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Por Felipe Garcia de Medeiros

Jorge Fernandes (1887-1953) nasceu em Natal-RN. Com seu “LIVRO DE POEMAS”, de versos modernos, editado em 1927, é considerado um dos precursores da poesia moderna do Rio Grande do Norte. A poesia de Jorge Fernandes transita entre a tradição e o moderno. Por que ocorre tal fato? Natal, na década de 20, ainda era uma província que estava em processo de modernização. Viviam, no estado do RN, o passado consolidado por séculos e a constante inovação “presente” que vinha da civilização moderna (que já estava bem “avançada” no sudeste do país, onde ocorreram as primeiras manifestações artísticas modernas no Brasil em 1922). Assim, percebe-se uma transição contínua do velho para novo e, nessa transição, encontra-se o material e a essência da poesia do poeta natalense Jorge Fernandes.

Para se ter clareza da Natal provinciana do século XX, é de relevante importância conhecer o livro Geração dos Maus, publicado em 1964, do escritor natalense José Humberto Dutra. Esse livro nos mostra um quadro dessa cidade em processo de urbanização que, em 1927, ainda era mais “atrasada” do que na época da publicação do livro de Dutra.

Estamos em um terreno cheio de significados e carregado de sentido – provindo de uma história consolidada pela tradição, que ainda é bem presente e forte na pequena província natalense. Não é à toa que a poesia de Jorge Fernandes é moderna. O próprio terreno em que se insere permite a construção de uma poesia moderna – a urbanização, o primitivismo, o cotidiano, etc. Encontramos trabalhadores com arado, “mãos nordestinas”, “pescadores” e uma infinidade de figuras típicas do sertão, da vida do homem sertanejo, a própria vida do homem sertanejo é carregada de significados e histórias – cada coisa, cada atividade, cada objeto. Este trabalho tem, portanto, como objetivo, analisar a polissemia na poesia de Jorge Fernandes.

O poeta natalense, “pintor de quadros do cotidiano”, representa a realidade com imagens fortes e carregadas de sentido. A palavra, a imagem, a idéia e a forma unem-se ao sentido de sua poesia. Algumas palavras colocadas na poesia de Jorge Fernandes apresentam diversos significados que dialogam, todos eles, com o significado “final” do poema. Não diria que há apenas uma ambigüidade em sua poesia, mas, sim, uma polissemia de sentidos. A ambigüidade, na maioria das vezes, confunde o leitor e não permite uma via direta dos seus possíveis sentidos com o poema. Já na polissemia, todos os significados possíveis das palavras polivalentes possuem uma via direta com o sentido do poema. E o nosso poeta natalense, Jorge Fernandes, soube muito bem qual palavra escolher e onde colocá-la no poema para obter essa polissemia.

É preciso esclarecer que a polissemia é a pluralidade de sentidos que a palavra pode possuir dentro ou fora de um contexto. Há de se encontrar, em toda poesia, a polissemia. Em Jorge Fernandes, a presença dessa figura de linguagem é, dentre as demais, de extrema importância para o significado do poema. O poeta tem consciência desse recurso e o utiliza como estratégia para a construção do seu poema. Vejamos, agora, na íntegra, o poema que escolhi para fazer a análise deste trabalho:

Pescadores 

  1. Chegou do mar!
  2. Quanta arrogância no pescador…
  3. O mar fê-lo forte, resoluto.
  4. Tem ímpetos de ondas o seu olhar…
  5. Olhem o calão do peixe que ele trouxe!!?…
  6. São peixes monstros que ele pescou…
  7. Quando há tormenta e a jangada vira
  8. O homem forte matou a fome
  9. Do irmão do mero que ele comeu…

FERNANDES, Jorge. Livro de poemas de Jorge Fernandes. 4.ed. Natal: EDUFRN, 2007. p. 37.

Nesse poema, o poeta descreve uma cena – não se referindo ao seu “eu lírico”. Há um afastamento do poeta em relação a esse poema no sentido de se deslocar para o outro, para o fato corriqueiro, para a cena em si.

Temos uma cena inicial: O pescador chega do mar e expressa arrogância. O mar o transforma, deixa o pescador forte, mais experiente, “resoluto”.  Tem, nos seus olhos, “ímpetos de ondas”. No quinto verso “Olhem o calão do peixe que ele pescou…”, temos, como polissêmica, a palavra calão. Fora do poema, temos cinco significados para essa palavra. Dentro do poema, quais sentidos ela podem ter?

Primeiro, vamos ao primeiro significado da palavra, que é: embarcação comprida e larga. Ser formos ao poema, percebemos que a palavra calão não nos permite fazer essa relação, pois a “embarcação do peixe” seria inviável.

No segundo significado, temos: telha grande, usada para revestir o fundo de regos de água.  Vemos também que, relacionado com o poema, esse significado também não é viável nem possível.

No terceiro significado, temos: pedaço de pau roliço, nas extremidades do qual se suspendem os objetos que se devem transportar ao ombro. Aqui já vemos uma ligação semântica com o poema. Calão, nesse sentido, foi o meio pelo o qual o pescador usou para transportar os peixes que ele pescou no mar.

No quarto significado, vê-se: vara curta que se amarra de cada lado da rede de pesca. Aqui também há relação com o poema, assim como a do significado anterior, sem muita distância semântica significativa.

No quinto e último significado, temos: rede de pesca com três lados retos e um curvo, e munida de pesos. Há aqui, diferente dos dois últimos significados, apenas uma diferença do material utilizado para transportar os peixes, frutos da pesca.

O que podemos depreender desses significados? Existe alguma relação com a tradição do poeta ou com o significado da poesia “Pescadores”? Comparada com as múltiplas possibilidades do mundo moderno, das múltiplas funções das coisas, essa palavra calão, dentro do poema, não seria o reflexo dessa realidade nova e dinâmica? Ao mesmo tempo em que a palavra significa pequena embarcação, algo mais novo e elaborado, ela pode ser entendida, concomitantemente, como “pedaço de pau roliço”, “rede de pesca”, “vara curta”, enfim, materiais arcaicos que auxiliam o trabalho do pescador. Observa-se, nessa multiplicidade de sentidos, o diálogo entre o novo e o velho (os elementos presentes na cidade do Natal provinciana e os presentes no mundo moderno) e entre o possível e o impossível (o encaixe ou não do significado dentro do eixo léxico-semântico do poema), algo que pode ser interpretado a partir do poema, desde que saibamos que a urbanização, naquela Natal de 1927, estava em processo, não consolidada, algo que é ainda perceptível ainda em 1964, como citei acima a obra Geração dos Maus, de José Humberto Dutra – para mostrar ao leitor esse processo.   Sabemos que, para interpretar um poema como todo, é preciso fazer uma análise geral do poema e das suas possíveis relações com o mundo e o contexto em que a obra está inserida. A interpretação deve partir do poema para que assim, o crítico, faça uma análise possível/verossímil do poema em questão.

Calão, eu não coloquei na ordem acima, também é conhecido, na gíria brasileira, como termo “baixo e grosseiro”. Essa possibilidade pode ressaltar a qualidade do peixe que ele pescou, sendo de “baixo calão”, abrindo, assim, portas para diversos significados.

Em seguida, no sexto verso, o poeta continua com a descrição da cena, dizendo que o pescador pescou “peixes monstros”. Nos três últimos versos, encandeados, a cena é dirigida para uma possibilidade: “Quando há tormenta e a jangada vira”, e continua “O homem forte matou a fome/ Do irmão do mero que ele comeu”. A palavra mero é polissêmica.

Essa palavra pode ser um substantivo (peixe teleósteo) ou um adjetivo (sem mistura, simples). Antes de continuar a análise, precisamos saber o que é o mero.  O mero é um peixe grande, em extinção, que pode chegar a ter até 2,7 m de altura, é carnívoro e come, basicamente, lagostas, caranguejos e peixes. No poema “Pescadores”, o mero é o peixe que o pescador comeu e, quando a sua jangada vira (o homem forte, nós temos aqui um contraste com a modernidade, depende do objeto, da jangada, porque, apesar de ser forte, não é suficiente para mantê-lo vivo no mar), o irmão do mero que ele comeu mata a sua fome comendo o pescador e, como se vê na cena, vingado, enfim, a morte do seu ente. Observa-se, outro elemento que realça a modernidade, a animalização do homem (aquele que é calculista e frio) e a humanização do animal (aquele que sente e reflete). Nesse sentido, a palavra mero adquire tais significados.

No outro significado, o peixe mero torna-se o adjetivo mero – a coisa se torna qualidade. Tornar as coisas qualidades, ou seja, obter valor pelo que se tem, pelo que se possui, não seria outra característica do mundo materialista e moderno? Então, reforçando a idéia de homem animalesco, que também foi interpretado no primeiro sentido, o peixe que ele comeu era apenas um mero peixe, sem valor, útil no sentido de satisfazer a fome do homem.

A polissemia, na poesia de Jorge Fernandes, é um dos elementos, como nós vimos, enriquecedores da poesia do RN, das capacidades poéticas do nosso poeta mais ilustre, consciente de que cada coisa, no mundo “antigo” assim como no “moderno”, possuí mil significados quando dialogam dentro do poema por meio do uso da palavra.

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