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Por Luiz Santiago

A insana terceira fase do cinema de Jean-Luc Godard, polêmico cineasta franco-suíço e um dos pais da Nouvelle Vague, é composta por filmes travestidos de normalidade narrativa e outros que seguem a sua típica corrupção da sétima arte. “O fim do cinema” é o lema desse período, surgido a partir de Número Dois (1975), e que vai contar com três realizações personalíssimas sobre “interessantes personalidades”, realizações que dão conta das diferentes visões e Godard sobre o mundo em que ele vive e todas as suas estruturas: Carmen (1983), que aborda o poder e o terrorismo; Je Vous Salue Marie (1985), que questiona a fé cristã; e Rei Lear (1987), que questiona a arte em mundo recém-saído de um grande desastre nuclear (com referência ao episódio de Chernobyl).

O Rei Lear dirigido por Godard é uma comédia dramática de ficção científica. William Shakespeare Junior V tenta a todo custo recriar o mais fielmente possível a peça que dá nome o filme, isso porque o desastre de Chernobyl destruiu todo o tipo de arte existente, e tudo precisa ser recriado.

Ao mesmo tempo em que tenta reescrever Rei Lear, a história se constrói na própria realidade. Mafiosos aparecem. Uma peça dentro do filme é escrita e encenada. De repente, Shakespeare Junior V começa a rodar um filme, e ao fim de um enlouquecedor processo, envia os negativos para Nova Iorque, a fim de serem montados por um tal de Mr. Alien (Woody Allen), e a história caminha para o seu fim praticamente niilista.

Rei Lear é um dos filmes mais fracos de Godard, mas mesmo assim, consegue construir um mundo de signos e críticas que é de encantar e espantar qualquer cinéfilo.

A primeira questão a ser colocada é que o diretor não pretende ser fiel à sua fonte. Desde o início o filme é definido como “feito nas costas”. Assumidamente um ensaio caótico não narrativo e extremamente crítico, o foco do Rei Lear de Godard é trazer do original apenas resquícios, nomes, a ideia geral, para então transformá-la em um ataque à arte. É legítimo preocupar-se com estética cênica, criação de um drama, representação, enquanto o mundo sobrevive após um desastre nuclear? O que é a arte? Pode-se defini-la como uma fuga da realidade caótica? E se for, não estaria a arte servindo como veículo alienativo?

As muitas faces da criação humana começam a ser questionadas, principalmente aquela que deveria ser a sua versão libertária. O Rei Lear godardeano é um mafioso em meio ao caos do mundo. Mas suas ações, bem como a dos outros à sua volta não são olhadas pela câmera com qualquer sentimento moralista. Do mesmo modo, não há moral quando a peça dentro do filme na verdade é um descarado plágio.

Godard fixa os pés no solo da criação autoral, e a partir dessa premissa, desenvolve seu argumento. Se não há arte, e ela precisa ser recriada, problemas de ego e condições de originalidade se apresentam. Antes de enveredar pelo seu próprio labirinto fílmico-teatral, Godard nos mostra fotos de diretores famosos (Truffaut, Pasolini, Visconti) e discute com o espectador como se tornaram autores.

Para isso, o diretor volta aos tempos em que cada um deles eram críticos ou assistentes de direção de outros realizadores. A arte seria a renúncia de tudo aquilo que já se viu? Pinturas renascentistas de diversos lugares da Europa são mostradas incessantemente durante a projeção, ao mesmo tempo em que terríveis pios de gaivotas são ouvidos a todo momento. A “liberdade” incômoda por seu discurso estridente que não diz nada, como os pios das gaivotas, e as raízes tradicionais caminham lado a lado. E initeligível mundo aparece a figura do Professor Pluggy (Godard), uma espécie de bobo da corte contemporâneo que ao invés de usar aquele chapeuzinho com pontas de sinos, usa um chapéu feito de cabos de som e vídeo. Ele é o “Senhor Cinema”, o “Senhor Teatro”, o “Sábio da Imagem”. Seus conselhos impulsionam Shakespeare Junior V a rodar um filme sobre todo o processo de (re) construção da peça.

O cinema é a única arte que se recria (já com seu Sistema de Estúdios) logo após o desastre nuclear. E se a epopeia literária do descendente do bardo não avançava, é através do celuloide que a história ganha corpo e sai do papel.

Rei Lear narra a busca constante pelo núcleo da criação humana, o ponto onde o que é conhecido pela razão se torna em um terceiro produto, aquilo que será chamado obra de arte, porém ao mesmo questiona-se a utilidade dessa criação em meio a um mundo nada propício ou receptivo. Por fim, a aparente paz e a morte. Nas mãos de Mr. Alien, o material ganhará corpo, e temos a indicação que o filme que assistimos é o resultado dessa montagem. Enquanto nasce o “filme diegético”, as intrigas de Rei Lear se perdem no tempo entre versos de Virgínia Woolf. D. Learo, Cordélia e Virgínia são apenas sombras de uma trama obscura e confusa, cumpriram seu papel em meio ao nada e saem de cena antes mesmo de cair o pano. O filme está pronto. É hora de exibi-lo, mostrar ao mundo a loucura artística vinda da loucura social. Um ensaio, uma visão parcial, um filme feito nas costas. A arte foi questionada. Seu poder e legitimidade foram postos em cheque. A autoria de uma obra de arte também não escapou às críticas. Todo o processo de criação recebeu o recorte da câmera indiscreta de Godard.

Um último take em todos os espaços narrativos construídos durante o filme, a exposição de diversos rituais de despedida, verborragia literária e niilista e então o filme termina. É hora de começar “o outro filme”.

REI LEAR (King Lear, EUA, 1987). Direção: Jean-Luc Godard Elenco: Woody Allen, Jean-Luc Godard, Freddy Buache, Julie Delpy, Suzanne Lanza, Kate Mailer, Norman Mailer, Burguess Meredith, Molly Ringwald, Peter Sellars.

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