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Por Rodrigo Manzano

Estamos às portas do início de outro ano letivo, e com o advento da abertura das aulas, sempre surgem as diversas discussões sobre a qualidade da educação no Brasil. Como professor da rede pública do Estado de São Paulo, sempre nessa época somos tomados pela discussão sobre índices de Saresp e similares que apontam o rendimento da escola e quase que religiosamente a responsabilidade sobre o sucesso ou o fracasso, sendo este segundo muito mais característico na atual conjuntura, recai sobre nós professores. Porém, até hoje, uma discussão realmente séria sobre educação no Brasil ainda não foi feita, de forma especial levando em consideração as opiniões daqueles que estão na linha de frente, ou seja, os professores.

A atual geração de estudantes, geração esta que nasceu na segunda metade da décade de 90 pra cá, é chamada de geração Y! Tal geração foi marcada por ter acesso ao conhecimento e á informação, pois praticamente nasceu com o acesso à internet disponível dentro de suas casas. Em um simples clique, sites abordando qualquer tipo de assunto podem ser encontrados e, segundo essa visão utópica, já a escola não teria o mesmo papel que teve há 20, 30 anos atrás. A função da escola hoje não seria passar conteúdos, pois estes seriam encontrados facilmente. Cabe aos professores serem muito mais mediadores do processo de aprendizado do que simplesmente transmissores de conhecimentos. Tal visão é importante e não retiro sua importância, porém, isso traz uma série de consequências que estão levando cada vez mais a educação a uma situação insustentável, sem que ninguém analise com seriedade que tal assunto precisa.

Exige-se dos professores hoje criatividade, saber lidar com tecnologias, fazer com que as competências e habilidades de sua disciplina sejam passadas para os alunos de uma maneira contextualizada, fazendo ter valor e significativo para o mesmo. A pergunta que se faz após esse cenário todo que foi exposto é: até que ponto esse tipo de educação tem dado certo atualmente? Como já foi dito, um verdadeiro caos educacional tem se visto atualmente! As políticas educacionais quem têm sido implementadas em todo o Brasil nem de longe fazem com que o aprendizado se torne algo válido. Pelo contrário, o que se percebe é que as teorias educacionais que tratam o aluno como sujeito de seu processo de aprendizado são aplicadas de uma maneira bastante defasada, diria aqui, e peço desculpas até pela expressão, de uma forma bem porca, que nem de longe ajudam a construir uma educação de qualidade. Juntamos ao mesmo tempo a imaturidade dos nossos alunos, que muito pouco aproveitam desse cenário, com uma política educacional mal aplicada.

Sabemos que nossos alunos são menores, ainda não têm a responsabilidade e a maturidade totalmente desenvolvidas, e que acabam sendo fruto de uma cultura que muito pouco valoriza a educação e o aprendizado. Porém, o processo educacional ao qual estão sendo submetidos, principalmente quando levamos em consideração a tão famigerada “progressão continuada”, nem de longe ajuda o aluno a desenvolver essas características tão necessárias ao seu desenvolvimento rumo à idade adulta. Usamos como argumento “o aluno precisa gostar de aprender” “o processo de aprendizagem precisa ser agradável” “cabe ao professor inovar e levar o aluno a gostar de sua matéria”. Lamento, mas esse tipo de argumento, pelo menos a mim, não me convence. Posso até concordar que uma aula criativa atraia os alunos, que recursos tecnológicos podem inovar, mas, não são tudo o que um aluno precisa. Há momentos sim que o aluno precisa de uma aula tradicional, pelo menos nos moldes em que vivemos de educação, com cerca de 40 alunos em sala e com uma gama de assuntos a serem tratados em cada disciplina, não dá pra ficarmos só em aulas totalmente criativas, com seja lá qual for o método que o possa agradar o aluno.

Tenho pouco tempo de experiência como professor, afinal, leciono há dois anos. Já usei vídeos de comédia, letras de músicas, poemas e outros textos, além de filme hollywoodiano, pra tornar minha aula mais atrativa. Deram certo, porém, sabendo fazer a relação necessária com a teoria. Não nego que minha disciplina facilita um pouco essas coisas. Mas no decorrer de um ano, se cheguei a fazer isso 10 vezes foi muito. Na maioria das vezes, a aula foi expositiva, usando de métodos tradicionais, e ainda assim alcancei meus objetivos. Não quero dizer com isso que sempre consigo meus objetivos. Pelo contrário, muitas vezes, mesmo usando de métodos “modernos” os  objetivos nem de perto foram alcançados.

O que quero dizer com tudo isso é que o problema no Brasil é cultural. Somos um país, lembrando aqui a classificação feita por Immanuel Kant, extremamente heterônomo. Só fazemos o que é certo se há uma lei que nos obrigue de alguma forma, e mesmo assim, com algumas ressalvas. Só pararmos pra pensar na tão polêmica Lei Seca, que reduziu acidentes de trânsito não porque deu consciência aos motoristas, mas sim porque as pessoas têm medo de serem pegas em uma blitz. Se isso ocorre quando temos em mente que o que está em jogo é a vida, quem dirá a educação? Queremos que nossos alunos estudem porque eles vão ter consciência de que é para o futuro deles! Lamento, mas a maioria dos nossos adolescentes mal tem alguma perspectiva sobre seu futuro. Num país em que se veem pessoas sem estudo sendo admiradas por serem excelentes atletas, de forma especial representantes da paixão nacional, o futebol, ou até mesmo ocupando cargos do poder público, a educação já deixou há muito de ser vista como fator de ascensão social. E o que é pior, pois o real motivo de uma educação de qualidade, que deveria ser a formação completa do futuro cidadão, esse nem de longe passa pela cabeça de nossos alunos, os representantes dessa geração Y, uma geração de pais despreparados, pois o que mais ouvimos hoje são os pais dizendo que não sabem o que fazer com seus filhos, que não são obedecidos e por isso acabam por fazer todas as vontades desses mesmos filhos, que vão às escolas sentindo-se invulneráveis, pois sabem que aquilo é necessário, mas que não lhes exige nenhuma responsabilidade, afinal, pra que estudar? Corremos um grande risco, pois os pais já não estão conseguindo dar responsabilidade alguma a estes jovens e o Estado, a partir desta situação, também está falhando nesse aspecto, afinal, o papel da escola, que deveria ser o de formar o cidadão, nem de longe está sendo cumprido. Nossas escolas tornaram-se, com o perdão da expressão, depósito de alunos, mas nem de longe são centros de aprendizado e cultura.

Quero terminar deixando claro que não sou nenhum defensor da palmatória ou de estruturas “panópticas” lembrando aqui a análise feita por Michel Foucault, para a educação. Porém, estamos vivendo um momento exatamente oposto ao que Foucault criticava em meados do século passado. O lema “é proibido proibir” entrou na educação como um jargão, e é sim, um jargão deletério. Os primeiros frutos dessa geração Y estão sendo colhidos, pois são as pessoas que estão saindo de nossas escolas nesses últimos anos! Encerro pegando os mesmos índices, pois ao fim do ano passado, os índices do Enem mostraram o como a educação está fragilizada, deficiente, em nosso país. Talvez esteja mais do que na hora de tentarmos uma síntese, vendo o que de bom teve na educação tradicionalista do passado, afinal, se ela foi tão ruim, por que temos tantos médicos, professores, advogados, engenheiros, entre tantos outros profissionais, de excelente sucesso e talento profissional? Será que as próximas gerações terão a mesma capacidade, a capacidade de substituir os profissionais e cidadãos que viveram até agora? Ou será que cairemos em um verdadeiro ocaso graças aos frutos da tão renovada educação, que quer apagar a mancha da escola tradicionalista, mas que até hoje ainda funcionou? Tantas perguntas e cabe a nós responde-las, porém, com atitudes.

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