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Por Thiago Rodrigues

            É do conhecimento de todos que um dos pressupostos fundamentais à filosofia humeana é que “só a experiência dá autoridade ao testemunho humano”.[1] Ora, Hume se encontra sob o registro empirista, sendo assim, nega o conhecimento proveniente exclusivamente da razão, ou melhor, afirma a experiência como fonte originária de todo conhecimento. Desse modo, o filósofo, ao se referir à Religião Cristã, chega à conclusão de que “a simples razão é insuficiente para nos convencer da sua [da Religião Cristão] veracidade, e todo aquele que é movido pela fé a aceitá-la tem consciência de uma continuação do milagre na sua pessoa, subvertendo todos os princípios do seu entendimento e dando-lhe a determinação de crer no que é mais contrário ao costume e à experiência”.[2] Para Hume, a fé pressupõe a negação do entendimento e da experiência como via de acesso à prática de qualquer sistema religioso. Portanto, podemos nos remeter à discussão entre fé e razão. No entanto, primeiramente, cabe levantarmos alguns dos argumentos apontados pelo filósofo.

Parece-nos que Hume, aos moldes iluministas, professa uma fé exacerbada na capacidade de esclarecimento do homem como forma de compreender e dominar a natureza. Talvez por isso, o filósofo se permita fazer troça[3] da Religião Cristã. No entanto, por vezes, os argumentos apresentados se mostram tendenciosos e – por que não? – superficiais. Parece que, para Hume, os “milagres”, que, também segundo ele, são os fundamentos de qualquer sistema religioso, não passariam de um “erro dos sentidos”. Dessa maneira, o filósofo quase que caracteriza os milagres como um misto de comoção popular com a eloqüência e a capacidade retórica daquele que afirma determinado milagre, não que isso implique, necessariamente, numa atitude de má fé por parte daquele que afirma esse milagre. Por conseqüência, esse “erro dos sentidos” só teria o alcance que teve – e ainda tem – em função da incapacidade de discernimento “do populacho basbaque, que recebe sofregamente e sem exame tudo que lisonjeia a superstição e provoca o assombro”.[4]

E essa leitura se evidencia quando Hume, ao se referir àqueles que pregam a fé, diz:

 

Quem não enfrentaria muitos perigos e dificuldades para conquistar tão sublime caráter? Ou se, com a ajuda da vaidade e de uma imaginação inflamada, um homem começou por se convencer e perfilhar a sério a ilusão, como poderia ter escrúpulos de recorrer a piedosas fraudes em apoio de uma causa tão santa e meritória?[5]

 

Ou seja, o que a principio era espontâneo e ingênuo ganha um caráter malicioso com a institucionalização das religiões.

Mas deixemos Hume em paz e retomemos algo acerca de relação entre fé e razão. Lancemos, então, mão de recursos retóricos e de eloqüência dramática numa reflexão de cunho mais pessoal. Evidentemente, não há aqui a preocupação com a vulgarização da filosofia, afinal de contas, filosofia serve para quê?

 

De acordo com o pensamento kantiano, Deus não passa de um postulado da razão prática e, sendo assim, não nos é dado conhecê-lo. Kant disse, também, que foi Hume quem o despertou de seu sono dogmático da metafísica. No entanto, Kant é considerado por muitos de seus interpretes como um homem de fé, um pietista. O que disse Hume à Kant? Kierkegaard diz que precisamos dar um salto para à fé, salto esse, que não é passível de justificação lógica. Como em Hume? Como em Kant? Fichte afirma que em Deus o pensamento se aniquila, dessa maneira, Deus seria grande demais para nossa razão. O que a filosofia pode nos dizer acerca de Deus? Que Ele é o Absoluto? Que Ele é o princípio primeiro, ordenador e mantenedor do universo? Quem diabos é capaz de se ajoelhar e rezar diante de um Deus, como é este dos filósofos? Pascal, não sem razão, afirma que o Deus dos filósofos não é o mesmo Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Mas, por quê? E novamente a pergunta: quem é capaz de pedir auxilio à um Deus impessoal e abstrato como o Deus de Hegel. Nietzsche constatou que nosso racionalismo decretou a morte de Deus.

O que é o homem diante dessa justiça estupidificada, na qual, um homem mata outro homem porque tem fome? E não me refiro à esses atos no qual a vaidade humana se sobrepõe à nossa capacidade de amar, me refiro ao pai que rouba e, por vezes, mata, porque seu filho tem fome. Ou então, àqueles que têm que lutar pela sobrevivência diante de uma catástrofe natural, como um tsunami ou um furacão. Enquanto houverem hospitais especializados no tratamento de crianças com câncer é porque Deus não existe. Se, como diz Dostoiévski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido.”, então, Deus não passaria de um princípio absoluto, ou, como prefere Kant, de um postulado moral capaz de fundamentar nossas ações. O homem não precisa de Deus para lhe dizer o que é certo ou errado, assim, se esse é o único argumento a favor da existência de Deus, então…

No entanto, parece que o único bom argumento contra a existência de Deus é o argumento do mal. Que é um argumento que passa pelo problema da justiça de Deus, e, sendo assim, diz respeito ao termo cunhado por Leibniz, teodicéia. É Leibniz, também, que lança a teoria do “melhor dos mundos possíveis” que, também, e não sem razão, seria ridicularizada por Voltaire algum tempo depois. Portanto, a discussão acerca da existência de Deus passa pelo problema da justiça de Deus. A pergunta que se impõe, portanto, é: Se Deus existe, Ele é justo?

Porque se Deus existe e permite que uma criança morra e, antes disso, que agonize porque tem fome e, mesmo assim, não faz nada, só há duas hipóteses: ou é porque Ele nada pode, e aí, Ele não seria Deus, perfeito, infinito, absoluto; ou então, porque Ele assim o quer. E, novamente a pergunta: Se Deus existe, Ele é justo?

Em uma famosa passagem bíblica Deus pede à Abraão que ofereça seu próprio filho em sacrifício. Que tipo de fé levaria um homem a assassinar o próprio filho? Ou melhor, que tipo de Deus exigiria uma prova como essa? Em um artigo publicado no Estado de São Paulo, Antonio Cícero, ao tratar desta questão, defende que “longe de ser o fundamento da ética, a fé em Deus é a condição de relativizar a ética”.[6] É bastante famosa também as analises de Kierkegaard sobre essa passagem, e é justamente à elas que Cícero recorre quando quer defender sua tese. Diz, o poeta e filósofo Cícero:

 

[…] do ponto de vista puramente ético, não se justificaria a prontidão de Abraão. Só a fé – superior, segundo Kierkegaard, à ética, por constituir uma relação individual e absoluta com Deus – justifica a atitude de Abraão. Desse modo, graças à religião, a esfera da ética é relativizada pela da fé.[7]

 

E o artigo de Cícero termina com a citação do ganhador do prêmio Nobel, Steven Weinberg, que cabe muito bem aqui. Ou não? “Com ou sem religião, as pessoas bem-intencionadas farão o bem e as pessoas mal-intencionadas farão o mal; mas, para que as pessoas bem-intencionadas façam o mal, é preciso religião”.[8]

E, “se de tudo fica um pouco”, como diz o poeta, fica a dica de leitura, Soren Kierkegaard, Temor e Tremor, que, para aquele leitor que se dignou a ler este texto até aqui, talvez justifique sua leitura.

 

Notas:

[1] HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano, p. 182.

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