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Por Rodrigo Manzano

            Vivemos uma era que louva a tecnologia! Quem de nós não se regala com as beneficies que os avanços tecnológicos nos trouxeram? Há 50 anos, ninguém sonhava em pagar uma conta a distância, sem precisar pegar filas, ninguém tinha a facilidade de poder avisar que iria se atrasar para algum compromisso estando a caminho dele devido a algum imprevisto ocorrendo no trajeto, ninguém podia acompanhar em tempo real notícias sobre as mais diversas questões, vindos de diferentes lugares do mundo! Tudo se tornou mais fácil devido ao verdadeiro bum tecnológico que vimos nos últimos 35, 40 anos.

Um dos símbolos mais visíveis desses avanços da tecnologia é o celular. Tendo sido algo recente na história da humanidade, ele trouxe a possibilidade de comunicação praticamente imediata. Um instrumento que realmente veio facilitar nossas vidas, e que devido ao seu tamanho reduzido, pode ser levado para qualquer lugar realmente. Nada o supera, pois traz consigo a praticidade, além de trazer hoje, nas suas mais diversas versões, muito mais funções do que a simples comunicação com outras pessoas em lugares distantes, como foi pensado por Graham Bell a função do telefone. Jogos, acesso à internet, envio de mensagens, memória para arquivar livros, textos, enfim, uma infinidade de possibilidades em um objeto que pode chegar a pouco menos de 50 centímetros cúbicos. Algo que nos coloca diante de uma infinidade de possibilidades tão grande, que nos perdemos no uso desse objeto, a tal ponto que não mais sabemos se ele é o instrumento ou nós.

Se pararmos para olhar as pessoas em lugares públicos, nos assustamos com o número de celulares que vemos. Tornou-se quase um imperativo que as pessoas tenham celular, e quem não tem é quase que um excluído da sociedade tecnológica. Pior é o uso que se faz deles! Pessoas colocam seus fones para escutar músicas, ou ficam vidradas nas telas, naquilo que veem nelas, como se estivessem diante de um verdadeiro objeto de devoção. Porém, muitas vezes, esquecem-se de ver o que está acontecendo no mundo real à sua volta. Exemplifico o que digo com um fato que vi há algumas semanas em um transporte público. Alguém mexia tão entretida em seu celular, sentado em um banco do meio de transporte, que nem pode perceber ao seu lado que havia uma idosa em pé! Pelo modo que a pessoa estava tão presa pelo que via na tela de seu celular, tenho certeza que nem se deu conta da senhora que estava ao seu lado. Não usou da situação para não dar lugar, mas sim, nem percebeu que havia um ser humano ao seu lado, pois a máquina tinha maior importância para a sua atenção. Tal fato, se pararmos pra pensar, e não é o único que vemos em nosso dia-a-dia, nos mostra como a tão louvada tecnologia é extremamente deletéria, pois nos faz realmente substituir o orgânico pelo mecânico, o homem pela máquina. Se alguém já teve a experiência de ver um celular caindo no chão ou mesmo sendo roubado, as pessoas parecem sentir-se diante do fim do mundo, pois aquilo se tornou o objeto de fetiche mais importante para alguém.

A verdade é que instrumentos como o celular cada vez mais auxiliam no processo de alienação, já descrito por Marx e pelos frankfurtianos. As pessoas se afundam em dívidas para comprar o celular, ou qualquer outro objeto tecnológico, pelo mero prazer de dizer que têm. Pior, o uso de tais instrumentos acaba fazendo com que as mesmas se desumanizem. Pessoas tornam-se escravas das máquinas, desta tecnologia barata, e consomem sem a menor reflexão. O importante é comprar e usar, mesmo que não seja para nada de útil. Como professor, sou testemunha do quanto nossos alunos se alienam por causa dos celulares, se preocupando em acessar sites ou trocar mensagens durante a aula, pouco ou nada se preocupando com o conteúdo que está sendo exposto na aula, muitas vezes até mesmo fazendo severas críticas a este sistema que os torna consumidores, e o pior, objetos da tecnologia. O celular torna-se um símbolo da massificação, na qual pessoas de todas as idades hoje usam-no de alguma forma, e o pior, usam-no para esquecer do mundo que está à sua volta. Poucas pessoas usam esse tipo de tecnologia de uma forma realmente útil. Tornou-se mais um elemento de distração, e assim, de alienação. Colocamos nossos fones de ouvido, e esquecemos o resto do mundo à nossa volta. Acessamos a internet na sala de aula ou em palestras pouco interessantes, e acreditamos que estamos em situação de vantagem obtendo grandes informações que são colocadas na rede mundial. Enfim, acreditamos estar usando o celular, e no entanto, nós é que nos tornamos verdadeiros escravos das suas possibilidades, a tal ponto que não o deixamos mais. Tal fator, como já dizia no exemplo acima, é assustador, pois nos faz esquecer valores, entre eles principalmente o valor do respeito, pois nos esquecemos de respeitar as pessoas próximas, pois os nossos gostos pessoais que podem ser desfrutados em qualquer lugar pelo uso do celular são mais importantes. Haja vista quantas pessoas usam meios de transporte coletivo e escutam músicas em volume alto, sem respeito por ninguém, como se o gosto de um fosse realmente um gosto comum, algo para o bem comum.  Os celulares tornam-se o centro dos nossos mundos e tudo o que sai disso realmente não tem nenhuma importância. Porém, não percebemos com isso o quanto estamos nos alienando. Na verdade, o celular é um exemplo, mais que isso, um símbolo do individualismo ao qual nossa sociedade nos impõe, pois me fecho no meu mundo quando mexo no meu celular. O que me importa se quem está do meu lado está sendo incomodado, o que me importa é que meu celular me proporciona prazer.

Não sou contra a tecnologia, e acredito que qualquer pessoa com pleno uso da razão não o seria. Porém, precisamos aguçar nosso senso crítico e perceber que há coisas que passam dos limites. Já dizia Aristóteles que a virtude encontra-se no equilíbrio e que o vício se caracteriza por aquilo que está no excesso ou na falta. Talvez esteja faltando sensibilidade e humanidade e excedendo individualismo, consumismo e fetichismo de mercadoria. Talvez precisemos sair mais de nós mesmos, e deixar um pouco nossos celulares e outros “brinquedinhos tecnológicos” de lado, para voltarmo-nos mais aos outros. Somente quando passarmos a olhar de outra forma aquilo que as empresas de telefonia móvel passam a nos oferecer, podemos inclusive dar um basta nessa produção desmedida que tanto agride o meio ambiente, sem falar no lixo que produzimos com a troca de celulares que promovemos todos os anos, na maioria das vezes sem necessidade. Deixemos de lado o mundo digital, analógico, tecnológico, mesmo que não totalmente, mas o suficiente para olharmos o orgânico, o mundo da natureza, do outro indivíduo, daquele que com certeza, vale mais do que as músicas que eu baixei no último fim de semana ou da última prestação que eu paguei do meu mais novo modelo de celular.

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