Tags

, , ,

Por Hermogenes Saviani Filho

A maior parte da ficção é baseada em fatos reais, mas em alguns momentos o sinal é invertido. Em 1971, o italiano Elio Petri dirigiu uma das maiores obras primas do cinema político: Investigação Sobre um cidadão Acima de Qualquer Suspeita. No filme, um inspetor de polícia (Gian Maria Volonté) assassina sua amante (Florinda Bolkan) sob alegação de que ela o humilhava com seus comentários enquanto estavam em seu ninho de amor. O personagem não tem qualquer preocupação em apagar suas impressões digitais, aliás, após cometer o crime ele não apenas se dirige ao banheiro para tomar banho como faz questão de tocar nos copos e garrafas com o objetivo de deixar suas digitais registradas. Para finalizar, ele sai naturalmente do apartamento e se deixa ser visto por um morador, que será incriminado pela morte da amante. O motivo de tanta confiança é por que ele está numa posição muito influente, acima de qualquer suspeita, trocando em miúdos seu cargo o coloca na posição em que ninguém ousa denunciá-lo.

A película é uma crítica ao autoritarismo e um alerta contra a censura. Volonté é manipulador, arrogante e utiliza sua posição para submeter seus subordinados, pois todos têm medo de perder o emprego. Elio Petri faz uma metáfora sobre o poder da manipulação, onde pessoas que exercem cargos influentes os utilizam para passar por cima do óbvio ululante.

Lembrei imediatamente desta obra depois de ler o perfil de Ricardo Teixeira, Presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), escrito pela jornalista Daniela Pinheiro para a Revista Piauí (nº 58). O que existe é um poço de arrogância, prepotência, vulgaridade e a certeza de estar acima do bem e do mal. Além dos vários palavrões pronunciados em vários trechos da matéria, o mandatário da CBF ameaça veículos e profissionais da Imprensa que ousam criticá-lo e/ou denunciá-lo. Os exemplos são fartos durante as nove páginas do extenso perfil. Em 2001, durante a CPI da Nike, o Globo Repórter apresentou uma reportagem em que mostrava que a renda de Ricardo Teixeira era incompatível com seu padrão de vida. O que o alcaide da CBF fez: anunciou uma mudança no horário de uma partida do Brasil contra a Argentina. O jogo que seria exibido após a novela das oito foi transferido para às 19h45. “Pegava duas novelas e o Jornal Nacional. Você sabe o que é isso?”, perguntou à jornalista. A Globo, por transmitir a partida, teve um enorme prejuízo por ter que deixar de apresentar anúncios no horário nobre. O moral da história é que a “vênus platinada” parou de apresentar reportagens que desagradassem o mandatário da CBF. A entrevista é perfilada por pérolas do gênero e conclui com a maior de todas: “Em 2014, posso fazer a maldade que for. A maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Porque eu saio em 2015. E aí, acabou.” Este é o homem que preside o Comitê Organizador da Copa do Mundo, que gere o meu, o seu, o nosso dinheiro; pois os investimentos públicos envolvidos no Mundial serão de bilhões de reais, tais como isenções de impostos, contratação de empresas e serviços a toque de caixa – sem licitação – entre outros.

Uma peça de teatro que está em cartaz no Teatro Eva Herz, ilustra bem o que foi escrito nos parágrafos acima. Um Porto para Elizabeth Bishop apresenta o período da vida em que a poeta estadunidense viveu no Brasil, entre 1951 e 1966. O monólogo, interpretado pela excelente Regina Braga, mostra as contradições do brasileiro e do Brasil. Ao mesmo tempo em que a escritora sente repulsa pelo pouco caso do governo em relação às coisas básicas, como saúde e educação e ao descaso da população em relação à política em contraste com a exagerada importância dada ao futebol; Bishop encontra no carinho dessa mesma população e na paisagem do País a tranqüilidade para amar e escrever. A força para superar as idéias de suicídio, o alcoolismo crescente e a autocrítica que a impedia de escrever e se apresentar em público.

A peça é permeada de críticas à nossa elite –econômica e política – que é apresentada como ignorante e sem cultura, bem representada pelo retratado na Piauí. Além disso, fica evidente a locupletação do Estado por parte dessa casta de privilegiados e o amálgama do público com o privado.  Mas, primeiro a acolhida e depois o relacionamento que a poetisa manteve durante 15 anos com a influente arquiteta Lota Macedo Soares é mais uma contradição que existe dentro desse imenso Brasil. No final, mais uma contradição, como um país que tem um povo tão acolhedor banalizou tanto a violência nas últimas décadas?, pergunta Bishop. Na verdade, só responderemos a esta questão quando deixarmos de aceitar passivamente os desmandos, como o do senhor relatado parágrafos acima.                    

Anúncios