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Por Sidnei Ferreira de Vares

[O presente trabalho foi apresentado durante a Jornada Internacional “O mal-estar na cultura: a solidão”, ocorrido em São Paulo-Brasil e em General Del Pico-Provincia de los Pampas na Argentina]

Quero agradecer a organização do evento e também ao convite. É com muita felicidade que participo desta jornada sobre a solidão. Também quero agradecer à recepção fraternal de meus coirmãos argentinos, cuja gentileza e zelo não poderiam passar despercebidos. E, até por conta disso, me comprometo não falar de futebol. Brincadeiras a parte não me sinto nem um pouco sozinho aqui com vocês.

Inicialmente, gostaria de fazer algumas observações a respeito do tema que dá título a essa jornada e pelo qual estamos reunidos. Não sou especialista no assunto e, portanto, é como um profundo desconhecedor da solidão que falo sobre ela. Todavia, penso que isto me dá algumas vantagens. Em primeiro lugar, a vantagem de poder explorar o tema sem sentir-me pressionado pela força da exatidão. Em segundo, a possibilidade de estabelecer relações com episódios da própria vida, onde a solidão é um de seus ingredientes. Todavia, evitarei debater o tema do ponto de vista filosófico-existencial. Conquanto esse seja um viés analítico importante, dispõe de um poder paralisante, à medida que deste ponto de vista a solidão se converte numa condição humana irrecusável a qual todos estamos submetidos.

Afirmar que a solidão é uma condição irrecusável, e de certo modo essencial, é dar uma resposta lapidada, dispensando uma discussão mais plural sobre o tema. Soa mais ou menos assim: “a solidão é uma condição irrecusável e essencial ao humano, e não há mais nada a ser dito a respeito do tema, pois a filosofia já o fez”. Assim, o indivíduo vive e morre só, e não há o que ser discutido.

A posição que sustento está no sentido oposto. Penso que discutir a solidão é possível, ainda que, conforme alertei, não seja a pessoa mais indicada para isso. Porém, pretendo contribuir para essa discussão adotando a perspectiva das relações que se estabelecem entre indivíduos. Com isso, quero dizer que o ponto de partida desta reflexão é o das relações sociais.

Segundo o Dicionário da Academia Brasileira de Letras, a solidão é o “estado de quem está ou se sente só; isolamento”. Já para o Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, a solidão é o “isolamento ou busca de melhor comunicação. No primeiro sentido, a solidão é a situação do sábio, que, por tradição, é perfeitamente autárquico e por isso se isola em sua perfeição. Afora esse ideal, o isolamento é um fato patológico: é a impossibilidade de comunicação associada a todas as formas de loucura. Em sentido, próprio, contudo, a solidão não é isolamento, mas busca de formas diferentes e superiores de comunicação: não dispensa os laços com o ambiente e a vida cotidiana, a não ser em vista de outros laços com homens do passado e do futuro, com os quais seja possível uma forma nova ou mais fecunda de comunicação. O fato de a solidão dispensar esses laços é, pois, uma tentativa de libertar-se deles e ficar disponível para outras relações sociais”.

Como se pode verificar, a “solidão” é identificada com “isolamento” ou mesmo com um estado “patológico”, o que dá ao termo uma conotação francamente negativa. Aliás, não são poucos aqueles que reforçam tal impressão. Basta destacar que para alguns, “a solidão é o mal do século”. Essa expressão, empregada sem muito cuidado, tende a ocultar um ponto fundamental, a saber, a solidão é “uma” condição humana. Notem que utilizei o termo “uma” e não “a” para me referir à condição humana da solidão. Isso significa que a solidão pode ou não constituir uma patologia. Ela é uma das condições possíveis. Não se trata, portanto, de uma condição alienígena ao universo do humano. É claro, porém, que tal condição tem causas que podem variar no tempo e espaço, o que lhe aufere um caráter histórico e social. E, nesse sentido, os antigos talvez lidassem melhor com a solidão do que nós, os modernos.

Hoje a solidão é vista com algum estranhamento. Isso fica mais claro quando pensamos a relação que a sociedade contemporânea mantém com os solitários. Não precisamos ir muito longe. Aquela tia solteira, ou aquele amigo que a despeito dos demais decide ficar sozinho. Mesmo que se considere o fato de que esse tipo de solidão não é o mais radical, ainda assim podemos nos deparar com críticas socialmente construídas ao “solterismo” de um e ao “isolamento” do outro. Fica então a pergunta: por que a sociedade é tão implacável com a solidão?

Longe de querer formular uma resposta definitiva, pode-se afirmar que a solidão é entendida como a negação da própria idéia de comunidade. Para o eminente filósofo grego Aristóteles, “o homem é um animal político”, ou seja, um animal cuja natureza se inclina à vida da pólis (da cidade). Não foi também o “estagirita”, em sua Ética a Nicomâco, quem afirmou que “uma andorinha só não faz verão”, procurando demonstrar que um homem não pode ser julgado por um ato isolado? É claro que os gregos não desvalorizavam a individualidade. Muito pelo contrário. Entretanto, a ideia de que somos seres sociais e estamos naturalmente propensos a viver em contato uns com os outros parece ter sobressaído.

Talvez a tradição cristã nos forneça algumas pistas sobre o tema. Vejamos uma das passagens mais conhecidas das sagradas escrituras, a parábola de Adão e Eva. Aqui, a solidão aparece como a negação da felicidade. Afinal, Adão, primeiro homem criado por Deus, habitava o paraíso. Ora, existe um lugar mais propício à felicidade do que o paraíso? Todavia, Adão era infeliz, e sua infelicidade, percebida por Deus, só foi parcialmente solucionada quando este cria Eva, sua companheira, o que, como todos nós sabemos, fez crescer os problemas de Adão. Porém, a moral da história é simples: o paraíso sozinho não tem graça, com o outro pode se tornar um verdadeiro inferno. Ideia esta que Deus não deixa de difundir através de seu “crescei-vos e multiplicai-vos”. Talvez, disso resulte o famoso ditado popular: “antes só do que mal acompanhado”. Pena Adão não tê-lo escutado antes de conhecer Eva, certamente permaneceria sozinho. Em suma, a solidão de Adão foi resolvida, mas a convivência com o outro lhe trouxe outros pesares, pois, como diria Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”.

Então, o que é a solidão? Penso que é um estado, que pode ser físico ou espiritual – ou até incluir a ambos –, desencadeado por fatores variados. Se tivesse que dar uma resposta, ainda que inconclusa, faria a partir da relação indivíduo-sociedade (que me é mais próxima em virtude da relação que tenho com a sociologia).

É, nesse sentido, que proponho de maneira despretensiosa e inconseqüente uma “tipologia” da solidão. Penso que a solidão pode ser de três tipos: (a) a “voluntária”; (b) a “circunstancial” (c) e a “relacional”. Em todos esses casos, encontramos variações. Elas podem ser “parciais” ou “radicais”. Vejamos como isso ocorre.

A solidão “voluntária” se dá por livre escolha. O indivíduo deseja ficar só, ou seja, não viver ao lado de mais ninguém ou estabelecer o mínimo de relações possíveis com o (s) outro (os). Pensemos no seguinte. Esse tipo de solidão pode ser “parcial” ou “radical”. Parcial é a condição daquele que decide se afastar do (s) outro (os) por um período calculado de tempo. Posso querer tirar “férias” do (s) outro (os), e sei que isso não durará mais do que o necessário. Mas existe também o caso daquele que quer viver só, como o personagem de Burt Lancaster no belíssimo filme de Visconti “Violência e Paixão”, cujo exílio consentido é interrompido por vizinhos que se mudam para o apartamento acima do seu. Ou mesmo pensar no personagem do filme dirigido por Sean Penn, “Na Natureza Selvagem”, em que um adolescente, Christopher, decide viver sozinho como um andarilho. Nesses dois casos, a solidão é uma opção, porém, radical.

Agora passemos ao segundo tipo, a saber, a solidão “circunstancial”. Aqui existem fatores que muitas vezes não são desejados, mas que influem na solidão do indivíduo. Assim como no primeiro exemplo, a solidão circunstancial também apresenta nuances. Posso ficar parcialmente só, por exemplo, em virtude do isolamento momentâneo a que fui submetido, retornando à vida normal assim que possível tal como a personagem de Juliette Binoche no filme “A liberdade é azul” de Kieslowsky, onde, após a perda do marido e da filha num acidente automobilístico, Julie passa por um momento de reclusão no qual enfrenta o peso da própria liberdade. Mas posso ficar radicalmente só (o que é mais difícil de acontecer), por conta de um acidente que me isolou numa ilha, tal como Tom Hanks, no filme “O Naufrago” e, nesse caso, dependente da fortuna para retomar ao curso normal da vida. Nesses dois exemplos, a solidão não foi calculada ou mesmo desejada, mas resultado de circunstâncias específicas e dramáticas que escapam a volição individual.

Há também o terceiro e último tipo de solidão a qual chamei de “relacional”. Este tipo deve-se, sobretudo, à incapacidade de algumas pessoas, por fatores que não cabem ser aqui discutidos, de se relacionar com outras. Por vezes, o temperamento difícil ou a timidez excessiva coloca o indivíduo em situações de solidão.

Toda essa descrição visa apenas demonstrar que a solidão faz parte da vida humana. Não acredito, apesar de admirar seu trabalho, que Tom Jobim tenha razão quando diz que é “impossível ser feliz sozinho”, embora não duvide que para algumas pessoas solidão em demasia possa acarretar tristes conseqüências, como na música “Um homem chamado Alfredo” de Vinícius de Moraes.

É nesse sentido que falo em solidão como expressão do individualismo. Embora algumas circunstâncias possam determinar um momento solitário mais ou menos intenso, independente de minha vontade, também posso escolher a solidão e, neste caso, ser solitário não deixa de expressar certa condição experiencial que me põe em conexão com o outro, por mais paradoxal que isto possa parecer. Ao escolher a solidão, me comunico silenciosamente com aqueles que me cercam.

Num mundo caracterizado pelo voyeurismo e pelo alcance das comunidades virtuais, parece incoerente se falar em solidão. Contudo, um alerta: a solidão não é a mera ausência do outro, mas também um estado de espírito, ou seja, passa pela maneira como cada um percebe o mundo e a si mesmo no mundo, o que explica a sensação de solidão do indivíduo que vive rodeado de gente por todos os lados. Seus efeitos, esses sim, são um problema para o homem contemporâneo.

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