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Por Arnaldo Dominguez

“Por nossa posição de sujeito somos sempre responsáveis” – (Lacan)

A Ciência e a Verdade. O niilismo, termo que teve origem durante o período imediatamente precedente à Revolução Francesa e que designava, em princípio, a atitude daqueles que não se posicionavam nem a favor nem contra a revolução, estendeu-se à uma certa filosofia negativa da existência humana que parece alastrar-se em nossa época globalizada.

O niilismo existencial, aonde nem a vida nem a morte teriam algum sentido ou valor e, consequentemente, os suicídios ou homicídios ocorreriam massivamente e por pura imitação ou por inércia, ou então, como afirmava Durkheim, cumpririam uma função social necessária a toda cultura, apresenta-se – para muitos – como um atual “sem saída”.

Entretanto, a psicanálise propõe uma saída para a compulsão à repetição e o que nela se insinua de pulsão de morte. Algo desta ordem, também, encontramos na arte. Contudo, são propostas que nem sempre dão certo! “A posição do psicanalista não deixa escapatória – diz Lacan – já que exclui a ternura da Bela Alma”. Trata-se da divisão entre o Saber e a Verdade. E acrescenta: “A redução (do sujeito) constitui o objeto da ciência”.

Assim, a ciência se endereça ao “sentido absoluto”. No próximo passado sábado 02 de junho de 2012, respondendo a um convite do Prof. Sidnei F. de Vares, da UNIFAI, quem coordenou o ciclo de debates “Cinema e Psicanálise”, comentei o filme de Woody Allen “Whatever Works”, de 2009. Tal expressão idiomática da língua anglo saxônica recebeu, nas legendas em português, diversas traduções. A primeira é destacada no título “Tudo pode dar certo”. Outras, no interior dos diálogos, são “faça o que for preciso” ou “qualquer coisa que funcione”. Portanto, percorrem a dialética desde o lugar de um quantificador universal, “tudo”, “qualquer coisa”, até o imperativo categórico que emula uma certa animação neurolinguística.

O bom conselho, quiçá, a la Shinhashyki: amar pode dar certo! Tem um “pode” ou um “quase” que apontam para a impossibilidade da completude, o que causa certo alívio. Sempre me lembro daquele cinéfilo (obsessivo) que suportou até o final o filme “9 e meia semanas de amor” graças a delimitação temporal oferecida pelo simbólico do título. Isso tinha hora marcada para acabar. Allen ficou famoso inicialmente por satirizar na “telona” a neurose cosmopolita da metrópole de New York, semelhante a qualquer outra.

Neste filme, Boris Yellnikof, interpretado magistralmente por Larry David, no ato de quebrar a quarta parede, como dizem, ou seja, ao revelar que ele tem um canal direto de comunicação com os espectadores (é o único do elenco que consegue nos ver), alerta-nos: Não se trata de um espetáculo destinado a que se sintam bem. A autoajuda ou o entretenimento não são seus propósitos, digamos. Contraria, nisto, aquele filme de Benigni: “La vita é bella”, de 1997, no qual o “belo” escamoteia o “horror”, apesar de que no jornal A Folha de São Paulo dessa época tenham anunciado que “o riso nos salva” (?). Nesta película Boris grita o horror: da condição temporária, da miséria neurótica que transformou a humanidade numa massa de estúpidos reprodutores de clichês (o mundo está tão cheio de gente estúpida que ser inteligente, como ele, é um fardo), dos preconceitos da sociedade (pseudo) puritana dirigidos contra os negros, os judeus, os gays, etc.

Todo esse sem sentido da existência humana e suas crenças religiosas idiotas. Representante da encarnação do último niilista verdadeiro resgata as sinfonias de Beethoven e até a Bossa Nova para se proteger de um universo massificado de jovens, niilistas também, mas aos quais não sobrou nada para poder negar. A “balada” que frequentam, por exemplo, chama-se “Esfíncter Anal” e sugere a metáfora direta de: um gozo de merda.

Boris parece ser o único sobrevivente do naufrágio da pureza intelectual, capaz de renegar os valores metafísicos redirecionando sua força vital à destruição da moral para que, finalmente, tudo caia no vazio que nos levará à espera da morte ou ao ato de causa-la. Somente ele compreende a insignificância das aspirações humanas e o caos do universo. Ele também despreza a ternura das Belas Almas tendo se transformado no Homem do Ressentimento que busca, no isolamento, a proteção necessária para seu desamparo. Projeta-se sobre todos nós naquilo que temos de arrogância, de desmesura, de suicidas, quer seja por vias “Egoístas” (dos desamparados do laço social); “Altruístas” (imersos na consciência coletiva) ou “Anômicos” (perante uma mudança súbita de lugar social), como classificou Durkheim em 1897. Casualmente, o mesmo ano em que Freud dissera a Fliess não acreditar mais em sua neurótica.

Essa “cota de sacrifício” exigida pelo laço social e suas forças morais reguladoras externas, afinal, é um ato particular endereçado ao Outro. Pois a pulsão de morte é presença silenciosa no sujeito e no laço. O inconsciente é o discurso do Outro. O inconsciente é o social. Poderíamos situar aqui algo que emana desde a origem da crueldade infantil, que, ao dizer de Freud nos três ensaios “é referida a uma pulsão de dominação que originariamente não teria por objetivo o sofrimento alheio, mas simplesmente não o levaria em conta”. Boris tampouco busca o sofrimento alheio, senão, pelo contrário, é vítima da perfeição e do abandono. É um excluído do bando, portanto, uma exceção. Ao se referir ao Rei “torto” de Shakespeare, Ricardo III, Freud diz que ele representa uma enorme ampliação de algo que acontece com nós todos. Tem o direito de fazer o mal! Boris não assume tão descaradamente esse direito. Apenas o exerce com as “criancinhas retardadas” às que ensina xadrez. É uma espécie de antigo “Maestro de Escola”, aliás, como muitos ainda o são ou como tantos analistas, quando na violência da interpretação psicologizante jogam pela janela um suposto saber que desconhece o/ao outro. Satiriza aquele que, de acordo com Lacan, não existe: “O homem da ciência”, e também a alguns psicanalistas que denunciam a “foraclusão generalizada” propondo uma espécie de retorno messiânico do Pai Imaginário. Os demonizadores, de que fala Jurandir Freire Costa. Convoca o paradigma da loucura da ciência que rejeita a subjetividade por razões metodológicas. “A ciência está louca – diz Coutinho Jorge – mistura espécies, clona os animais e quer fazer isso com o ser humano. O ápice da loucura é tentar transformar a reprodução sexuada em assexuada”. Se, por um lado, Boris representa aquele que “sabe tudo o que interessa”, debochando da mediocridade dos homens e atingindo também aos Eminentes Senhores da Academia sem poder se espelhar no símio de Kafka e nem usufruir do ato de Sartre ao rejeitar o Nobel de literatura, por outro, seu amigo professor de Filosofia faz um atravessamento discursivo perpendicular promovendo o saber e o valor no outro tido/dito como semelhante. Nesse caso, sua futura amante, a sogra de Boris, que o filósofo compartilhará com outro amigo numa “terceirização” do desejo insatisfeito, mais do que numa “ménage à trois”. O espanhol Juan Antonio Rivera, professor de filosofia, invocou Sócrates num livro para interpela-lo sobre o que ele diria a Woody Allen e seus filmes. Allen que foi expulso do curso de filosofia na Universidade de Nova York em 1953. Pois, digamos (antes de ler o livro de Rivera) que Boris transgride o Banquete de Platão e cede perante a insistência do amor transferencial de Melody (Evan Rachel Wood), jovem e bela quem, ao estilo de Alcebíades, parece ter encontrado o Ágalma (objeto a) na suposta genialidade hipocondríaca de seu benfeitor. Melody é o retrato da Bela Alma, feliz em sua paixão pela ignorância e “enfermeira” que cuida e sustenta o Gozo do Outro. No caso, um outro atormentado pelo saber no lugar da verdade. Orham Pamuk, num recorte que gentilmente enviou-me Íris Moraes Araújo e extraído de “Outras Cores”, escreveu: “Minha biblioteca não é motivo de orgulho, mas de vingança contra mim mesmo e de opressão”. Estará toda cientificidade intelectual condenada à loucura? Exemplos disso não são poucos. Mas, será por conta disso que Boris se defronta, no final, com a magia? Tenta desastradamente um novo suicídio quando Melody o deixa pelo jovem ator (do desejo materno) e cai sobre uma “vidente” que se fratura em seu lugar. Bela metáfora para a mulher enquanto sintoma do homem. Afinal, o que é um homem para uma mulher? Ora, um estrago! Na magia o saber está velado e, diz Lacan, a magia é sempre magia sexual. Longe do Viagra, neste caso. Uma tentativa extremada do diretor para arrancar-nos da condição farmacológica em que pretendem nos transformar. Mesmo considerada uma falsidade ou algo sem grande valor, a magia (a ilusão) provoca, no final, feliz para tantos, uma chatice para Boris e aqueles que comungam de sua lógica, uma comemoração. O fundamentalista homofóbico se torna gay, a do desejo insatisfeito goza à rodo, e Boris esquece de cantar Parabéns a você enquanto lava as mãos ou o Hino Nacional ao sentar-se na privada, o que ficaria muito cômico no caso do Brasil. Ouviram do Ipiranga as margens plácidas..? Tudo pode dar certo? Magia e religião vão à sombra da ciência. Logo, como cantava Atahualpa Yupanki: às vezes sigo minha sombra, às vezes (ela) vêm detrás. Coitadinha, quando eu morra, com quem vai andar?

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