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Por Sidnei Vares

 O ônibus trepidava enquanto sua cabeça se chocava repetidamente contra o vidro, ainda que isso não incomodasse seu cochilo. Algumas gotas de suor escorriam por sua testa devido aos raios de sol que invadiam o corredor do veículo e justamente do lado onde ele estava sentado. Foi quando o sono inabalável que o arrebatara se viu interrompido por uma voz que lhe pareceu, num primeiro momento, longínqua, e que se confundia com a música clássica que escutava. – Próximo ponto: Complexo Comercial Nova Era! Disparou o sistema de som do ônibus. Como que despertando de um transe profundo, ele subitamente arrancou os fones de ouvido e levantou se dirigindo a porta de traseira do ônibus. Mas a aglomeração de pessoas e o pouco tempo que tinha para descer no ponto correto o forçaram a descer um ponto adiante. Saiu correndo e deixou cair suas coisas na calçada. Apanhou-as. Olhou o relógio e percebeu que já era 09h15min. Estava quinze minutos atrasado para a entrevista. “Isso não vai pegar bem”, pensou. Apressou passo. Adentrou o saguão do edifício e anunciou ao porteiro eletrônico o motivo de sua presença. – Vim para a entrevista. Pôs o polegar no identificador e teve a entrada autorizada. E ali mesmo ele foi informado sobre a sala a qual deveria se dirigir. Bloco 2, 3° andar, sala 56. Foi repetindo baixinho, para não esquecer, enquanto caminhava para os elevadores. Entrou no elevador e olhando para o espelho ajeitou a gravata. Estava suado. O sensor do recinto marcava 33 graus. – Manhã quente! Disse ele, fitando a moça ruiva que segurava uma pasta entre os braços como se fosse um filho. Ela só consentiu com a cabeça e tornou a olhar para o chão, o que o levou a fazer o mesmo. Enfim, as portas de seu andar se abriram e ele saiu lépido, não sem antes olhar o decote da moça. Voltou a olhar para frente e avistou a sala 56. Um amontoado de gente, quase uma fila, atrapalhando a entrada. Não titubeou. Pediu licença e entrou. A secretária, uma senhora arrumada e de cabelos presos, sentada quase em frente à porta, lhe perguntou: – Veio para entrevista? Seu nome, por favor! Verificou na agenda eletrônica e logo depois voltou a falar: – Tenha a bondade de esperar na fila, já vamos chamá-lo. Por um minuto se sentiu tranqüilo. Não estava tão atrasado quanto pensava. Mas quando deu os primeiros passos para no sentido da fila, a tal secretária voltou a falar-lhe em tom irônico, quase repreensivo: – Está atrasado, mocinho! Continuou seu trajeto, sem se importar. O fim da fila é como o fim do mundo, não chega nunca. Percebeu então que o sujeito da frente vigiava de soslaio a expressão turrona da velha secretária. Talvez alimentasse alguma esperança de ser chamado antes, evitando a desanimadora lógica da fila. Perguntou então ao sujeito: – Veio para entrevista? – Sim, e pelo jeito vai ser concorrida! Disse o rapaz de nariz cumprido, percorrendo com os olhos a extensão da fila, que tinha crescido significativamente nos últimos minutos. Percebeu que os primeiros da fila, dentro da sala da entrevista, estavam sentados. Como a sala era pequena, aqueles que estavam fora não tinham onde sentar, pois só havia cadeiras no interior da sala principal. Bem, só restava esperar. Se na sua retaguarda a fila parecia crescer, a sua frente passou a diminuir. As pessoas iam saindo uma a uma da sala de entrevistas. Algumas cabisbaixas. Outras com sorrisinhos sarcásticos quando passavam pelos esperavam. Enfim, conseguiu chegar à parte de dentro da sala principal e sentar-se. Lá havia uma porção de saletas. Era nesta saleta que a entrevista aconteceria. Olhou para dentro tentando avistar o rosto do entrevistador, mas era impossível. Viu apenas sua mão sobre a mesa. Pensou como seria estar lá dentro. O que será que ele iria lhe perguntar? Não tinha jeito. Ele teria que esperar para saber. Na mesa a frente havia revistas espalhadas. Puxou uma revista para passar o tempo. O destaque da capa era sobre um escândalo político, extravio de dinheiro público. Preferiu não ler. Folheou as páginas. Uma reportagem falava sobre o aquecimento global no século XXI e como a temperatura aumentou nos últimos 50 anos. Algumas páginas a frente outra matéria falava do desemprego gerado pelas novas tecnologias. Robôs que ministravam aulas, dirigiam, atendiam pessoas, etc. “Onde vamos parar”, refletiu. Colocou a revista na mesa e pensou no seu pai. Dizia que na sua época já se falava em desemprego, efeito estufa, corrupção e que também se enfrentava horas na fila ou mesmo ônibus lotados. Nesse ponto nada havia mudado. Passou as mãos da cabeça e respirou fundo. Queria ver-se livre logo daquele lugar. Foi quando a secretária o chamou: – Rapaz! É sua vez. Mas antes tenha a bondade de assinar esses papeis aqui. Ele apanhou uma caneta na mesa, assinou os papeis e caminhou para a saleta das entrevistas. Quando ia entrando foi chamado novamente pela secretária que, desta vez, parecia misturar graça com desdém: – Mocinho, mocinho, você colocou a data errada! Você colocou 1910, estamos em 2010! Você está com a cabeça na lua? Ele então sorriu, apanhou novamente a caneta sobre a mesa e por cima do que havia escrito, forçando a mão, escreveu com letra graúda: 2010.

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