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Por Sidnei Vares

Tenho uma razoável biblioteca em minha casa. Embora nunca tenha catalogado os exemplares ou mesmo contabilizado o número de livros. Na verdade, gosto de misturá-los. Acho que é inconsciente, mas gosto de revirá-los, vez por outra, e ficar irritado ao não achar aquilo que está bem de baixo do meu nariz. Entre as estantes, fotos de intelectuais decoram os livros. Sartre, Durkheim, Marx, Piaget e Freud. Não sei o motivo exato, mas gosto de todos eles. Claro, cada qual ao seu modo. Desconfio que sei a resposta. Durkheim se opôs ao egoísmo típico dos utilitaristas. Marx denunciou a exploração da classe burguesa. Freud demonstrou o quão pouco sabemos sobre nós mesmos. Piaget, mostrou como o indivíduo se desenvolve. E Sartre, esfregou o peso da liberdade em nossas ventas. Claro, não acho que o mundo das ideias se resuma a estes pensadores.  Devo, contudo,  reconhecer que sempre os admirei. Quanto a mim, sou um mero leitor. Curioso e ignorante. Mas, voltando a minha biblioteca (singela se comparada a do falecido José Mindlin), gosto de admirar o colorido mosaico que se forma  com as diferentes capas de livros. Sempre em constante transformação, à medida que a disposição se altera. Gosto de espaná-los, com meu espanador de cabo longo. E, de vez em quando, subir na escadinha que guardo atrás de uma poltrona para apanhar os livros que ficam no alto da estante. Às vezes volto meu olhar para estante e a contemplo, como um todo, com enorme satisfação e um sorriso infantil no rosto. Fico tentando calcular o tempo que demorei para adquirir cada um dos volumes. Anos e anos, sei disso. A maioria foi compra. Pagamento à vista ou  no cartão. Uma parte foi presente. A outra parte esqueci completamente, talvez empréstimos. A memória falha às vezes. O importante é que os tenho e pronto. Certa vez – não sei quem disse isso -ouvi o seguinte: se  você quer ter uma boa biblioteca não deve emprestar seus livros, mas também nunca deve devolver os que pediu emprestado. Sábias palavras! Quantos livros perdi depois de emprestá-los? E, mesmo assim, continuo com essa prática. Penso que a cultura existe para ser difundida e não trancafiada. Coisa de professor. Contudo, admito que cultivar uma biblioteca não é a coisa mais fácil do mundo. Outro dia um colega me chamou de “ultrapassado”. Mostrou-me seu ipaid, seu e-book, e disse-me que carregava uma verdadeira biblioteca naquele aparelho. Abriu um livro para eu ver. Passou as páginas, dedilhando com desenvoltura o bichinho. Perguntei-lhe quanto custava.  Segundo ele, menos do que paguei para mandar fazer as estantes, ocupando, como fez questão de ressaltar, muito menos espaço. Confesso que me senti envergonhado. Velho, antiquado. Mas logo lembrei dos passeios que faço todos os dias com meus livros. Claro, um ou dois, por vezes três, debaixo do braço. Depende do dia. Literatura, filosofia, sociologia ou história. De acordo com meu humor (e o deles também). E o cheiro! Sim, o cheiro de cada um deles (pois cada um tem um cheiro). As páginas amarelas de uns e as brancas, alvas, de outros. As capas opacas, brilhantes, rasgadas, emendadas, duras, moles ou simplesmente sem capa. E a personalidade, onde fica? Cada livro tem uma personalidade. Disse isso ao tal colega, ele riu. Sinto quando um livro quer ser lido. Eles olham, afixam de tal modo o olhar que é impossível recusar. Os menorzinhos ao lado dos grandes parecem filhotes carentes, indefesos. Fico com dó. Os grossos parecem autônomos. Os dicionários são tão imponentes, donos de si. E as coleções, são como grandes famílias. Caetano, numa música chamada “livros”,  diz que “os livros são objetos transcendentes, que podemos amá-los do amor tátil que votamos aos maços de cigarro. Dominá-los, cultivá-los em aquários, em estantes, gaiolas ou fogueiras, ou jogá-los para fora das janelas”. É verdade. Eu, particularmente, prefiro que fiquem confortavelmente em minhas estantes. No máximo, na minha mesa. Adoro tocá-los, dedilha-los, enfim. Folhas secas são tão charmosas dentro de um livro! Adoro encontrá-las. E as referências de um antigo dono? Nome, ano. A quem pertenceu? Que estudava? Qual seu interesse quando começou a lê-lo. Essas histórias certamente dariam outro livro. Pensei em tudo isso. Ele insistiu e perguntou se não estava interessado em comprar um ipad. Com num estalo, lembrei do livro que estou lendo sobre Guantánamo, e disse-lhe que não. Imaginei o meu acervo encarcerado ali, naquele aparelhinho. Definitivamente, sou contra a prisão.

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