam.

Nem são Senhores, nem vós sois Escravos.

A missão dos jesuítas é semelhante à de um governo absolutista, inquisidor, sendo, os padres, o Império e, os índios, vassalos. Ou seja, os padres nem são Senhores, nem os Índios são escravos, uma situação no qual a imprecisão dos termos apresenta a incapacidade de rotular a tirania de um e a submissão do outro, deixando a situação numa constante que não tende para a mudança da mesma, a não ser pela interferência de outros, assim como vê o general:

Sois livres, como eu sou; e sereis livres,

Não sendo aqui, em outra qualquer parte.

Mas deveis entregar-nos estas terras.

Ao bem público cede o bem privado.

Cacambo responde belamente à retórica do europeu, mostrando-se como um verdadeiro bom selvagem:

Gentes de Europa, nunca vos trouxera,

O mar, e o vento a nós. Ah! Não debalde

Estendeu entre nós a natureza

Todo esse plano espaço imenso de águas.

Cepé continua o discurso libertário de Cacambo:

Cepé, que entra no meio, e diz: Cacambo

Fez mais do que devia; e todos sabem

Que estas terras, que pisas, o Céu livres

Deu aos nossos Avós; nós também livres

As recebemos dos antepassados.

Livres as hão de herdar os nossos filhos.

A liberdade expressa pelos índios é algo natural, fonte provinda das maravilhas da Natureza. Para o homem nativo, a escolha de vida é relativamente livre assim como o conceito do bom selvagem, sem chefes nem reinos, apenas o povo e a vida, e as dádivas da Mãe. O sentimento puro e humano de ser livre por natureza é vivo e real dentro de uma gente que, naturalmente, traz em si o senso de união, comunidade em comum e respeito um ao outro e à sabedoria do mais sábio, experiente, humano. Claro que há guerras entre os índios, como há também aqueles sentimentos de união e respeito na comunidade européia daquela época, mas a diferença consiste exatamente nos fins: o índio vive e se conforma com a vida que tem, protegendo apenas a sua área; já o europeu é a face mais sangrenta da ambição e do desejo inexorável de ter ainda mais e invadindo o bem alheio para saciar a sua fome insaciável. A morte de Cepé ilustra essa voracidade:

[…] Quis três vezes

Levantar-se do chão: caiu três vezes,

E os olhos já nadando em fria morte

Lhe cobriu sombra escura, e ferro sono.

O general Andrade é um personagem que, no decorrer da narrativa e das ações que toma partido, apresenta um novo lado do seu caráter. Duro, resistente e, apesar de ser guerreiro, após devastar vasta área do território invadido, o general marcha descontente e triste, revelando dentro de si o sentimento humano mais recorrente em situações de extremas desgraças: a compaixão. Embora sinta pena, o seu peito compadecido não revela sentimento algum diante daqueles corpos sem vida, “vitimas da ambição de injusto império”:

Viu desfazer-se a um tempo a Vila Errante

Ao som das caixas. Descontente, e triste

Marchava o General: não sofre o peito

Compadecido, e generoso a vista

Daqueles frios, e sangrados corpos,

Vitimas da ambição de injusto império.

A rigidez do seu sentimento é controlada por ele ser o heroi do poema. Existem momentos em que Andrade representa alguém que, diferente do Lavrador mostrado aqui, é motivado pela guerra, sabendo suas conseqüências e motivações, mas que, mesmo assim, não a evita, pois acima dele está a “ambição de injusto império”, a submissão natural do fraco pelo desejo do mais forte, do mais superior socialmente. O sentimento do general se mostra vivo quando se percebe que o que ele sente é contido nas coisas vivas (bem mostrado naquele trecho em que o general liberta alguns índios). Ou melhor, ele não está preso ao que se foi ou ao que está morto, mas sim ao que é vivo e ao que ainda é passível de mudança. Não se pode dizer que o sentimento de um herói é verdadeiro, pois, quando sente alguma emoção humana, ele é julgado pelas suas ações.

Cacambo, vendo a desvantagem dos índios na guerra, decide colocar fogo no campo do inimigo e o seu sentimento de vingança é incendiado com a mata. É interessante destacar essa atitude do bravo índio que é de alguma maneira um tanto quanto covarde na ação. Pelas águas, via-se o tremular das imagens em chama e aquilo alegrava a Cacambo, o prazer humano e o sabor da vingança, juntos, em um índio que levara até as últimas conseqüências a defesa da sua terra:

Via nas águas trêmulas a imagem

Do arrebatado incêndio, e se alegrava.

Volta para tribo, Cacambo. Enquanto isso, o jesuíta Balda teme a influência desse índio era um dos mais destemidos e influentes da tribo. Então o jesuíta impede de todas as maneiras o encontro de Cacambo com Lindoya e, em seguida, manda prendê-lo em uma escura prisão:

[…] Não consente

O cauteloso Balda que Lindoya

Chegue a falar ao seu esposo; e manda

Que uma escura prisão o esconda, e aparte

Da luz do sol.

Basílio da Gama pinta o jesuíta como alguém pérfido, sem pena, como um homem que leva as suas necessidades pessoais acima do bem maior tal como os portugueses, embora o general pregasse como “verdade”: ao bem público cede o bem privado. O plano de Balda era matar Cacambo e fazer que o seu Baldetta (índio que recebeu este nome porque Balda o fez nascer de uma mãe infértil) se casasse com Lindoya para que dessa maneira ele tivesse um maior controle sobre a tribo. Por meio de um ato mesquinho, ambicioso e covarde, morre o ilustre guerreiro Cacambo:

Por meio de um licor desconhecido,

Que lhe deu compassivo o Santo Padre,

Jaz o ilustre Cacambo: […]

O índio ilustre nos aparece cheio de virtudes, valores, exemplos e obviamente idealizado. Nestes pontos, assemelha-se bastante ao herói do poema que é Andrade. Sentia também tudo aquilo dentro dele, era leal, e um homem honrado que morrera sem as honras de um digno funeral:

Único, que na paz, e em dura guerra

De virtude, e valor deu exemplo.

Chorado ocultamente, e sem as honras

De régio funeral, desconhecido,

Pouca terra os honrados osso cobre.

Se é que os seus ossos cobre alguma terra.

Apesar de Cacambo ser mostrado como um heroi indígena valente e digno “existiu efetivamente um índio missionário assim chamado; procurando entrar em contato com o general português, despertou a suspeita dos companheiros, que tencionaram matá-lo. Por intercessão do Padre Balda, foi, contudo preso, e na prisão morreu” (CANDIDO, 2000:121-130). Basílio da Gama altera este fato histórico para salientar ainda mais a imagem hostil dos jesuítas, aproveitando a situação para elogiar a “integridade” dos nativos, e pôr a culpa de toda essa guerra nos padres.

Lindoya recorre à índia Tanajura e Basílio, para elogiar Pombal, põe a visão de Lisboa reconstruída e bela pelo seu novo soberano. Após estes momentos cruciais da narrativa, Balda, a representação do mal feita por Basílio, tentar unir de uma vez Lindoya e Baldetta para que seu desejo de ter o domínio sobre aquelas tribos seja definitivamente concretizado. No entanto, Lindoya some! Caitutú, irmão da noiva, vai atrás dela para que ela se case com o Baldetta. O sentimento de amor que Lindoya tinha era realmente verdadeiro, pois, não podendo mais ver Cacambo, prefere a morte do que a própria vida sem o amado. Caitutú a encontra dormindo, quando vê uma serpente sobre o seu corpo, beijando levemente o seio dela. O índio toma cautela em despertá-la. Ele precisou atirar o arco três vezes para depois atingir a serpente, que morre, mas que ainda consegue ferir Lindoya. Ela morre, em delírio, suspirando o nome de Cacambo. Tão belo era o sentimento daquela índia, tão puro, que Basílio consegue traduzi-lo neste verso sublime:

Tanto era bela no seu rosto a morte!

A guerra é perdida pelos índios. Balda ordena que todas as casas da tribo sejam queimadas e os templos, queimando primeiro a casa da Tanajura com ela dentro (dita como culpada da morte de Lindoya). E, finalmente, é definida metaforicamente a imagem do jesuíta:

Lobo voraz, que vai na sombra escura

Meditando traições ao manso gado,

Perseguido dos cães, e descoberto

Não arde em tanta cólera, como ardem

Balda, e Tedêo.

Este trabalho mostrou, com passagens do texto, que os sentimentos humanos das personagens foram se pintando no decorrer das ações, permitindo, desta maneira, a apreensão das características do índio, do jesuíta e do português – acarretando numa estrutura de dialética, dialogando com a sociedade. É certo que Basílio não foi fiel à realidade, pois respeitava o princípio da verossimilhança, mas é mais certo ainda afirmar que ele será lido tal como havia dito no último canto do poema. O Uraguay não retrata apenas os horrores de uma guerra, mas também algo que sempre despertou e despertará o interesse dos homens: os sentimentos humanos que sempre farão parte de nós em situações pacíficas e extremas.

Referências

BOSI, Alfredo. III Arcádia e Ilustração. In: ______. História concisa da literatura brasileira. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 1980. p. 61-75.

CANDIDO, Antonio. 3 O disfarce épico de Basílio da Gama. In: ______. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6 ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2000. p.121-130.

ROMERO, Sílvio. I – Escola mineira: poesia épica. In: ______. História da literatura brasileira. 5 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.453 – 477.

TEIXEIRA, Ivan. Obras poéticas de Basílio da Gama. São Paulo: USP, 1996.

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