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Por Rodrigo Manzano

Há alguns dias, folhava uma dessas revistas de grande circulação e a mesma trazia uma reportagem sobre o crescimento de protestos nos espaços públicos. De forma especial, manifestações na principal avenida da cidade de São Paulo pipocaram nos últimos tempos. Vemos desde causas justas, como a luta contra a corrupção e a exigência de transparência nas contas públicas, até causas que eu diria no mínimo polêmicas, como a luta pela legalização da maconha, algo que não representa propriamente um bem comum ou algo que trará benefícios à sociedade como um todo.

Na verdade, percebemos que os grupos se articulam e protestam de acordo com seus interesses, mas tal organização me leva a questionar se esses protestos realmente trazem algum caráter de mudança, levam a alguma reflexão crítica, ou se os mesmos hoje não passam de uma forma de “desencargo de consciência”, no qual aqueles que os organizam acreditam fazer algo pela sociedade, mas que na verdade acabam só por representar seus próprios interesses, e o pior, sabemos que muitos desses protestos reúnem uma massa que mal sabe contra o que está protestando e que vai ao “evento” apenas para poder sair da rotina, e quem sabe até curtir formas de manifestações como churrascos, farras com instrumentos musicais entre outros atos que levam a questionar a eficácia do protesto.

O assunto do momento é a polêmica lei SOPA (Stop Online Piracy Act) que tramita no congresso norte americano e que visa colocar limites ao acesso da população em geral aos conteúdos que a internet disponibiliza, de forma especial aos serviços de download de arquivos como músicas, filmes, livros, entre outros. Tal possibilidade tem deixado pessoas revoltadas ao redor do mundo, e a ação de hackers visando protestar contra a tal medida tem se tornado um dos principais assuntos trazidos pelos noticiários, sendo que os mesmos invadem sites das mais diversas empresas, bem como do próprio governo norte americano, criando uma espécie de “vingança” por terem perdido um dos maiores benefícios que a internet nos trouxe, a possibilidade de acesso a arquivos de forma rápida e sem custo. O cenário exposto até aqui é bem interessante, e obviamente, como professor, eu mesmo já me beneficiei dos serviços de download disponibilizados pela internet. Baixar livros para utilização em sala, ou mesmo para leitura pessoal, ou mesmo o download de músicas e vídeos, seja para uso didático ou para uso pessoal, é um benefício que agrada a todos. Porém, ao abrirmos qualquer rede social nesses dias, vemos uma verdadeira revolta generalizada e não esclarecida, por parte das pessoas. O que eu vi de bobagens escritas pelas pessoas quando se fala sobre a lei SOPA, só nos revela a falta de consciência política da população, assim como um verdadeiro protesto digno de “rebeldes sem causa” no qual ninguém vai às verdadeiras causas que levam a situações como estas, ou a questionamentos mais profundos, sendo que o que está por trás de tudo isso é o espírito capitalista, o mesmo que leva às diferenças sociais, aos casos de corrupção e à toda a falta de infraestrutura do qual somos vítimas, de forma especial em nosso país.

Em primeiro lugar, falando das bobagens que eu dizia ter lido em redes sociais, vi muitas críticas ao governo brasileiro, de forma especial ao nome da presidenta. A falta de consciência dos internautas já começa daí, afinal, como foi dito acima, o problema se encontra nas mãos do Estado Norte-Americano. Se fosse para ser organizado um protesto contra algum governo, o alvo deveria ser Obama e seus congressistas, e não Dilma, seus ministros e a Câmara Brasileira. Por mais erros que a política brasileira tenha, por mais que nossos governantes promovam ações que só tragam benefícios a eles e que por consequência prejudiquem a população, como aumentos exorbitantes de salários, benefícios a banqueiros, políticas que fingem promover a educação, a saúde, o emprego, nesse caso, o governo brasileiro está isento de culpa. É muito recorrente reclamações deste tipo na boca da população, na qual se acusa uma esfera do poder público que pouco ou nada tem a ver com o problema em questão. Só mostra o quanto o brasileiro é alienado ao se falar de política.

Em segundo lugar, o que está por trás das reclamações das pessoas que criticam tanto o SOPA, o porquê de tal situação trazer tanta indignação. As pessoas usam muito o argumento de que querem uma internet livre, querem livre acesso aos conteúdos e que tal medida cerceia nossa liberdade. Só que no fundo, tal situação traz tanta polêmica porque interrompe uma diversão pessoal. Pergunto-me quantas das pessoas que reclamam da medida realmente fazem download de informações importantes, ou se no fundo, o problema não seja a interrupção da aquisição de arquivos para unicamente uso pessoal. Daí, percebemos o quanto a causa é egoísta. Além do mais, esquecemos o histórico propriamente dito da internet.

Nascida no contexto da Guerra Fria, seu único objetivo era servir os interesses da grande potência ocidental capitalista na promoção dos valores do capital. Quando ela passa a ser sinal de compartilhamento de arquivos de forma gratuita, não precisa ser grande conhecedor das estruturas capitalistas para perceber que isso contraria a lógica do mercado. Ou seja, a internet que nasce para os interesses capitalistas, e que se firmou como uma forma de acelerar as relações financeiras e comerciais, acaba por tornar-se algo totalmente contrário a esses interesses. Obviamente que isso não duraria por muito tempo. Na verdade, o interesse do Estado americano é garantir que empresas que trabalham com algum tipo de direitos autorais não saiam prejudicadas devido aos downloads gratuitos considerados ilegais. Posso até considerar que realmente seja um abuso do Estado Norte Americano querer controlar a internet desta forma. Porém, da mesma forma que considero tal ato um abuso, considero também um abuso sermos bombardeados todos os dias por séries norte americanas, os, como diria Renato Russo, “enlatados de USA”, que só promovem o tão fascinante “american way life”. Assim como considero um abuso que as tropas americanas estejam há mais de 10 anos intervindo nos assuntos do Oriente Médio apenas querendo explorar petróleo, usando como pretexto a história de que se precisa implantar a democracia para o desenvolvimento nesses países. Assim como considero abuso, se voltarmos no tempo, o forte patrocínio que os norte americanos deram às ditaduras militares na América Latina buscando evitar a implantação de regimes supostamente socialistas, não sendo poucas as mortes que tal promoção yankee acabou gerando.

Assim, o problema é a face selvagem do capitalismo, que é colocada em primeiro lugar, e o ser humano, nesse sistema, torna-se apenas um mero instrumento, um objeto nas mãos das empresas que querem enriquecer às custas do consumo. E o protesto por parte dos internautas revoltados só revelam o quão forte ainda se encontra a ideia de fetiche da mercadoria, tão forte no pensamento do velho Marx, e que é viva na mente de uma sociedade consumista.

Desta forma, o que se percebe no protesto e na revolta daqueles que não aceitam a lei SOPA é apenas uma revolta individualista, algo que chega perto de uma “birra de criança” que se sente lesada por ter seu brinquedo retirado. Por que que ao invés de nos pronunciarmos tão veementemente contra a restrição a sites e downloads, não nos pronunciamos contra esse capitalismo que oprime e que segrega milhões de pessoas no mundo todo? Por que não buscamos construir uma sociedade mais solidária, inclusive como forma de se opor a esse capitalismo ferrenho? Por que não buscamos sair do individualismo que coloca as coisas como mais valorizadas do que as pessoas?

Nossa revolta pela restrição aos sites deveria ser muito menor do que nossa revolta pela falta de infraestrutura para toda a população, de educação e moradia de qualidade, entre tantas outras mazelas que o capitalismo e a lógica de mercado geram em todo o mundo. Porém, parece que o ser humano perdeu a sensibilidade ao seu próximo, e realmente se “maquinizou” sendo que o revolta mais sua perda de contato com as máquinas do que com os outros seres humanos.

É triste, se olharmos tal situação mais criticamente, o nosso egoísmo e mesquinhez diante de uma causa tão séria. Voltamos aqui ao começo do artigo. O individualismo nos protestos. Podemos ver claramente como o ser humano ficou de fora nos interesses de muitos dos protestos e revoltas. O que se está por trás é o interesse pessoal, o que me agrada. São coisas como estas que nos levam a perceber o quanto nossos protestos estão aquém das lutas das décadas anteriores. Lutávamos, ou melhor, lutaram, pois não vivi a época das lutas contra a ditadura militar, por verdadeira liberdade. Uma liberdade plena, que envolvia também melhores condições de vida para a população em geral. Hoje nos esquecemos dessa vertente da liberdade, e falamos de liberdade de um ponto de vista individualista. Assim, falamos de liberdade de acesso à internet. Mas será que realmente, na internet, temos acesso livre a tudo o que queremos?

Eli Pariser, um ativista americano, fez um estudo sobre os sites que acessamos, e percebeu um forte controle por parte da internet ao que queremos ver. Seu vídeo sobre o “Filtro bolha” circula na internet, e nos faz lembrar a filosofia foulcautiana, nos mostra o quanto é ilusória essa ideia de liberdade, principalmente relacionada à internet. Talvez só poderemos levantar a bandeira da liberdade quando junto a ela podermos levantar a da solidariedade. Para isso, precisamos vencer o individualismo que nos cerca, que corrói a humanidade. Ou então, vamos continuar preocupados porque não poderemos mais baixar capítulos de nossas séries preferidas enquanto nas ruas próximas de casa, pessoas passam fome e isso não nos comove.

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