Tags

, , ,

Por Sidnei Vares

A virada cultural tornou-se o grande atrativo da cidade mais pujante do país. Muitos artistas, muitos palcos. Em São Paulo tudo é demasiado. Seu destino sempre foi ser grande. As pessoas, preocupadas com os shows corriam, se deslocavam. O artista preferido. A cantora do momento. Realmente, não tenho pique para grandes noitadas, viradas, ou coisas do gênero. Uma única virada cultural foi o bastante para decidir nunca mais me aventurar. Minha definição de “cultura” é menos larga do que essa. Definitivamente, não gosto de aglomerações e penso ter esse direito. Não chego a ser nenhum Luis Felipe Pondé, para quem as “muvucas” lembram “churrasco de laje” ou FHC que prefere a “classe média” ao “povão”. Não, não penso assim. Gosto do povo. Sou parte dele. Só não gosto de aglomerações, metrôs lotados, etc. Prefiro a sutiliza do canto gregoriano, tal e qual o filme “Homens e Deuses”, que tive o prazer de assistir nesse fim de semana. Realmente lindo, embora retrate a violência desencadeada pela ortodoxia religiosa. Sai do Espaço Unibanco da Rua Augusta e comprei um CD de canto gregoriano na loja da frente, o qual escuto no exato momento em que escrevo esse texto. Mas por que escrevo tudo isso agora? Para dividir minha tristeza. Enquanto a maioria dos paulistanos curtia o finalzinho da virada cultural, um dos pontos mais importantes da cultura de cidade estava lá, sozinho, isolado, largado, sem ninguém. Refiro-me ao Cine Belas-Artes na esquina da Consolação com a Paulista. Como fiquei triste em ver que as portas estavam pichadas. Era um cenário de abandono. Exatamente no dia em que a cidade comemorava uma virada cultural e os paulistanos, pagando sua altíssima tarifa de ônibus, perambulavam entre palcos, ali estava o Cine Belas-Artes. Vocês não imaginam a importância desse espaço para mim. Era quase uma extensão de minha vida cultural. Gostava de tudo lá. Do macio pão de queijo  ao chocolate, da pipoca ao café. Mas amava principalmente os filmes, meus filmes. Sempre me senti um sócio, ou melhor, um parente. Sim, o Belas-Artes era uma espécie de membro da família. Hoje vi esse meio-irmão na sarjeta, abandonado. Enquanto isso, São Paulo festejava a cultura. Viva a cultura. Belas-Artes, enquanto viver, jamais te esquecerei.

Anúncios