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Por José Renato Polli

“Respeitar as opções do outro é uma das maiores virtudes que um ser humano pode ter. As pessoas são diferentes, agem diferente e pensam diferente. Prefira tentar compreender à julgar!” (Florestan Fernandes)

Como reza a boa antropologia, o respeito à diversidade cultural, ao direito à opinião própria, são basilares para uma postura humanista. Mais que isso, trata-se de uma premissa ética. Ser humanista é tentar se desvencilhar de nossos preconceitos quanto ao que vemos e percebemos no outro. Se ele nos parece estranho em muitos aspectos, talvez tenha também algo (o que não nos agrada) que pode servir à nossa reflexão.

A psicanálise indica que o que falta no outro (ou em nós) é o que nos move para construir algo. Ater-se criticamente a uma análise, sempre subjetiva, não significa incorrer no delito intelectual e moral do assoberbamento.

Como dizia Nietzsche, não há fatos, somente interpretações.Contrastes e oposições entre formas de pensamento sempre haverá. No entanto, não podemos nos furtar à obrigação de refletir, com o auxílio da história e da ciência, sobre nossas ideias, nosso modo de ver as coisas. Como diz o filósofo: todo ponto de vista é a vista de um ponto. Fico me perguntando sobre o que é, afinal, ser cristão. E o que é não ser?

Costumo dizer que Cristo não era cristão. Sim, Cristo era praticante da religião judaica. A incitação à postura arraigada não é uma característica presente em Cristo (mesmo que Ele tenha se permitido condenar com veemência os abusos cometidos em nome da religião), somente nos humanos. Desde o início, os apóstolos disputavam entre si a quem caberia a conversão. Uma tendência judaizante a atribuía apenas aos seus concidadãos. O apóstolo Paulo defendeu a expansão do espírito cristão para todos: judeus ou gentios.

Essa tendência prevaleceu, afinal todos somos iguais diante de Deus. Falhos e, quem sabe, com algum potencial para o bem. E o que é o bem?Centenas de filósofos, desde Aristóteles, se debruçam sobre a análise acerca dos fundamentos da ética. Sobre a possibilidade de uma razão ou princípio que embase o significado do bem. Segundo Aristóteles, a ética e a política tem como fundamento a busca do bem comum.

Ao longo da história da Filosofia, surgiram as mais diversas correntes de pensamento ético.Hoje, o principal filósofo vivo, Jürgen Habermas, defende a possibilidade da escolha racional intersubjetiva de valores. Uma utopia, diriam alguns, uma ética para depois. Paulo Freire defendia a ética universal do ser humano, fundada no princípio da justiça social, no aqui e agora. Estudos teológicos colocam sob suspeita a intenção de Jesus em fundar uma instituição religiosa.

A tradição cultural se encarregou de fazer esse serviço. E ser cristão, o adepto das mensagens do evangelho, veio com a perseguição arquitetada pelos romanos. Inacreditavelmente esse o termo virou um rótulo e acabou se tornando algo oficial quando a igreja católica se romanizou. A eclésia, assembléia dos crentes, perdeu lugar para a dimensão hierárquica. A comunhão fraterna foi substituída pelo combate aos infiéis, mesmo que nas origens o cristianismo tivesse como fundamento o amor ao próximo.

Ser fiel ou infiel dependia do que a hierarquia definia. A diaconia como serviço, perdeu lugar para o bispado, o presbiterado. O sagrado passou a ser controlado, não compartilhado. A horizontalidade do serviço espiritual foi substituída pela verticalidade do poder clerical. A dualidade corpo-alma, acabou restringindo uma visão holística sobre o fato de compormos um mundo física e espiritualmente holístico. As questões morais e seu controle individual ocuparam o espaço da vivência comunitária, centro de todo ato de correção fraterna. O foro privado da fé alçou o “top of the list”, em detrimento das relações amorosas entre os crentes e não crentes.

A inquisição e o “atirar a primeira pedra”, foi a gota dágua para que a igreja se perdesse temporariamente em seus princípios. Fruto de um contexto de época. Prevaleceu uma tradição católica que tem seus méritos culturais, já que a história é um processo aberto, cheio de contradições. Mesmo em ambientes mais fechados, arejamentos à liberdade podem subsistir. Estando a serviço dos reis e rainhas, da propriedade feudal e do controle da fé, a hierarquia católica se afastou do povo que crê. Os pobres sequer adentravam ao recinto das catedrais. Mesmo que muitos tenham denunciado esse engodo, como o inigualável Francisco de Assis, o que prevaleceu foi o tilintar dos cálices dourados em que o sangue de Cristo seria bebido, enquanto a massa campesina morria na tenra idade. A quantidade de ouro existente em um mosteiro, representava a proporção da presença de Deus em seu espaço. Ser bispo ou abade era sinônimo de nobreza. A cultura, a filosofia e a própria teologia foram submetidas ao controle hierárquico. Alguns escaparam, por pouco (Galileu, por exemplo), outros não (Giordano Bruno, por exemplo).

Nem mesmo a Reforma Protestante, enigmaticamente, conseguiu dar conta de incorporar o espírito cristão original. Martinho Lutero apoiou o massacre de camponeses revoltosos liderados por Thomas Munzer (com todos os reparos que se possa fazer a esse teólogo protestante). Calvino arquitetou a tese da predestinação e deu contornos ao que Max Weber chamaria de ética protestante e espírito do capitalismo. Por vias diferentes, líderes católicos e protestantes assumiram o andar de braços dados com o poder econômico.

É bom que se faça justiça, ao menos temporariamente, já que a igreja católica condenava a usura. Em parte pelo princípio da luta contra a exploração capitalista, mesmo que, por outro lado, fosse uma poderosa senhora feudal e beneficiária de outra exploração.

Após a modernidade, bastou um esforço intelectual para que a humanidade acordasse do sonho capitalista e lá estava a tendência hierarquizante a “denunciar” o ateísmo do socialismo. Leão XIII teve o mérito de ser o primeiro papa a denunciar as condições dos operários na Encíclica Rerum Novarum, em 1891. No entanto, defendia a propriedade privada e condenava o socialismo, referindo-se aos males do capitalismo, dizendo que “os socialistas, para curar este mal (a condição operária degradante), instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para – os Municípios ou para o Estado”. Não dá para deixar de mencionar uma cena do filme “O Nome da Rosa”, em que William de Baskerville, ao perceber que os frades do mosteiro jogavam restos de comidas aos campesinos diz: “uma generosa doação da igreja aos pobres”. Uma interpretação equivocada sobre a luta de classes (instigada pelo socialismo) não possibilitava perceber que Marx apenas tratava de constatar uma realidade, o ódio já existia e era alimentado pela religião, precisava ser eliminado com o sonho socialista. Leao XIII pregava a via da conciliação entre classes, vendo os conflitos sociais na mesma perspectiva da antiga tradição social católica: a desarmonia é apenas fruto do desamor, da ganância. Tão somente. Esquecia-se, por razões óbvias do momento histórico em questão, que o cerne de toda desigualdade econômica é o controle da propriedade privada. Enredava-se pelo discurso moral, que a doutrina positivista alardeava em fins do século XIX.Uma fraternidade universal só seria possível dentro dos muros da propriedade privada e o socialismo já nascia condenado por interpretações frágeis que se empregaram ao significado da crítica marxista. Marx nunca condenou a religião em si, mas seu uso social em função de interesses das classes dominantes, colocando-a como um dos elementos da superestrutura. A “ditadura do proletariado”, foi uma “brincadeira” feita pelo filósofo alemão para se referir ao direito democrático das massas ascenderem ao poder (e, diga-se de passagem, pelas vias normais) e ajudarem a suprimir as diferenças sociais pela base. O que foi feito com a doutrina marxista nos países do leste europeu é uma outra história. O próprio Marx, prontamente, contestou as interpretações que foram feitas de seus postulados.

Mais tarde, a igreja progressista perceberia que o socialismo poderia ser relido, aproximado às causas evangélicas. O Vaticano viu desvios doutrinários onde parte dos membros da hierarquia percebia benefícios críticos e elementos para reflexão sobre o uso que se faz da fé e das causas evangélicas em favor da opressão. Não bastou o alerta dado ao jovem rico, não bastaram as admoestações para dar a César o que é de César, não bastou o desapego do pequeno Zaqueu como lição. Não bastou a fala de Jesus, sua denúncia contra a ganância dos ricos, sua denúncia à oficialização da religião, seu uso e controle por parte dos sacerdotes judaicos. Claro, ele tinha amigos bem sucedidos, como Lázaro. Mas houve a demonstração de que estar ao lado do evangelho, pode significar estar ao lado de uma causa: a causa dos desvalidos. Esquecendo-se dos mais basilares princípios do discurso evangélico, “cristãos autênticos” (que nunca alimentaram o ódio entre as classes) enriqueceram a custa da servidão, da escravidão e da exploração capitalista, com o beneplático, até recentemente, do discurso oficial da igreja. A religião católica foi utilizada para colonizar, desclassificar, menosprezar, doutrinar, converter de forma proselitista, povos e nações inteiras, sem o menor drama de consciência. Índios e negros eram considerados inferiores.

No Brasil, não bastaram as denúncias feitas por religiosos comprometidos com o evangelho durante o período colonial. Mas, como dizia um amigo sacerdote (Padre Paulo André Labrosse): onde falta a consciência humana, age o Espírito Santo. Como diz o antigo testamento, onde falham as lideranças religiosas, age Deus. E vieram mudanças, tardias e efêmeras, mas vieram. O Vaticano II, Medellín, Puebla, a Teologia da Liberação e a opção preferencial pelos pobres. O cristianismo se aproximava, por vias clandestinas, sem a total aprovação do Vaticano, do discurso socialista.

A igreja latinoamericana sinalizava para a necessidade de aliar fé e luta social, a obrigação do povo de Deus se engajar nas fileiras da cidadania. Ao mesmo tempo aconteceram muitos problemas no Brasil e em vários países do continente. Vieram as ditaduras. O Vaticano II ainda não fazia eco (e creio que não faz hoje, lamentavelmente). As Conferências de Medellín e Puebla tardaram a lograr êxito, especialmente no Brasil, por força de algumas tendências católicas que tentavam, desde o início do século XX, operar pela via da direita no movimento social, sindical e no meio educacional.Foi o caso da Ação Católica até meados da década de 60.[1]

A herança política da República Velha, da Era Vargas, do desenvolvimentismo, assumia feições retóricas entre partidos como a UDN e o PTB. Jânio Quadros e João Goulart foram eleitos, para presidente e vice. A renúncia de Jânio assombrou a direita, que enxergava o fantasma de Getúlio Vargas e o ectoplasma do comunismo na figura de Jango.

A solução temporária foi o parlamentarismo. O plebiscito de 1963 recolocou João Goulart na posição de presidente com plenos poderes. Pressionado pelas massas e pela direita, o presidente anuncia as reformas de base. Era o estopim da crise. Em março de 64 a tríade militarismo-burguesia-política externa americana assumia o controle do Brasil. Era a vez do arbítrio, do AI5, do SNI, do autoritarismo, de leis educacionais como a 5692/71 que desprezavam as Ciências Sociais e Humanas introduzindo ficções pedagógicas como Educação Moral e Cívica no currículo do Ensino Básico. Em 68, no entanto, a sociedade civil organizada saiu às ruas. Muitos cristãos leigos ou da hierarquia não tinham lido Vaticano II, Medellín. Decidiram apoiar o golpe militar. Pior, demonstraram oficialmente que eram a favor da ditadura.Na minha cidade, os empresários, padres e políticos se juntaram em um movimento em favor das causas mais retrógradas. A família tradicional (representada pelos senhores locais), a propriedade e o “anticomunismo ateu”. Como dizia Paulo Freire: “isso é velho demais, atrasado demais” e foi dito faz apenas quatro décadas e meia. Os ateus que se apinhavam na luta social nem mereciam a conversão, diriam os mais radicais.O perigo do comunismo (sic) justificava a expropriação dos direitos e o sucumbir da sociedade democrática. Religiosos eram perseguidos e torturados. Frei Tito de Alencar Lima se suicidou, por conta dos traumas psicológicos sofridos durante a tortura nas mãos de Sérgio Paranhos Fleury, que chefiava a operação OBAN (Operação Bandeirantes). O operário e líder comunitário católico Santo Dias da Silva era morto pela Polícia Militar de São Paulo. Milhares de homens e mulheres foram assinados sob o regime militar. Desvios impensados e da luta contra o regime ecoaram em atos de desespero político, como as guerrilhas urbanas e rurais. Muitos católicos não tinham consciência da necessidade de ajudar a apaziguar tensões políticas e conclamar as forças contrárias ao regime para a luta pela paz a partir dos direitos dos pobres e desvalidos. Não ajudaram a denunciar a ditadura em esforços legais e democráticos. Continuavam a “votar” na ARENA, no PDS, no PFL, a apoiar os que endossavam a maldade política. A efemeridade da democracia é um fato inconteste, conforme anunciou Claude Lefort. A água chegava ao pescoço, militantes da igreja eram presos e torturados. Alguns acordavam, lentamente, outros dormiam no silêncio dos anjos. Jornais católicos panfletários pró-golpe apoiavam o regime de exceção. Paulo Freire era expulso do país. Justo ele que era um confesso devoto, efetivamente autêntico? A casa de Dom Helder Câmara (o bispo vermelho e fundador da CNBB) foi metralhada por grupos governistas em 1968 e ele próprio seqüestrado. Bispos de São Paulo mais corajosos, como o Cardeal Arns e Dom Gabriel Paulino Bueno Couto assinaram o Manifesto de Brodósqui contra a ditadura.

Os responsáveis das igrejas progressistas de todo o Brasil assumiram o risco da prisão e da tortura escrevendo “Brasil Nunca Mais”. Os teólogos progressistas foram colocados no banco dos réus da comissão da doutrina e da fé. Muitos militantes católicos dos movimentos espiritualistas nunca tiveram oportunidade de ver a situação política com outros olhos. Alguns se omitiram. É uma pena. A mística bem que poderia andar de mãos dadas com o compromisso social cristão. Para fazer justiça, parte dos leigos que se engajou nesses movimentos, que faziam o contraponto à igreja progressista, especialmente os movimentos de jovens, não tinham a menor noção do que estava em jogo, já que em muitas localidades não havia abertura para que o discurso social e político da então engajada CNBB fizesse eco. As paróquias se tornaram seu centro gravitacional, Encontros de Casais, Movimentos de Jovens, Cursilhos de Cristandade, se tornaram a opção oposta à opção preferencial pelos pobres. [2] 

A fé como elemento da cultura é um grande bastião para os sofrimentos do povo, é preciso acreditar, rezar, esperançar uma vida melhor para todos acreditando na existência de um ser supremo. E esse ser não compartilha da violência, do sarcasmo, do moralismo, do controle, do arbítrio. O Cristo cósmico defendido por Teilhard Chardin não é o Cristo de muitos cristãos, porque eles não conseguem fazer convergir para a bondade universal, que é uma justiça inerente à natureza mesma do filho de Deus. Uma bondade que é utopia e construção. São cristãos que nunca viram que ditaduras não podem se constituir como regimes que visam o bem comum. Para muitos dos que participavam e ainda continuam participando de movimentos espiritualistas mistificadores, que não compreendem a mística cristã, fazer política é apoiar e fazer política direita, “optando” pelo discurso mistificador da fé, centrado no moralismo, nas “razões” não consensuadas (onde encontrar consenso em meio à contrariedade explícita?). Apóiam quem abusam da boa fé do povo durante o processo eleitoral. Como tendem para a falta de democracia no espaço eclesial, enxergam-na também (e a vivem) na política, defendendo-a. Não existe espaço para a subversão, não existe espaço para o Cristo subversivo, já que ele o foi: andou com os despossuídos, os analfabetos, os alijados, os doentes, as prostitutas, as crianças, os cobradores de impostos. Preferiu o povo humilde, não a hierarquia judaica ou os ricos. Preferiu os apóstolos, não os chefes religiosos ou políticos tradicionais. Nunca incitou a violência, assim como nunca o socialismo democrático a defendeu. Onde está a violência?No domínio, na razão instrumental, como dizem os filósofos da escola de Frankfurt. E onde há domínios não há democracia. Onde há controles não pode haver consciência coletiva. Onde se situam os controles? Podem ser identificados nas práticas institucionais (na igreja, nos partidos, no Estado, na mídia, na família). Onde se situa a democracia? Ele é algo recorrente ou temos ainda um longo caminho a percorrer para alcançá-la, construí-la? Está na esfera pública, como nos indica Habermas?

Parte desses cristãos continua naquela mesma perspectiva moral da idade média, que subjuga a política a “princípios religiosos” que não são compartilhados por todas as pessoas, especialmente de outras crenças. Por isso reificam as práticas discriminatórias, difamatórias, condenatórias. Bispos e padres se envolvem em atos abusivos e desrespeitosos em relação ao direito de opinião. A constituição brasileira de 1988 reafirmou o Estado laico e a liberdade religiosa. Mas há uma distância entre os direitos de cidadania e o dogmatismo eclesiástico. Execram defensores do aborto como uma questão de saúde pública, mas não questionam a distribuição de preservativos em postos de saúde. Uma flagrante contradição de princípios. São cristãos conformados, de batina e báculo, para quem há um total esquecimento de que “as prostitutas e os publicanos vos precederão no reino dos céus”. Arriscaria dizer que muitas meninas que abortaram também, sobretudo se foram forçadas a isso, sem o amparo social que mereciam como pessoas humanas. E mais, que “meu reino não é deste mundo”, uma clara definição de que não há um lado político em que instituições religiosas devam se colocar. As pessoas sim, devem proceder segundo a sua consciência.Não se deve subestimar a liberdade de consciência. Nem adotar práticas de corporativismo eclesiástico defendendo quem incorre em delito eleitoral. A igreja tem o direito de manifestar seus princípios? Obviamente. Mas não de querer impô-los ao conjunto da população. Lembremo-nos do etnocentrismo que teve como colaborador a religião católica. Lembremo-nos da condenação eterna aos diferentes. Lembremo-nos de que a salvação está proposta para todos e que Cristo já nos libertou do pecado. A igreja não é um bloco homogêneo, felizmente, como nenhuma instituição é. A sociedade é uma arena de lutas, as instituições também são. Mas a igreja é instituição ou povo de Deus? Comunidade universal dos crentes ou organismo/entidade da sociedade civil?

Alguns membros dessa entidade se prontificaram a correr riscos em nome da justiça social, como os riscos que todos os cristãos movidos pela justa ira, como dizia Paulo Freire, correm. Pessoas como o já citado Dom Helder, Alceu do Amoroso Lima, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduino, Dom Angélico Sândalo Bernardino, Dom Luciano Mendes de Almeida e tantos outros membros da hierarquia ou leigos que deram a vida em favor dos pobres e despossuídos deste mundo. Os pobres que, beneficiados com programas sociais, são vistos como vagabundos que não querem trabalhar, numa realidade histórica em que a visível construção de condições para o trabalho formal tem se dado a passos largos.

Nos anos 70 a igreja acordou, por um curto período de tempo, e se tornou o grande guarda chuvas que abrigava as resistências à ditadura. Celebrou junto com outras igrejas cristãs e não cristãs um dos mais belos atos ecumênicos já vistos, em pleno ano de 1975, na catedral da Sé, denunciando com coragem o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, um “judeu comunista”, no dizer dos generais. Dom Paulo Evaristo e o Rabino Henri Sobel se tornaram ícones da luta intereclesial contra a ditadura. O espírito ecumênico ganhou força e as diferentes igrejas e religiões se aproximaram. Novos ventos espirituais refrescavam o rosto do cristianismo.

A farsa da redemocratização culminou no Colégio Eleitoral. O Movimento das Diretas foi rejeitado pelo congresso, abria-se caminho para a “conciliação temporária” de interesses. José Sarney assumia o legado de Tancredo Neves e enfrentava um dos piores momentos econômicos do país. Tardou, mas a constituição de 88 abriu caminho para as eleições. Um novo espectro rondava o planalto central, a volta da direita raivosa. Fernando Collor de Mello criava um factóide político em torno de sua própria imagem. E caiu para dar espaço ao que já havia permitido iniciar, a onda neoliberal. Antes disso, em 79, muita gente voltou, as eleições se tornaram recorrentes novamente. Os cristãos puderam se organizar em outras bases e instituições. Muitos movimentos espiritualistas se transformaram ou terminaram. As Comunidades Eclesiais de Base podiam agora ofertar uma boa safra de cristãos comprometidos socialmente para os partidos mais diversos e sindicatos. Clubes de mães, sociedades amigos de bairro, se enchiam da presença dos militantes da igreja progressista. Os cristãos mudaram, passaram a se comprometer com a causa evangélica, unindo fé e política. A igreja se comprometia com os pobres, dava voz e vez a eles em seus espaços. Por um curto período, a aparente normalidade entre os muros das igrejas se consolidava. Não se imaginava a volta à grande disciplina, a reviravolta geopolítica, a escolha uma política externa e interna promovida pelo Vaticano marcada pelo retorno do controle hierárquico. Cardeais e bispos progressistas foram sendo substituídos por outros mais afinados com a visão de Roma. A Teologia da Libertação foi colocada sob suspeita, a Frei Boff foi imposto o silêncio obsequioso e as dioceses progressistas foram esquartejadas. Práticas que continuam até hoje, quando determinados bispos colocam na geladeira eclesial quem assume uma posição política diferente. Era o retorno da mistificação, espaço para os recuperados movimentos em que cristãos calados, participam até hoje. Ou melhor, calam apenas para determinadas questões, para outras estão abertos. Nunca ouviram falar do Cardeal Cardjin e do Método Ver-Julgar-Agir, nem da Ação Católica de Esquerda, já que os novos padres são formados em outras escolas pastorais, outras teologias. Nunca se preocuparam com as angústias de muitos jovens da minha geração, que militavam nas fileiras da Pastoral da Juventude, sonhando uma fé comprometida com a mudança social. Que liam quase devorando o Concílio Vaticano II, as Encíclicas Sociais, os documentos sociais da CNBB.

Evidentemente, nem todos os participantes desses movimentos se comportaram desta maneira, tiveram a oportunidade de conhecer outras experiências, muitas vezes fora de suas dioceses originais. Mas suas direções, afinadas com o discurso de bispos menos afeitos aos apelos populares, davam o tom de sua visão política e de mundo. Talvez por falta de abertura para outras visões, talvez propositalmente, talvez por convicções nunca postas em dúvida. Ainda hoje as Comunidades Eclesiais de Base funcionam a todo vapor, mesmo que muitos nunca tenham entendido o que essa experiência significa e apesar de todo controle. Para esses que não as compreendem, o amor ao próximo é a base de tudo, mas um amor deslocado da história, do sofrimento dos pobres e excluídos. Um amor caritativo e piedoso, mas insuficiente para o real compromisso cristão.

Os cristãos de direita, nunca imaginariam o que significa para um jovem de 23 anos, como Pedro Yamaguchi Ferreira, dar a vida pelos mais pobres em meio à floresta amazônica. Inebriam-se na vida litúrgica, mas não compreendem a liturgia como ato concreto de dedicação aos humildes. Eles estão com exemplos logo abaixo do nariz, mas não conseguem percebê-los. Não entendem que o amor a Cristo não se vive entre os muros das paróquias, ou em celebrações volumosas, porque “a fé sem obras é morta”. Muitos até se esforçam em obras de caridade, em trabalhos assistenciais, em pastorais que se dedicam ao trabalho de resgate da dignidade da pessoa humana. Mas com o que se comprometem politicamente? Com quais projetos políticos?

Projetos populares e participativos ou aqueles que cumprem ordens de organismos internacionais? Endossam o projeto neoliberal, capitaneado por quem deveria estar mais à esquerda. Endossam o projeto verde, que no mundo todo serviu de esteio para reformas à direita e se abstém de tomar partido (há controvérsias). Endossam o discurso da esquerda sectária que abdica da tarefa de construir junto e prega o voto nulo. Alguns até mudaram de lado, antes endossavam o popular, agora endossam os que fundamentaram políticas públicas pautadas pelo espírito privatista. Endossam a política vinda de cima ou a que se faz a partir dos de baixo? Dispõem-se a reservar um espacinho de seu tempo para discutir o orçamento, participar de uma seção na sua Câmara Municipal, ajudar a mudar os rumos da política feita pelos eleitos, entre uma oração e outra? Arregaçam as mangas em suas comunidades locais, discutindo questões de interesse coletivo em movimentos de saúde, em defesa da escola pública, nas associações de bairro? Ou vão na onda dos que talvez nunca leram os documentos da CNBB que denunciaram as injustiças patrocinadas pelos que ainda contaminam a vida econômico-política, infiltrados em partidos nada populares? As pastorais sociais de tendência popular fazem exatamente o contrário. Comprometem-se com o efetivo sofrimento do povo, sem uma perspectiva meramente caritativa. Claro, contestarão, enumerando uma série de pessoas do seu círculo político que destacariam também como cristãos autênticos. Mas o que me parece é que tem faltado leitura complexa. Há pessoas honradas em qualquer agremiação política, como há também desonrados. O mesmo pode se dizer da igreja? Sim, somos santos e pecadores, não? Padres pedófilos envergonham a igreja, que não tem culpa desses desvios. Eles devem ser punidos? Apedrejados? Ou vale a força da lei e do direito dos homens? Políticos corruptos envergonham os partidos políticos? Qual deles está imune a esse desvio? Não deveria prevalecer para estes a força da lei? Perdem-se os princípios de uma instituição religiosa ou política por quais razões? Por falhas humanas? Se disserem que sim, estaremos de acordo.

Então, por qual razão centramos fogo nos desvios (já que existe a lei) e perdemos o foco em relação aos projetos? Por qual razão não apoiamos que se cumpra a lei? Eu fico com a premissa de que o evangelho é revelado aos humildes. Não me alivio com a defesa incondicional de nenhuma pessoa, porque seria contraditório com relação à natureza humana, plena e decaída. Mas como humanista, não posso me furtar a uma leitura complexa, quase nunca precisa, sobre o que move a vida de cada ser humano.

Não sou como disse, afeito a rótulos, prefiro a liberdade de consciência, o espírito livre, independentemente da instituição política e religiosa que se me apresentam como “melhores”. Talvez por isso tenha me afastado delas, onde não percebi espaços para o efetivo debate democrático. Sou imune ao petismo sectário e ao catolicismo reacionário. Mas reconheço em alguns militantes da igreja e de partidos progressistas um efetivo compromisso com os pobres. Prefiro manter-me fiel a alguns princípios que julgo fundamentais, sem me declarar mais como parte integrante de um rótulo. Sinto-me livre para reconhecer o que há de bom e o que não há em qualquer espaço institucional, mas sempre preservando certa distância crítica. Talvez ainda esteja inserido na comunidade dos crentes, no grupo dos que defendem uma luta popular ancorada na democracia socialista, mas não necessito deste reconhecimento social. Sou a favor, da reflexão apurada, crítica. Talvez por ser filósofo e me dedicar à Sociologia e à História, penso que a dialética da contradição é, por um lado, uma dádiva do conhecimento, por outro, me esforço para que sejam construídas, especialmente através do trabalho educativo, relações dialogais melhor qualificadas, para não recairmos no adesismo barato, sem fundamento. A subjetividade é um outro valor que cultivo. O que se entende sobre o bem comum pode ter várias interpretações, como já disse. Quem sabe ele possa constituir-se como um princípio intersubjetivo, que pode ser discutido e aprimorado? Agindo como esses ditos cristãos agem, apoiando os projetos que apóiam, não creio que possamos atingir esse patamar consensual, quase utópico hoje em dia. Não dá para suplantar a força do domínio e do poder exercido pelos de cima sem a unidade dos de baixo. Uma unidade na paz, não como elemento de conciliação, mas como razão ética de força intersubjetiva. E quem está com os de cima? Quem está com os de baixo? Quem se cala e prefere a “neutralidade”? É preferível crucificar a perdoar? Ver a palha no olho dos irmãos, ou descobrir a trave no próprio? É preferível que os bancos das paróquias sejam reservados aos mais importantes, como na idade média? Que eles participem da liturgia como um direito adquirido aos mais destacados “fiéis”? E que seja anátema aquele que supostamente não compartilha das crenças cristãs? Não leram São Paulo? Não leram Jesus?

Ah, o velho Dom Paulo Evaristo um dia colocou um mendigo, desses que são expulsos das igrejas, sentado no altar da celebração fraternal. Exemplo ímpar.Esses cristãos confundem liberdade religiosa e de opinião com controle moral. Mas acreditam em tudo que é publicado na “imprensa livre”. Os vitimados pela falta de oportunidades culturais e educacionais, no entanto, não são tão ignorantes assim para que a tutela do padre, do bispo ou do líder partidário precise ser manifestada. Alguns dos que estão um pouco acima na cadeia social, parecem nunca ter lido absolutamente nada que tenha algum rigor científico. Desconhecem o significado do termo “dilema ético”, porque não o tem, vivem de certezas e ortodoxias, não do benefício da dúvida, não do sentido da complexidade e da noção de contexto. Esqueceram-se da compaixão, esqueceram-se do perdão. Esqueceram-se que em situações extremas, o que prevalece é sempre a consciência de cada um e que só a Deus cabe julgar. Pobres dos divorciados, dos destituídos do sagrado, dos homossexuais, dos que não compartilham mais da prática católica, buscando espiritualidade nas partículas de seu próprio organismo, no Deus não panteísta, mas condição imanente em toda criatura. Nenhuma vida perdida deve ser justificada, é verdade. Mas há dilemas morais em que escolhas não são movidas por racionalidades, teologias. São meras escolhas, difíceis, mas escolhas. Mas nenhuma alma viva deve ser atacada até à morte moral, porque isso é contra o evangelho.

Deixemos o nome das pessoas de lado e pensemos em projetos políticos. Não pessoalizemos situações, vamos olhar de forma mais abrangente que há uma malvadeza solta pelo mundo, uma malvadeza contrária ao evangelho. Uma malvadeza que na voz de um prêmio Nobel de economia significa impedir uma política para os excluídos, tornando o Estado um serviçal dos interesses privados.

Se tivermos que discutir a política econômica, fazer ver que ainda há um esforço enorme para que a efetiva mobilização popular aconteça; se tivermos que fazer ver que ainda há privilégios e concentração de riqueza, tenhamos coragem de assumir essa tarefa. Se tivermos que denunciar desvios de princípios, comecemos fazendo pela própria igreja, tenhamos humildade para assumir essa postura. Infelizmente alguns cristãos votam em quem beija o crucifixo em um palanque. Nos pastores televisivos (católicos ou evangélicos) sem teologia. Esqueçem-se que sujeitos a erros todos estão. Esqueçem-se do espírito fraternal e do respeito à pessoa humana e atiram a primeira pedra. Votam nos candidatos comprometidos com a grande imprensa, com o latifúndio improdutivo, com a destruição do patrimônio público, com o controle da feitura das políticas públicas sem participação da sociedade civil. Votam nos que endossam e engrossam as fileiras dos desmantelamentos neoliberais, nos que vendem o que é de todos alegando que o Estado deve se abster de interferir na economia, mesmo interferindo em favor da propriedade privada. Abdicam da fé cristã e continuam agindo como sempre agiram, fechando os olhos para o fato de que é mais fácil um nó bem grosso passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. E alimentam o ódio através de panfletos e homilias (e olha que o ódio de classes era considerado uma característica do socialismo, hein?). São contra tudo o que o evangelho prega. Particularmente, sou feliz por ter uma criança em minha família que se recusa a falar mal dos outros. Com apenas 11 anos de idade, dá um banho de cristianismo em vários sacerdotes e bispos que ocupam os altares. Até agora, só teve o benefício do sacramento do batismo e da eucaristia. E nunca será ordenada. Continuam considerando que só se pode viver a autêntica fé cristã dentro das paredes das igrejas. Continuam enaltecendo a “probidade administrativa” dos “melhor preparados” e dos que se declaram católicos ou cristãos. Desconsideram os operários que chegaram ao poder, os ateus, os budistas, os xintoístas, os umbandistas, os maometanos, os espíritas. Encontram a corrupção apenas onde desejam ver. Encontram as boas realizações e o “sucesso” da escola pública em determinados estados do país. Ficam felizes por ver seus filhos se tornando cidadãos “preparados” por essa escola que empurra todo mundo pra frente sem aprender, que despreza o professor. Rezam bastante e esqueçem-se do mundo, esqueçem-se que a vida é uma oração. Se houver um juízo futuro, a História dirá. Como há justiça divina, devemos esperar que ela se manifeste. Lavam as mãos todos os dias, como fez Pilatos. Crucificam o povo.O Cristo dos pobres, da mensagem revelada aos humildes, infelizmente está esquecido por esses cristãos, que se associam aos poderosos, que votam nos seus representantes, que cantam e dançam alegremente liderados pelos eminentes proporcionadores da cura e da libertação. Libertação em outra perspectiva, não a Libertação integral, social, política, ecológica. Que Deus me perdoe se minha crítica for ácida, já que não quero condenação, mas tenho esperanças em alguma harmonia possível. Consola-me o fato de Cristo ter dito que após admoestar um irmão que se recusa a reverter seus atos, devemos sacudir o pó de nossas sandálias e continuar nossa missão. Consola-me o fato de Jesus também ter permitido a si mesmo a raiva contra os fariseus hipócritas, sepulcros caiados. Ter usado o chicote contra os vendilhões do templo. E Ele nunca perdeu o amor pelos efetivamente arrependidos. Também tenho esse desejo. Penso mais em correção fraterna que expurgo. Não os condeno, mas conclamo à reflexão. Não me acusem de não possuir autoridade. Vocês gostam do argumento da autoridade autoritária, mas eu prefiro a autoridade dos argumentos democráticos, aprendidos com minha passagem pela igreja e pela minha caminhada intelectual.

Não me esqueço da caridade e da fraternidade, mesmo considerando-me um servo inútil. Não continuem rotulando e assumindo rótulos, por que “nem todo aquele que me diz senhor, senhor, entrará no reino dos céus”. Não se esqueçam das palavras de Jesus: “eu quero compaixão e não sacrifícios”. A compaixão com os sofredores deste mundo. Neste mundo em que Deus se manifesta, no aqui e agora.

Por fim, reconforto-me ao lembrar que ainda há outro tipo de cristão no Brasil, que nunca ficará acomodado esperando que Deus faça por nós, o que é nosso dever: promover a justiça e a igualdade. Muitos deles nem estão ocupando os espaços das igrejas, não participam dos sacramentos ou talvez nunca tenham ouvido falar em Jesus. 

 

[1] Sugiro a leitura da dissertação de Paulo Roberto de Almeida (Círculos Operários católicos: prática de assistência e de controle no Brasil- 1932-1945. PUC/SP, 1992), professor da Universidade Federal de Uberlândia sobre o papel exercido pelos Círculos Operários Católicos no Brasil, movimento que operava no meio católico conservador, infiltrando-se na luta sindical para dar contornos ao discurso em favor de direitos trabalhistas.

[2] Valeria a pena ler o texto de Vera da Silva Telles intitulado “Anos 70: experiências práticas e espaços”, publicado na obra “As lutas /sociais e a cidade”, organizada por Lúcio Kowarick e publicada em 1988 pela Editora Paz e Terra. Também interessante é o trabalho de Emir Sader “Quando novos personagens entraram em cena”, publicado pela mesma editora em 1989, demonstrando o engajamento social cristão nas lutas populares.

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