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Por Thiago Rodrigues

Em memória do grande maestro Danilo Di Manno de Almeida

Nota: Falece o grande professor, intelectual e provocador Danilo Di Manno de Almeida, que, para mim, foi o contato mais próximo com aquilo que imagino ser um filósofo. Aqueles que o conheceram compreendem o que quero dizer. Para quem se interessar sugiro a leitura de seu livro Pour une imagination non-européene, infelizmente não publicado no Brasil. Aluno de Françoise de Laruelle, Di Manno fez parte do que ficou conhecido como movimento da “não-filosofia”[Non-philosophie], no qual a obra citada integra o acervo.

Em homenagem a esse grande maestro gostaria de publicar um texto meu realizado como trabalho de conclusão de uma disciplina ministrado por ele. Relendo o texto pensei em modificá-lo pois hoje me parece um pouco ingênuo, mas resolvi mantê-lo tal como foi entregue ao professor. O tom mais pessoal e intimista do trabalho nos foi sugerido por Di Manno.

A poesia, Platão tinha razão, é o território de suicídio da verdade. Ainda bem!

 ***

“Povo miserável! É culpa minha se em vosso meio vaguei como uma cigana pelos campos e tenho de me esconder e disfarçar, como se eu fosse a pecadora e vós os meus juízes? Vede minha irmã, a Arte! Ela está como eu, caída entre bárbaros e não sabemos mais nos salvar. Aqui nos falta, é verdade, justa causa; mas os juízes diante dos quais encontraremos justiça têm também jurisdição sobre vós, e vos dirão: Tendes antes uma civilização, e então ficareis sabendo vós também o que a filosofia quer e pode.” (Nietzsche, A Filosofia Trágica na Época dos Gregos, §2)

Talvez a única maneira de se fazer filosofia seja eliminando o dualismo entre corpo e alma, ou melhor, entre pensamento e vida. Se assim o é, então nossas vivências, nossa biografia, é parte fundamental no processo filosófico. Sendo assim, permito-me iniciar esta breve reflexão apresentando algo acerca da minha própria experiência com a filosofia.

Minha aproximação com a filosofia se deu, primeiramente, através da literatura, e sempre me causou estranhamento a pretensa objetividade e veracidade do discurso filosófico. Sempre me senti inclinado a ver mais verdade em um poema do que numa tese defendida de forma objetiva através do discurso científico corrente. Talvez a pergunta que mais tenha me incomodado seja: quais são os limites da linguagem filosófica? Até que ponto ela representa(ou pode representar) a verdade? Qual é o alcance dessa objetividade científica?

Partindo desta problemática, gostaria de retomar a reflexão apresentada por Nietzsche no aforismo §13, de O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, em que o filósofo, ao fazer uma crítica à Sócrates, faz uma crítica ao discurso normativo do lógos racional. Deste modo, com Sócrates, há uma inversão fundamental. Aquilo que deveria orientar o saber humano, isto é, o instinto, passa a ser determinado pelo entendimento, ou seja, pelo discurso racional. Portanto, como diz o filósofo, “Enquanto em todos os homens produtivos o instinto é precisamente a força criadora-afirmativa e a consciência se porta como crítica e dissuasiva, em Sócrates é o instinto que se torna crítico e a consciência, criadora[…]”(Nietzsche, 1978a, p. 12, §13). Deste modo, a tradição filosófica ocidental teria privilegiado o discurso racional em detrimento do instinto criador.

Parece que aqui é posto um novo dualismo, só que agora entre entendimento e instinto, e que em Nietzsche aparece representado nas figuras de Apolo e Dioniso. No entanto, se não há separação entre vida e pensamento também não existe separação entre o apolíneo e o dionisíaco, o que ocorre é essa supervalorização do âmbito racional da existência em detrimento da intuição ou da “irracionalidade”.

Mas o que são esses dois âmbitos da existência, o lógos racional e o instinto criador-afirmativo?

Não me deterei no que diz respeito ao lógos racional – que chamarei de entendimento tal como proposto por Kant dentro de uma perspectiva Iluminista e que, portanto, privilegia o discurso racional – por se tratar da maneira como convencionalmente nos aproximamos do saber humano.

Em contraposição ao lógosracional gostaria de introduzir a noção de “pathos filosófico”. Ora, se o lógos racional aparece como discurso normativo, o pathos filosófico representa a força criadora-afirmativa. Vinculado à sensibilidade e ao âmbito irracional do saber humano o pathos filosófico talvez encontre na arte a dimensão privilegiada para manifestar-se.

Parece-me que através da sensibilidade podemos expressar algo para além daquilo que o entendimento é capaz de expressar. Assim, a angústia diante da morte expressa em A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, por exemplo, não encontra paralelo dentro da perspectiva cientificista da filosofia racionalista. E isso não significa que o pathos filosófico desqualifique o lógos racional, e sim, que através dele podemos comunicar o “incomunicável”, podemos ir mais além.

Será? Nietzsche atribui à música o papel de expressar tragicamente o mundo, ou melhor, a música é entendida como a pura expressão do mundo. Aceitando esse pressuposto é “somente como um fenômeno estético que a existência e o mundo aparecem como legitimados”(Nietzsche, 1978a, p. 21, §24). Em outras palavras é só enquanto fenômeno estético que se atribui sentido à vida, e que assim, talvez tenhamos que encarar a vida como a criação de uma obra de arte. Portanto, a arte é a única “capaz de converter aqueles pensamentos de nojo sobre o susto e o absurdo da existência em representações com as quais se pode viver”(Nietzsche, 1978a, p. 9, §7).

Se, como aparece no inicio deste texto, não há separação entre vida e pensamento, então temos que encarar o pensamento também como a criação de uma obra de arte, tal como no espírito trágico descrito por Nietzsche. Sendo assim, o que busco ao usar a expressão “pathos filosófico” é resgatar a “sabedoria dionisíaca instintiva e inconsciente na linguagem da imagem”(Nietzsche, 1978a, p. 17, §16), ou seja, defender que é através da imagem “não-racional” da arte que a filosofia comunica o “incomunicável”.

Se pensarmos essa compreensão dentro da produção filosófica, podemos dizer que existem filósofos que buscam privilegiar a objetividade da linguagem científica, e outros que, por sua vez, privilegiam o pathos filosófico descrito, como forma de realizarem sua filosofia. E é nesse segundo modo de fazer filosofia que Nietzsche se encontra.

Para os pensadores que transitam entre a objetividade do discurso científico e a sensibilidade do pathos filosófico, ou melhor, que compreendem que não há separação entre esses dois âmbitos, a expressão puramente lógica não dá conta do seu pensamento e por isso há a necessidade de introduzirem elementos afetivos, característicos do discurso artístico. Para ficarmos no exemplo de Nietzsche, quem é capaz de negar o alcance expressivo de sua filosofia que se apresenta através de aforismos que muitas vezes estão mais para a poesia do para a filosofia[1], ou ao menos, em relação aquilo que tradicionalmente entendemos por filosofia.

E essa postura significa não apenas abordar as questões afetivas ou que dizem respeito à sensibilidade, mas também, e principalmente, incorporá-las no interior da racionalidade como elemento de interpretação do mundo e da vida.

E é fundamental dizer que não se trata de entender a arte como porta de acesso ao pensamento, como uma forma de ilustrar teses filosóficas, e sim, cabe reforçar, como forma de expressar para além do que a linguagem objetiva é capaz. Assim, não é que Nietzsche diz sua filosofia através da poesia implícita em seus aforismos, mas que seu pensamento é a própria poesia em forma de aforismos.

 Posto estes pressupostos gostaria de levar essa breve reflexão para o plano da educação, para tanto, utilizarei mais uma citação de Nietzsche (1978, p. 17 e 18 Grifo meu) em O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, aforismo §18:

Todo nosso mundo moderno está preso na rede da civilização alexandrina e conhece como ideal o homem teórico, equipado com os máximos poderes de conhecimento, trabalhando a serviço da ciência, cujo protótipo e ancestral é Sócrates. Todos os nossos meios de educação têm em vista, primordialmente, esse ideal. […]

Esta citação me interessa, principalmente, porque introduz a crítica de Nietzsche à figura do “erudito”. Para o filósofo, essa educação pautada pelo ideal do homem teórico busca “adestrar” o jovem para ser erudito, ou seja, o educa para a “prova de filosofia”, para que ele se torne um professor de história da filosofia, um reprodutor do pensamento tradicional, e não para a prática filosófica, para uma filosofia da(e na) vida.[2] Desse modo, o erudito é entendido como o reprodutor do pensamento acumulado ao longo dos anos pela tradição filosófica ocidental tendo como função reproduzi-lo e passá-lo adiante.

Dessa reflexão Nietzsche lança uma crítica crucial – e talvez hoje mais do que nunca – ao papel do Estado dentro do processo educacional: E se “a ‘educação para a filosofia’, em vez de conduzir a ela, servisse para afastar da filosofia?”(Nietzsche, 1978b, p. 81, §8).

Mas não me deterei nesta crítica, pois não diz respeito diretamente ao tema desta reflexão, embora esteja à ela relacionada. Gostaria de retomar, portanto, o papel do pathos filosófico, só que agora, no âmbito educacional.

Fica claro que o ideal de homem teórico descrito por Nietzsche e que foi eleito como o ideal de educação dentro da tradição ocidental remete ao que chamei de discurso normativo do lógos racional, ou seja, o homem teórico é o homem científico, racional e objetivo, é, portanto, o erudito.

Talvez devêssemos resgatar a intuição e a espontaneidade como princípios fundamentais para uma educação para a vida. Uma educação para a vida é aquela que não se pauta por nenhum ideal e que, ao contrário, busca na força criadora-afirmativa um instinto básico e completamente imprevisível que encare a educação, assim como a própria vida, como ato criador, tal como acontece com a criação de uma obra de arte.

Uma educação encarada como criação se apresentaria como uma espécie de antídoto ao cientificismo corrente dentro de nossa tradição. Assim, uma instrução artística – que talvez também pudesse ser chamada de dionisíaca -, resgataria a beleza e o sentido dado à existência. E o mais importante, e que é um dos pontos em que a arte mais se diferencia da ciência, é que a arte apresenta uma imagem da vida como um todo. Portanto, o filósofo é aquele que afirma a vida em seu conjunto, é aquele que lê sua própria vida na imagem da vida em sua totalidade. Ou então, aproveitando a imagem utilizada por Nietzsche, enquanto o erudito olha para um quadro e vê as tintas, a técnica utilizada, e os materiais, o filósofo vê a “pintura universal da vida e da existência”em seu todo.

Mas o que possibilitaria essa educação dionisíaca? Ora, se é através do pathos filosófico que a “sabedoria” se mostra de forma “dionisíaca instintiva e inconsciente na linguagem da imagem”, então é preciso encarar a educação e a cultura como sendo inseparáveis. É preciso que a educação esteja de tal modo integrada à cultura que esta possa fomentar naquela um desenvolvimento sadio e afirmador da vida.

Encarar a educação e a cultura como inseparáveis significa trazer a arte, em especial no diz respeito a criação, para o “ambiente escolar”, ou seja, fazer da educação um ato criador no qual cada sujeito é autor de sua própria formação, caracterizando um processo de formação de si de forma criativa e autônoma, nesse sentido, o professor não passaria de um provocar e de um interlocutor.

Por fim, retorno as questões levantadas no início desta reflexão e que remetem aos princípios apolíneo e dionisíaco do saber humano. No qual Apolo representa o lógos racional, as formas, os limites, enquanto que Dioniso representa o pathos filosófico, o instinto, o impulso, a embriaguez. E é da síntese destes dois princípios que surge o saber humano. No entanto, para Nietzsche, houve um descompasso entre esses dois princípios, e a tradição ocidental privilegiou a racionalidade em detrimento do instinto, como conseqüência herdamos uma educação enferma e que, portanto, só pode gerar “doentes”.

Deste quadro recoloco as questões: quais são os limites da linguagem filosófica?

Só existe verdade dentro do discurso científico? Até que ponto essa objetividade científica dá conta de expressar o pensamento filosófico e, em última instância, a vida? E ainda, é possível ensinar filosofia ou só a filosofar? Isto é, se coloco a filosofia como algo já construído não impossibilito ao estudante de filosofia a prática filosófica?

É nesse sentido que acredito que o pathos filosófico apresenta uma alternativa dentro do processo de formação, resgatando a intuição e a subjetividade como forma de acesso à uma educação que prepare para a vida e não apenas para a teoria. Transformando todo impulso vital em técnica e erudição, a educação nega aquilo que o homem tem de mais nobre que é a “vontade de vida”.

Notas:

[1] Para ilustrar essa tese gostaria de citar integralmente o aforismo §341 de A Gaia Ciência, p. 230, por sua qualidade estética e por sua capacidade de expressar o “incomunicável”: “O mais pesado dos pesos. – E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu a vives e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’ – Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!’ Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?’ pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”

[2] Para corroborar essa tese gostaria de citar um trecho, um tanto longo, de Schopenhauer como Educador, §8, p. 81, de Considerações Extemporâneas: “E, por fim, em que nesse mundo importa aos nossos jovens a história da filosofia? Será que eles devem, pela confusão das opiniões, ser desencorajados de terem opiniões? Será que devem ser ensinados a participar do coro do júbilo: como chegamos tão esplendidamente longe? Será que, porventura, devem aprender a odiar ou desprezar a filosofia? Quase se poderia pensar este último, quando se sabe como os estudantes têm de se martirizar por causa de suas provas de filosofia, para imprimir as idéias mais malucas e mais espinhosas do espírito humano, ao lado das mais grandiosas e mais difíceis de captar, em seu pobre cérebro. A única crítica de uma filosofia que é possível e que além disso demonstra algo, ou seja, ensaiar se se pode viver segundo ela, nunca foi ensinada em universidades: mas sempre a crítica de palavras com palavras. E agora pense-se em uma cabeça juvenil, sem muita experiência da vida, em que cinqüenta críticas desses sistemas são guardados juntos e misturados – que aridez, que selvageria, que escárnio, quando se trata de uma educação para a filosofia! Mas, de fato, todos reconhecem que não se educa para ela, mas para uma prova de filosofia: cujo resultado, sabidamente e da hábito, é que quem sai dessa prova – ai, dessa provação! – confessa a si mesmo com um profundo suspiro: ‘Graças a Deus que não sou um filósofo, mas cristão e cidadão do meu Estado!’”

Referências Bibliográficas: 

ALMEIDA, Danilo Di Manno de. Subjetividade e Discurso da Qualidade Educacional: Contra a Difamação do Docente. Revista do COGEIME, v. 14, p. 95-105, 2005.

DIAS, Rosa Maria. Cultura e Educação no Pensamento de Nietzsche. Impulso, Piracicaba, v.12, n. 28, p. 33-40, 2001.

NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1978a. 2ª Ed. (Col. Os Pensadores)

___________. Schopenhauer como Educador. In: Considerações Extemporâneas.Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1978b. 2ª Ed. (Col. Os Pensadores)

___________. A Gaia Ciência. Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

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