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Por Rodrigo Vides Vieira

A história política do Brasil é perpetrada por golpes políticos e militares que ambicionavam dar conta da luta de classes em nosso país. A historiografia hoje nos permite considerar os avanços e retrocessos destas políticas verticais, que se instauraram com a República e que até hoje não dão conta dos conflitos de classes no Brasil, mesmo com a recém passada gestão de Lula na direção do país continuamos a presenciar milhões de cidadãos vivendo na pobreza extrema, enquanto que a classe média se vê com o seu poder aquisitivo em plena ascensão; e o que falar da grande burguesia brasileira?

Esta que tanto se beneficia com a política neoliberal que teve suas raízes fincadas lá nos governos militares da época da Ditadura e até hoje não param de se desenvolver, cada vez mais o mercado global se torna a realidade excludente do país e do mundo. Não é à toa que o operariado encontre-se encapsulado, sem poder de ação frente ao governo, a política é feita de escolhas e os partidos que se propõem representar a classe operária optaram pela via parlamentar, pela revolução democrático-burguesa, e nos dias de hoje, nem em revolução mais se fala, falamos de “fim da história” e Estado de bem-estar social, nos quais as classes foram abolidas.

São diversas as hipóteses para este desfecho dramático da revolução operária, uma delas diz que as frentes populares foram propostas tipicamente anarquistas do início do século XX, e que possuíam um corpo teórico frágil facilmente vencido pelo “marxismo” orientado pela III Internacional Comunista (1919-1943); as “metafísicas proudhonianas” deram margem para a ascensão marxista na América Latina, porém a leitura da realidade latino-americana feita pela IC, como nos mostra John Kennedy Ferreira em A questão indígena-camponesa e a luta pelo socialismo: apontamentos sobre a contribuição de José Carlos Mariátegui (dissertação de mestrado em ciências socais pela PUC-SP, 2008), foi precipitada. Considerava-se a América Latina um homônimo do caso chinês, a luta contra o imperialismo dar-se-ia por meio de uma aliança entre o operariado, o campesinato e a pequena burguesia, análise a que Mariátegui se opôs ferrenha e coerente.

Este tipo de aliança não surtiu efeito na América Latina, Os sete ensaios de interpretação da realidade peruana de Mariátegui nos mostram que a pequena burguesia era facilmente seduzida pelo Capital, além de que sua composição majoritariamente branca não correspondia com as necessidades da massa indígena, negra e mestiça que compunham a maior parte da população peruana e latino-americana em geral.

Desta forma, seria inviável que este tipo de aliança surtisse o efeito desejado, no entanto, os Congressos da IC (principalmente na fase stalinista) apoiaram amplamente esta análise, muito pelo fato de que uma aliança neste formato asseguraria a soberania da URSS. O que começou com uma leitura ingênua da América Latina por falta de um conhecimento aprofundado de nossa realidade ainda nos tempos de Lênin termina com o stalinismo marcando território e aliados para defender o “socialismo real” das investidas imperialistas.

Neste ponto que se mostra atual o tema estudado por Ferreira, seu problema central é a formação da aliança indígena-camponesa, uma clara oposição à aliança proposta pela IC, baseada na cultura comunista incaica, que segundo Mariátegui, ainda seria muito presente na vida do camponês peruano, contudo é evidente que a discussão com o texto revele problemas secundários, e um deles é a instauração do socialismo por vias parlamentares, ambiente historicamente burguês na América Latina. Sendo assim, John Kennedy Ferreira irá nos apresentar uma breve, e esclarecedora, biografia de Mariátegui, a qual revela os fundamentos teóricos que amadureceram durante sua prática política; do boêmio ao comunista, percorremos o pensamento do homem que consolidou a compreensão da realidade latino-americana, um processo a que Leila Escorsim (citada por Ferreira) sintetiza como a passagem do romantismo anticapitalista à modernidade revolucionária do século XX.

Mariátegui entendeu que o fim da exploração e da opressão não poderia vir “pelo alto”, uma política que atendesse os interesses do operariado deveria partir “de baixo”, por meio de um movimento classista, pois seria através da consciência de classe produzida por operários, camponeses, índios, negros e mestiços que se desenvolveria uma identidade latino-americana livre das racionalizações eurocêntricas, portanto, Os sete ensaios de interpretação da realidade peruana é o meio pelo qual nós poderemos nos entender enquanto atores de nossa própria história, Mariátegui entra em cena com seu roteiro teórico, mas não para um monólogo, sua “peça” depende de nossa atuação e da percepção de que a realidade latino-americana foi criada de forma alienígena e que portanto não será por meio desta política que se transformará este estado de coisas, mas sim pela percepção de que os interesses da burguesia imperialista não correspondem, minimamente, aos princípios da liberdade. José Carlos Mariátegui, aqui apresentado pela dissertação de John Kennedy Ferreira, nos dá a direção, cabe-nos agora optar por sermos livres ou por viver a mercê dos interesses imperialistas.

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